Tu vês o mundo que tens feito, mas não te vês como aquele que faz as imagens: os ensinamentos de Um Curso em Milagres

A idéia de hoje contém a única saída para o medo que terá sucesso. Nada mais funcionará, tudo o mais é sem significado. Mas esse caminho não pode falhar. Cada pensamento que tens constitui algum segmento do mundo que vês. Portanto, é com os teus pensamentos que nós temos que trabalhar, se é que a tua percepção do mundo vai ser mudada.”
~ “Um Curso Em Milagres“, trecho inicial do Exercício 23

É assim, a partir de um livro-texto de conceitos e um livro de exercícios, que o famoso “Um Curso em Milagres” realiza seu trabalho espiritual focando no trabalho sob si mesmo, no perdão e na paz interior. No “retorno ao Amor, nossa herança natural”, como o próprio curso define. O Exercício 23 publicado neste post (abaixo) enfoca a necessidade de percebermos e assumirmos a responsabilidade por nossos “pensamentos de ataque“, pois são eles que criam a ilusão e alucinação de um mundo ruim, vingativo, a ser lamentado ou mudado.

Criado por Helen Shucman (1909-1981) e William Thetford (1923-1988), professores de Psicologia Médica na Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade de Columbia, em Nova York (EUA), o curso foi “canalizado”, segundo informam as fontes internas, entre 1965 e 1972, a partir de inspiração denominada crística – qualidade perceptível pelo conteúdo caracteristicamente cristão, que foi modelado, renovado e adaptado com conhecimentos psicológicos para os tempos atuais. A mensagem de Amor encontrada no antigo cânone cristão é aqui radicalmente re-compreendida e transformada em método.

A história de como o Curso foi vislumbrado pela primeira vez é contada pela própria Helen Schucman, que logo depois de notar a idéia nascente, viria a ouvir o que chamava de “a Voz”, que depois atribuiria à inspiração do maior profeta do Cristianismo, Jesus:

“Psicóloga, educadora, teoricamente conservadora e ateísta em minhas crenças, eu estava trabalhando num ambiente altamente acadêmico e de muito prestígio. De repente algo aconteceu que desencadeou uma série de eventos que eu nunca poderia ter previsto. O chefe do meu departamento inesperadamente anunciou que ele estava cansado dos sentimentos raivosos e agressivos que as nossas atitudes refletiam, e concluiu dizendo que “tem que haver um outro jeito.” Como se eu estivesse esperando esse sinal, concordei em ajudar a achá-lo. Aparentemente, esse Curso é o outro jeito”.
~ Helen Schucman, traducão do site milagres.org

O Curso possui 365 exercícios e está na íntegra também em sites como o da Fundação para o Despertar da Mente (download em pdf).

O Exercício 23 que segue transcrito abaixo está no site milagres.org, onde é possível adquirir o livro.

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UM CURSO EM MILAGRES” (EXERCÍCIO 23)
Por Helen Schucman

A idéia de hoje contém a única saída para o medo que terá sucesso. Nada mais funcionará, tudo o mais é sem significado. Mas esse caminho não pode falhar. Cada pensamento que tens constitui algum segmento do mundo que vês. Portanto, é com os teus pensamentos que nós temos que trabalhar, se é que a tua percepção do mundo vai ser mudada.

Se a causa do mundo que vês são pensamentos de ataque, tens que aprender que são esses pensamentos que não queres. Não há sentido em lamentar o mundo. Não há sentido em tentar mudar o mundo. Ele é incapaz de mudar, porque é meramente um efeito. Mas, de fato, há sentido em mudar os teus pensamentos sobre o mundo. Aqui estás mudando a causa. O efeito mudará automaticamente.

O mundo que vês é um mundo vingativo, e tudo nele é um símbolo de vingança. Cada uma das tuas percepções da “realidade externa” é uma representação pictórica dos teus próprios pensamentos de ataque. Cada realmente perguntar se isso pode ser chamado de “ver”. Não seria fantasia uma palavra melhor para tal processo e alucinação um termo mais apropriado para o resultado?

Tu vês o mundo que tens feito, mas não te vês como aquele que faz as imagens. Não podes ser salvo do mundo, mas podes escapar da sua causa. É isso o que a salvação significa, pois onde está o mundo que vês quando a sua causa se foi? A visão já mantém uma substituição para tudo o que pensas que vês agora. A beleza pode iluminar as tuas imagens, e assim transformá-las de tal modo que as amarás, embora tenham sido feitas de ódio. Pois não as estarás fazendo sozinho.

A idéia para o dia de hoje introduz o pensamento de que não estás preso numa armadilha ao mundo que vês, pois a sua causa pode ser mudada. Essa mudança requer, em primeiro lugar, que a causa seja identificada e em seguida abandonada de forma que possa ser substituída. Os dois primeiros passos deste processo requerem a tua cooperação. O último, não. As tuas imagens já foram substituídas. Ao dar os dois primeiros passos verás que isso é assim.

Além de usá-la ao longo do dia, quando a necessidade surgir, cinco períodos de prática são requeridos para a aplicação da idéia de hoje. Ao olhar À tua volta, primeiro repete lentamente a idéia para ti mesmo e depois fecha os olhos e dedica mais ou menos um minuto a examinar a tua mente, buscando tantos pensamentos de ataque quantos te ocorrerem. À medida que cada um deles cruzar a tua mente, dize:

Eu posso escapar do mundo que vejo desistindo dos pensamentos de ataque sobre ______.

Mantém em mente cada pensamento de ataque ao dizer isso, depois descarta-o e passa ao seguinte.

Durante os períodos de prática, certifica-te de incluir tanto os pensamentos em que atacas, quanto aqueles em que és atacado. Os seus efeitos são exatamente os mesmos porque ambos são exatamente os mesmos. Tu ainda não reconheces isso e, nesse momento, pede-se apenas que os trates como se fossem os mesmos nos períodos de prática de hoje. Nós ainda estamos no estádio de identificar a causa do mundo que vês. Quando tu finalmente aprenderes que pensamentos nos quais atacas ou nos quais és atacado não são diferentes, estarás pronto para deixar que a causa se vá.

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Foto de Thomas Hawk (licença de uso BY-NC, Creative Commons)

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

11 Comentários

  • Interessante essa abordagem da lei do pensamento, sendo a agente de uma mudança de mundo. É Claro, que mudando o foco de nossos pensamentos, mudaremos nossa realidade interior e, esse interior será expresso, “a posteriori”, no nosso mundo externo.Penso que: “se cada alma que se eleva, eleva o mundo”, refazendo nossos pensamentos, criando imagens mentais de paz, por exemplo, estaremos moldando nova consciência coletiva da humanidade,mais pacífica e melhor. Esse é o milagre!

  • Conheci o UCEM nos primórdios, com a Lilian Paes (que traduziu o livro-texto do UCEM) em reuniões na casa da Anna Sharp, com uma amiga em comum e que depois passou a organizar leituras semanais, em s/pp casa, com um grupo formado por pessoas de diferentes religões e filosofias, o que só engrandecia às reuniões. Na época vários psicólogos se interessaram por ele.

    “O Perdão é a chave para a Felicidade. Nada real pode ser ameaçado. Nada irreal existe Nisso está a paz de Deus.”

    “A Paz é de Deus, você que é parte de Deus, não está no lar, exceto em sua paz.”

    (Não é necessário uma identificação pessoal com Jesus como uma pessoa histórica, alguém que foi crucificado e “ressurgiu dos mortos”. Nem sequer é necessário que nos identifiquemos com ele como o autor do Curso ou como nosso professor. Contudo, é necessário perdoá-lo. Se não o fizermos, estamos guardando algo contra ele, que estamos realmente guardando contra nós mesmos. Ele não pede que o tomemos como nosso professor pessoal. Ele pede apenas que olhemos para ele de um modo diferente e não o responsabilizemos pelo que outras pessoas fizeram dele. Em um certo ponto no Curso, o Espírito Santo diz: “Alguns ídolos amargos foram feitos dele que apenas queria ser um irmão para o mundo” (E-:). Assim como Freud disse: “Eu não sou um freudiano”, Jesus poderia dizer: “Eu não sou um cristão”. Nietzsche disse que o último cristão morreu na cruz, o que infelizmente é provável que seja verdade. – KENNETH WAPNICK)

    “Escolhe Outra Vez”:

    “As provações são apenas lições que falhaste em aprender, apresentadas mais uma vez de forma que onde antes fizeste uma escolha faltosa agora possas fazer outra melhor e assim escapar de toda a dor que o que escolheste antes trouxe a ti. Em toda dificuldade, toda aflição e a cada perplexidade, Cristo te chama e gentilmente diz: “Meu irmão, escolhe outra vez”. (…). A Sua santidade é a tua porque Ele é único Poder que é real em ti. A Sua força é a tua porque Ele é o Ser Que Deus criou como Seu único Filho.”

    Um Curso em Milagres T-31.VIII.3

    Sempre a essa passagem, um amigo querido, judeu, sempre dizia: “Gente, podemos escolher de novo, mas vamos tentar economizar ‘corpos” (rs)

    Quanto aos exercícios sempre me pareceram similares a algums dos budistas tibetianos e talvez pelo fato do Curso ter sido escrito em verso – pentamétricos iâmbicos (Shakespeare tb usou esse estilo e a Helen o apreciava – o que não o torna uma leitura corrida) e com frequência, me recordava o Rumi:
    Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
    Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
    Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
    Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.
    (RUMI)

    Há muito material na WEB a respeito para os interessados e creio que encontrem alguns lugares de reuniões.

    Uma das dificuldades ao estudarmos Um Curso em Milagres é que ele não se parece com nenhum dos outros sistemas de pensamento. A maioria procede de uma forma linear na qual você começa com idéias simples e vai construindo em cima delas em direção a complexidade. O Curso não é assim. O sistema de pensamento do Curso é apresentado de um modo circular. Parece andar em círculos sempre em volta do mesmo ponto uma e outra vez. Vamos pensar na imagem de um poço: você vai andando em círculos em volta do poço indo cada vez mais para baixo até chegar ao fundo. E o fundo desse poço seria Deus. Mas você continua andando em volta do mesmo círculo. Acontece que ao seguir cada vez mais para baixo, você se aproxima da fundação do sistema do ego. Mas é sempre a mesma coisa. E marca bem que a culpa sempre exigirpa punição.

    Trabalha com toda a estrutura do ego: o relacionamento entre pecado, culpa, e medo.

    Uma das frases mais bonitas no Curso é a introdução à quinta revisão no livro de exercícios (L-pI.rV.: -). Esse é um dos poucos lugares no Curso em que Jesus fala de si mesmo. Parafraseando, a passagem seria: “Eu preciso dos teus olhos, das tuas mãos, dos teus pés. Preciso da tua voz através da qual eu salvo o mundo”. Isso significa que sem a nossa ajuda, ele não pode salvar o mundo. É isso que ele quer dizer no texto quando diz: “Preciso de ti tanto quanto precisas de mim” (T-V.: O). A Sua Voz não pode ser ouvida no mundo a menos que venha através de nós, porque ninguém pode escutá-la de outro modo. Ela tem que vir através de formas e corpos específicos neste mundo para que outros corpos possam ouvi-la. De outro modo, será sempre uma abstração simbólica que significa muito pouco. Ele precisa que deixemos o nosso ego de lado o suficiente para que ele possa falar através de nós.

    Sempre me lembro desse período com muita gratidão, pois foi muito acolhedor e importante no momento que vivia. Grata pela postagem.

    Há uma frase no Curso que pergunta: “Preferes estar certo ou ser feliz?
    Boa Sorte, Norma

    • Fiquei mais feliz hoje ao ler, no Dharmalog uma pitada do UCEM.
      Sou estudante ha 16 anos. Assim como Norma, minha primeira experiencia foi com a Anna Sharp.Depois conheci Lillian Paes, ambas grandes amigas ate hoje. Montei o primeiro grupo de estudos em Salvador, na minha casa.Ate que de tao cheia, cinco anos depois, dividimos os grupos. Ate hoje na estudei de tao profundo, tao direto e tao belo sobre nós mesmos.O UCEM tem varias semelhanças com o budismo, no tocante a psicologia do ego, mesmo que ele nao exista, como diz o UCEM. É o meu livro de cabeceira, e sempre surpreendente. Nao foi “canalizado”, o que induz a estado alterado de consciencia. Isso nao aconteceu com Hellen.Pelo menos ela nao diz isso, no que li.Parabens pela divulgação.

    • Às vezes tenho a impressão que o UCEM parece ter vindo para desfazer alguns enganos ou problemas nos ensinamentos cristãos tradicionais (ao menos os católicos romanos…), com sua releitura do perdão, do amor e da paz interior em termos didáticos e detalhados.

      Mais do que falar e ensinar sobre o perdão, tem essa clareza e assertividade (como nesse exercício 23) pra dizer que o problema do perdão é nosso e somente nosso. Não estamos perdoando alguém porque consideramos que a pessoa mereça ser perdoada, porque chegamos a essa conclusão “do alto da nossa bondade, lisura ou moralidade”, mas porque julgar e condenar é nosso próprio ato de violência e auto-confinamento.

      Belos trechos você adiciona aqui, tenho certeza que quem ainda não conhece vai ser interessar mais.

      Obrigado,
      Nando

    • Roberto, fico feliz de ler teu depoimento, de alguém tão envolvido com o Curso e que o aprecia tanto. Obrigado por vir aqui e comentar e nos dar mais uma perspectiva.

      O “canalizado” foi colocado entre aspas justamente por isso, pq apesar de alguns sites em inglês (inclusive do próprio curso) falarem em “channelling”, não sei se seria a expressão ideal, embora pudesse ajudar a entender. Esse processo me pareceu mais semelhante ao do Neale Donald Walsch do que ao do Gary Renard, que você deve conhecer – expoente atual do UCEM (“The Disappearence of the Universe”), que fez palestra no Rio há uns 2 anos. Como a Helen parece ter identificado a fonte e a chamou de “a Voz”, me parece ter havido uma comunicação entre dois em um nível sutil. Mas fica a observação e o teu alerta, de alguém de dentro que estudou e estuda até hoje.

      Também vejo semelhanças entre o UCEM e o Budismo, embora também com algumas diferenças, concordam plenamente nesse caminho de responsabilidade sobre si mesmo e de consciência da atividade mental (que constrói o mundo).

      Namastê. :)

  • A “psicologia” Budista fala disso desde os primeiros ensinamentos do Buda Shakiamuni. A meu ver existe aqui outra linguagem e forma de abordar, mas na essÊncia tem a mesma interpretação.

  • Quanta informação preciosa e pertinente!
    Texto maravilhoso sim, o que “esta fora”é resultado sim
    do que esteve primeiro dentro,somos co-autores…duro é sair
    da Roda de Samshara…haja paciência!
    Namastê
    bj

    Lenir

  • Estou muito feliz com essa postagem sobre o UCEM, pois sou estudante do Curso desde 2005 e sem dúvida que Ele é um divisor de águas em minha vida.

    O Curso é um estudo maravilhoso das verdades eternas, um caminho para a transformação pessoal. Sua mensagem é de amor, paz, abolição da culpa e a vivência do perdão. Em essência, é um ensinamento espiritual universal e ecumênico que tem cativado milhões de pessoas.

    Namastê!

    “Esse é um curso em milagres. É um curso obrigatório. Só é voluntário o momento em que decides fazê-lo. Livre arbítrio não significa que podes estabelecer o currículo. Significa apenas que podes escolher o que queres aprender em determinado momento. O curso não tem por objetivo ensinar o significado do amor, pois isso está além do que pode ser ensinado. Ele objetiva, contudo, remover os bloqueios à consciência da presença do amor, que é a tua herança natural. O oposto do amor é o medo, mas o que tudo abrange não pode ter opostos”.

    “Esse curso, portanto, pode ser resumido simplesmente dessa forma:

    Nada real pode ser ameaçado.

    Nada irreal existe.

    Nisso está a paz de Deus”. UCEM

    O que isso significa é o seguinte:
    1- O Amor é real. É uma criação eterna e nada pode destruí-lo.
    2- Qualquer coisa que não seja o Amor é ilusão.
    3- Lembre-se disso, e você estará em paz.

  • É possível comer um monte de comida gordurosa e sentir-se alegre e disposto em seguida? É viável dormir mal e ter pensamentos claros e positivos? Pode-se utilizar algum tipo de droga e ter comportamentos eficazes e adequados? Há alguém que possa ser totalmente sedentário e ter um ótimo humor?

  • Gostaria de divulgar o primeiro milagre que produzi, seguindo os ensinamentos do UCEM. Como não participo de nenhum grupo de estudo, tomo a liberdade de utilizar este espaço. Nos primeiros dias de prática das afirmações, tive um grande problema no trabalho, com o desaparecimento de um documento importante que estava sob minha responsabilidade. Naquele dia, a afirmação era “Deus é a força na qual eu confio”. No dia seguinte, acordei “ouvindo” (mentalmente): “Se Deus é por mim, quem será contra mim?” A partir daquele momento, sabia que já estava tudo resolvido no plano divino e me tranquilizei. Realmente tudo foi resolvido de uma forma surpreendente, verdadeiramente milagrosa. Estou imensamente grata e feliz por perceber a presença tão próxima de Deus na minha vida e por ter encontrado o livro UCEM!

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