“A inteligência é capaz de lidar com o inerte, o instinto, com as coisas vivas”: a evolução criativa de Henri Bergson

“O intelecto, tão capaz de lidar com o inerte, é destrambelhado no momento que toca o vivo”, defendeu o filósofo francês Henri-Louis Bergson (1859-1941), em 1910, em seu famoso livro “Creative Evolution“. Numa seleção de trechos do livro publicadas abaixo, do mesmo livro, Henri Bergson discorre sobre as diferenças fundamentais entre o instinto e o intelecto, um sendo o próprio mecanismo formado na vida, o outro sendo um instrumento de descrição, científico, exterior. Prêmio Nobel de Literatura em 1927, Bergson conveceu muitos cientistas que “a experiência imediata e a intuição são mais significantes que o racionalismo e a ciência para a compreensão da realidade” (*).

Os trechos abaixo foram traduzidos livremente para o português a partir da obra original, disponível na íntegra em inglês no Projeto Gutemberg.

“Vemos que o intelecto, tão capaz de lidar com o inerte, é destrambelhado no momento que toca o vivo. Seja quando quer tratar a vida do corpo ou a vida da mente, o intelecto atua com o rigor, a dureza e a brutalidade de um instrumento não projetado para tal uso.

(…) O intelecto é caracterizado por uma inaptidão natural de compreender a vida.

O instinto, ao contrário, é moldado com a própria forma da vida. Enquanto a inteligência trata tudo mecanicamente, o instintoo atua, digamos assim, organicamente. Se a consciência que dorme nele deveria acordar, se fosse enrolado em conhecimento ao invés de ser enrolado na ação, se nós pudéssemos perguntar e ele pudesse responder, nos daria os segredos mais íntimos da vida. Porque só carrega à frente o trabalho pela qual a vida organiza a matéria – de forma que não podemos dizer, como foi demonstrado frequentemente, onde a organização acaba e onde o instinto começa. Quando o pequeno pintinho está quebrando a casa do ovo com a ponta do seu bico, está agindo por instinto, e ainda assim não faz mais do que carregar o movimento que nasceu na vida embrionária. Inversamente, no próprio curso da vida embrionária (especialmente quando o embrião vive livremente na forma de uma larva), muitos dos atos realizados podem ser referenciados ao instintuo. Os mais essenciais dos instintos primários são realmente, portanto, processos vitais. A consciência potencial que os acompanha é geralmente atualizada apenas na circunstância do ato, e deixa o resto do processo acontecer por si mesmo. Teria apenas que se expandir mais amplamente, e então mergulhar em suas próprias profundezas completamente, para ser um com a força geradora da vida. (…)

É impossível para a inteligência absorver o instinto. Aquilo que é instintivo no instinto não pode ser expressado em termos de inteligência, nem, consequentemente, pode ser analisado.

Um home nascido cego, que viveu entre outros nascidos cegos, não poderia ser convencido a acreditar na possibilidade de perceber um objeto distante sem primeiro perceber todos os objetos no caminho. A visão realiza esse milagre. Em um certo sentido o homem cedo está certo, uma vez que a visão, tendo sua origem no estímulo da retina, pelas vibraçÕes da luz, não é nada mais, de fato, do que um toque retinal. Essa é de fato a explicação científica, pois a função da ciência é apenas expressar todas as percepções em termos de toque. Mas nós temos mostrado em outros lugares que a explicação filosófica da percepção (se ainda puder ser chamada de explicação) deve ser de outro tipo. Agora o instinto também é um conhecimento à distância. Tem a mesma relação com a inteligência que a visão tem com o toque. A ciência não pode fazer mais do que expressá-lo em termos de inteligência; mas ao fazê-lo constrói uma imitação do instinto ao invés de penetrá-lo.

(…)

Instinto é simpatia. Se essa simpatia pudesse estender seu objeto e também refletir a si mesma, nos daria a chave para as operações vitais – assim como a inteligência, desenvolvida e disciplinada, nos guia pela matéria. Porque – não podemos repetir o suficiente – a inteligência e o instinto são dispostos em direções opostas, a primeira em direção à matéria inerte, e outra em direção à vida. A inteligência, pelo meio da ciência, que é seu trabalho, nos entregará mais e mais completamente o segredo das operações físicas; da vida, nos traz, ou apenas diz que nos traz, uma tradução em termos de inércia. Percorre todo o redor da vida, tomando de fora talvez o maior número possível de ângulos dela, desenhando-a para dentro de si mesma ao invés de adentrá-la. Mas e para a própria intimidade da vida que a intuição nos leva – por intuição quero dizer o instinto que se tornou desinteressante, altu-consciente, capaz de se refletir sobre seu objeto e de ser alargar indefinidamente”.

~ Henri-Louis Bergson

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Compartilhado por Maria Popova em Brain Pickings.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

1 Comentário

  • Parece-me que intelecto e instinto são duas realidades opostas. O intelecto – racionaliza e o instinto interage diretamente na realidade da consciência, através da intuição e das experiências imediatas.Penso que Bergson entende que para a vida,o instinto é mais eficaz do que o intelecto, porque adentra as realidades específicas da própria vida.Não fica na periferia da vida, mas dentro dela.Para ser sincera, creio que realmente a intuição nos ajuda muito mais a conhecermos os mistérios da consciência do que o raciocínio, uma vez que a vida é muito mais complexa do que a ciência pode explicar.Tanto que em determinados assuntos, os cientistas param e os intuitivos conseguem explicar melhor.

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