“É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra”: Rainer Maria Rilke inspirado por vozes angelicais [LIVRO]

As duas elegias abaixo, a primeira e segunda do livro “Elegias de Duino” do poeta austro-húngaro Rainer Maria Rilke (1875-1926), tiveram uma curiosa gênese, inspirada, misteriosa e possivelmente mística: sozinho no Castelo Duino, em Trieste (Itália), onde supostamente Dante escreveu parte de “A Divina Comédia“, iniciando um trabalho de tradução para seus chefes e donos do lugar, Rilke ouviu “uma voz”. Andando perto de um penhasco, Rilke teria corrido e pegado um caderno de anotações, e começou a registrar o que ouvira. A primeira frase já se tornou famosa, e diz “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?” (Wer, wenn ich schriee, hörte mich denn aus der Engel Ordnungen?). Os dois primeiros resultados daquele momento são as duas elegias abaixo, escritas em 1911, e consideradas um dos principais trabalhos da vida de Rilke.

Sobre as vozes inspiradoras, Rilke escreveu: “Aquilo que fala a mim sobre o humano, o irresistível, e com uma calma superior que atrai toda minha atenção, são as figuras dos jovens mortos, ou mais necessários, limpos e inesgotáveis: os amantes”.

Os poemas começaram a ser escritos numa fase pré-depressão de Rilke e ficaram incompletos durante toda a I Guerra Mundial (1914-1918), que o levaram uma crise de criatividade que só terminaria por volta de 1922, quando ele também começou a escrever entusiasmadamente “Sonetos a Orfeu“. É notável uma angústia existencial em meio a perguntas e ensaios de “estar-morto”, como o verso que está no título deste post.

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“ELEGIAS DE DUINO”, I e II (TRECHO)
Por Rainer Maria Rilke

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vem
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tua quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
à rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medroas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.”

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

5 Comentários

  • (Enquanto comento, Nando, ouço “Rock with You – do MJ, suingado p/Sr. Jorge -, melhor antídoto à mão, para não escorregar nessa penumbra lúgubre Gótica – rs.)

    Que ‘climão’ desse Castelo Duino! Algo ‘mais’ no ar local do que os patos da região.
    Lógico (texto acima, até então, desconhecido) que linquei no ato, com o filme “Asas do Desejo” (que originou o “Cidade dos Anjos”)e que deve ter bebido em fontes de textos semelhantes, ao acima, para se inspirar.

    A mística alemã (certas óperas, mitologia, músicas e textos como o acima) se tinge com uma graduação imensa de tons de cinza e muito pouco colorido ou nenhum (os anjos não veem cor – só preto e branco, no filme), creio que os jovens mortos (e os jovens poetas veem?) do Herr Rilke, também não.

    Olha um trecho de “Asas do Desejo”:

    “Damiel: É ótimo viver espiritualmente, dia a dia testemunhar para a eternidade apenas o que há de espiritual nas mentes das pessoas. Mas às vezes sinto-me enfastiado pela minha existência espiritual. Em vez de pairar nas alturas para sempre eu preferiria sentir um peso sobre mim que interrompesse a eternidade e me prendesse à Terra. Gostaria de, a cada passo, a cada golpe de vento, poder dizer: “Agora, agora, agora!”, não mais ‘para sempre’ e ‘pela eternidade’. Sentar-me à mesa de cartas e ser cumprimentado, mesmo que por um aceno. Todas as vezes que participamos, era um fingimento. Lutando com alguém, fingimos que deslocamos o quadril. Fingimos que pescávamos. Fingimos que comíamos e bebíamos. Carneiro assado e vinho em tendas no deserto, era tudo fingimento. Não quero gerar um filho, plantar uma árvore, mas seria bom chegar em casa após um longo dia e alimentar o gato, como Philip Marlowe, ter febre e os dedos sujos da tinta do jornal, ficar entusiasmado não só pelas coisas do espírito mas também com uma refeição, pela curva de uma nuca ou um ouvido. Mentir descaradamente. Enquanto andamos, sentir os ossos se movendo. E supor, em vez de tudo saber. Poder dizer ‘ah’ e ‘oh’ e ‘ei’, em vez de ’sim’ e ‘amém’.

    Cassiel: Sim, poder, ao menos uma vez, entusiasmar-me com o mal. Retirar os demônios das pessoas que passam por nós e enviá-los para bem longe. Ser selvagem.

    Damiel: Ou pelo menos saber como é tirar seus sapatos sob a mesa e mexer os dedos dos pés, descalço. assim.

    Cassiel: Ficar sozinho. Deixar as coisas acontecerem. Ser sério. Somente podemos ser selvagens na medida em que somos sérios. Não fazer nada além de observar. Reunir. Testemunhar. Preservar. Continuar espírito. Manter a distância. Manter a palavra.”

    Fonte: Asas do Desejo, filme alemão de 1987 do diretor Wim Wenders (que ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes em 1987).

    Boa Sorte!
    Norma
    (abrindo as janelas: Vem Sol!)

  • P/fv Amg, faça sim, por todos nós!
    Com a tua apresentação e seleção vai ser marcante. Pisc*
    Nando, lembra-te que ainda existia o Muro (Liberdade) separando Berlim – derrubado em 1989 -, que também representava as limitações (ausência das emoções sentidas por nós, os humanos)que os anjos viviam?
    Esse filme é repleto de simbolismos, Vish!
    Namastê!

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