O desafio do karma: abandonar o orgulho do passado e ser honesto no presente, por Thanissaro Bhikkhu

“Até que tornemos o inconsciente consciente, ele dirigirá nossa vida e você o chamará de destino”
~ Carl G. Jung

A palavra em sânscrito “karma” já é um termo ocidental, em português é “carma“, e seu significado, ou interpretação de seu verdadeiro significado, varia de “lei da causa e efeito” a simplesmente “ação” ou ainda a versões diversas que envolvem conceitos como má sorte, culpa e castigo. O monge budista Thanissaro Bhikkhu, um dos maiores especialistas em traduções dos ensinamentos de Buda diretamente do idioma Páli (o que foi originalmente usado para as primeiras anotações das palavras do Buda), faz uma leitura do conceito de karma segundo o Budismo, e diz, em poucos parágrafos, que o termo não tem um significado claro atualmente, e muitas vezes é tratado com significado incorreto. Publicado originalmente em português no site Acesso ao Insight, esse artigo busca esclarecer um conceito que, segundo a visão budista, não significa simplesmente fatalismo, e sim um termo que traz em si o ensinamento para uma liberdade mais ampla no presente, mais real e mais verdadeira.

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KARMA
Por Thanissaro Bhikkhu

Karma é uma daquelas palavras que não traduzimos. O seu significado básico é bastante simples – ação – mas devido à importância que os ensinamentos do Buda atribuem ao papel da ação, a palavra karma em Sânscrito contém tantas implicações que a palavra ação em Português não consegue abarcar todo o seu conteúdo. É por essa razão que simplesmente absorvemos a palavra original como parte do nosso vocabulário.

Porém quando tentamos identificar todas as conotações que a palavra contém, agora que ela se incorporou à linguagem do dia a dia, nos damos conta que o seu verdadeiro significado não está claro. Aos olhos da maioria da pessoas, karma funciona como destino – má sorte, uma força inexplicável e imutável que surge do nosso passado, pela qual somos responsáveis, ainda que vagamente e que não temos forças para resistir. “Creio que deve ser o meu karma,” ouvi pessoas dizerem quando atingidas pela má sorte com tal intensidade que não viram outra alternativa senão aceitar com resignação. O fatalismo implícito nessa afirmação é uma das razões porque tantos de nós rejeitamos o conceito de karma, pois soa tal como o tipo de mito insensível que pode justificar praticamente qualquer tipo de sofrimento ou injustiça na sociedade: “Se ele é pobre, é devido ao seu karma.” “Se ela foi estuprada, é por causa do seu karma.” A partir daí é só um pequeno passo para dizer que ele ou ela merecem sofrer e dessa forma não merecem a nossa ajuda.

Esse entendimento incorreto vem do fato de que o conceito Budista de karma veio para o Ocidente ao mesmo tempo que conceitos não Budistas e dessa forma acabou herdando uma bagagem indevida. Apesar de muitos conceitos de karma na Ásia serem fatalistas, o conceito Budista original não era de forma alguma fatalista. Na verdade, se analisarmos com atenção as idéias originais do Budismo acerca de karma, veremos que elas dão ainda menos importância a mitos do passado que a maioria das pessoas no Ocidente.

No Budismo original, o karma não era linear. Outras escolas Hindus acreditavam que o karma operava como uma linha reta, com ações do passado influenciando o presente, e ações no presente influenciando o futuro. Como resultado, eles viam pouco espaço para a livre escolha. Os Budistas no entanto, viram que o karma opera através do processo de feedback, com o momento presente sendo determinado tanto por ações do passado como do presente, as ações do presente influenciam não somente o futuro mas também o presente. Essa constante abertura para a influência da ação no presente no processo causal torna possível a livre escolha. Essa liberdade está simbolizada na imagem que os Budistas usam para explicar o processo: a água corrente. Em certas ocasiões a torrente que flui do passado é tão forte que pouco pode ser feito exceto manter-se firme no lugar, porém existem também ocasiões em que a torrente é suficientemente fraca e pode ser desviada quase que para qualquer direção.

Dessa forma, ao invés de promover a resignação impotente, a noção de karma no Budismo original focava no potencial libertador daquilo que a mente está fazendo a cada momento. Quem você é – de onde você veio – não se compara em termos de importância àquilo que a mente está fazendo a cada momento. Quem você é – de onde você veio – não se compara em termos de importância aos motivos da mente para fazer aquilo que está fazendo agora. Mesmo que o passado possa ser responsável por muitas das desigualdades que vemos na vida, a nossa medida como seres humanos não é aquilo que a sorte nos deu pois essa sorte pode mudar a cada momento. A nossa medida se estabelece pela maneira como lidamos com a sorte que temos. Se você estiver sofrendo, você tenta evitar continuar com os hábitos mentais inábeis que farão com que esse feedback cármico em particular se mantenha. Se você vê que outras pessoas estão sofrendo, e você pode ajudá-las, você não foca no passado cármico delas mas na sua oportunidade cármica no presente. Algum dia você poderá se encontrar na mesma situação em que elas estão agora, assim, essa é a oportunidade para agir da forma como você gostaria que elas agissem com relação a você quando esse dia chegar.

Essa crença de que a dignidade de uma pessoa é medida não pelo seu passado mas pelas suas ações no presente foi frontalmente contrária à tradição Hindu de hierarquia baseada em castas e, explica porque no Budismo original existe tanto humor acerca da arrogância e da mitologia dos brâmanes. Tal como apontado pelo Buda, um brâmane podia ser uma pessoa superior não porque ele nascera de um ventre brâmane mas somente se ele agisse com verdadeiras intenções hábeis.

Sempre que lemos acerca dos ataques dos primeiros Budistas ao sistema de castas, excluindo as suas sugestões anti-racistas, eles parecem ser inapropriados. Mas não nos damos conta de que eles atingem bem no cerne dos nossos mitos acerca do nosso próprio passado; nossa obsessão em definir quem somos de acordo com nossas origens – nossa raça, herança étnica, sexo, referencial sócioeconomico, preferência sexual — nossas tribos modernas. Colocamos uma quantidade desproporcional de energia na criação e manutenção da mitologia da nossa tribo de modo que possamos nos orgulhar acerca da boa reputação da nossa tribo. Mesmo quando nos tornamos Budistas, a tribo tem prioridade. Nós exigimos um Budismo que honre os nossos mitos.

Do ponto de vista de karma no entanto, de onde viemos é karma antigo sobre o qual não temos controle. O que “somos” é na melhor hipótese um conceito nebuloso – e na pior hipótese prejudicial quando o utilizamos como desculpa para agir com motivos inábeis. O valor de uma tribo se encontra somente nas ações hábeis dos seus membros. Mesmo quando essas pessoas de bem pertencem à nossa tribo, o bom karma delas pertence a elas, não a nós. E, é lógico, toda tribo tem os seus membros ruins, o que significa que a mitologia da tribo é algo frágil. Apegar-se a algo frágil requer um grande investimento em termos de cobiça, raiva e delusão, conduzindo inevitavelmente a mais ações inábeis no futuro.

Dessa forma os ensinamentos Budistas acerca de karma, longe de serem uma relíquia esquisita do passado, são um desafio direto a uma crença básica – e um defeito básico – na nossa cultura. Somente quando abandonamos nossa obsessão em encontrar orgulho no nosso passado tribal e podemos na verdade sentir orgulho dos motivos que estão por detrás das nossas ações no presente, podemos dizer que a palavra karma, no seu sentido Budista, recuperou toda sua bagagem. E quando abrimos a bagagem nos damos conta de que ela nos trouxe um presente: um presente que damos a nós mesmos, e uns aos outros quando deixamos de lado nossos mitos sobre quem somos e podemos ao invés disso sermos honestos acerca do que estamos fazendo com cada momento – ao mesmo tempo que fazemos o esforço para agir da maneira correta.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

8 Comentários

  • Achei muito útil o esclarecimento, pois realmente o budismo entrou na vida ocidental de forma muito rápida e poucos são os que realmente conhecem o significado real que as palavras tem nessa filosofia. Digo isso com propriedade de quem carrega um nome sânscrito SAMSARA NYAYA, desde que nasceu e ninguém entende…e que até vc explicar….já viu o tempo que leva…e quem conhece se assusta..exatamente pelo sentido negativo de sofrimento que tem a palavra Samsara.

  • O texto me agradou bastante. É delicado em suas escolhas ao apresentar a situação: “hábil X inábil” (não me engessa a uma situação: posso me capacitar). Além, de trazer em seu bojo, solução, tipo receita 1-2-3, de fácil entendimento e de imediata prática. Raro de se encontrar – deve-se à excelência do autor?
    Li a pouco dias sobre o bom humor do Dalai Lama constantemente “pego” rindo ou até mesmo, gargalhando)em comparação a outros, que tb se dedicam à ‘promoção” do ser humano, via auto-conhecimento. Chegou a citar D.Choopra e E.Tolle, de modo geral, de semblantes fechados.
    E trouxe uma questão bem comum:Por que me orgulhar (no AGORA) de algo que não tive nenhum mérito individual (Tribo, i.e.: sobrenome do avô importante) em sua construção enquanto disfarço /escondo os assuntos de âmbito pessoal, que estão aí para serem trabalhados exatamente por mim?
    Traduzir palavras sem fugir ao sentido do pensamento-original do autor já é difícil, que dirá conceitos do porte de Carma. Muito útil, mesmo.
    Grata (sempre).

    • É verdade, Áurea, concordo com o dócil e gentil, plenamente. Ele passa a imagem de uma pessoa muito amável.
      Quanto ao super sorridente não sei … Só bem recentemente assisti a ele entrevistando o Neale D. Walsch, onde ele me pareceu extremamente ‘confortável’. Sabe, Áurea, agora me ocorreu que o que o E.Tolle transmite é tão importante que tudo mais (roupa, gestual, entonação da voz)possa ser conscientemente minimizado/esmaecido para que não provoque interências'(distrações) no teor da sua mensagem.
      Boa Sorte e Obrigada!
      Norma

  • Muito substancial… em poucas e tão claras palavras, mesmo na abordagem desse assunto tão complexo… mas a habilidade que tens, nos clareia a sentir mais profundamente quanto a nossa busca do auto-conhecimento
    Compreender e aceitar-se amando… em extensão ao outro, à vida!
    Graça e luz…

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