A doutrina do Frei Zossima: “eu vos pergunto, um homem desses é livre?” (TRECHO)

Abaixo um trecho do discurso e do pensamento do Frei Zossima, mentor espiritual de Alioscha e um dos principais personagens do célebre romance “Os Irmãos Karamazov” (1879), do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — onde ele fala dos conceitos equivocados de liberdade entre os homens na época vigente (qualquer semelhança com os tempos atuais é mera coincidência). Criticando ferozmente a reles satisfação das necessidades comuns, Zossima explica como descobriu sua vocação de monge ao perceber a decadência da busca pela liberdade verdadeira, e retrata uma época que fazia crescer a ilusão que a liberdade é a livre perseguição repetida dos desejos.

No tempo do livro, esse discurso aparece como registrado por um dos irmãos, Aliéksiei Fiódorovitch Karamozov, considerado o herói da obra pelo próprio Dostoiévski, e aparece no dia da morte do Frei Zossima, quase como homenagem à doutrina do monge (o “stáriets“). Faz parte do Livro VI, intitulado “O Monge Russo“, capítulo III, “Extrato das Conversações e da Doutrina do Stáriets Zósima” (Editora Abril Cultural, 1970).

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Extrato das Conversações e da Doutrina do Stáriets Zósima
Por Fiódor Dostoiévski

“Olhai os leigos e esse mundo que se ergue acima do povo cristão: não alterou ele a imagem de Deus e sua verdade? Têm a ciência, mas somente a ciência sujeita aos sentidos. Quanto ao mundo espiritual, a metade superior do ser humano, rejeitam-no, banem-no alegremente, mesmo com ódio. O mundo proclamou a liberdade, sobretudo nestes derradeiros anos, e que representa ela? Nada mais senão a escravidão e o suicídio! Porque o mundo diz: “Tu tens necessidades, satisfá-las, porque possuis os mesmos direitos que os grandes e os ricos. Não temas satisfazê-las, aumenta-as mesmo”. Eis o que se ensina atualmente. Tal é a concepção deles de liberdade.

E que resulta desse direito de aumentar as necessidades? Entre os ricos, a solidão e o suicídio espiritual; entre os pobres, a inveja e o crime, porque se conferiram direitos, mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades. Assegura-se que o mundo, abreviando as distâncias, transmitindo o pensamento pelos ares, unir-se-á sempre cada vez mais, que a fraternidade reinará. Ai! não acrediteis nessa união dos homens. Concebendo a liberdade como o aumento das necessidades e sua pronta satisfação, alteram-lhes a natureza, porque fazem nascer neles uma multidão de desejos insensatos, de hábitos e imaginações absurdos. Não vivem senão para invejar-se mutuamente, para a sensualidade e a ostentação. Dar jantares, viajar, possuir carruagens, cargos, lacaios, passa tudo como uma necessidade à qual se sacrifica até sua vida, sua honra e o amor à humanidade, matar-se-ão mesmo, na impossibilidade de satisfazê-la. O mesmo ocorre entre aqueles que são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são no momento afogadas na embriaguez. Mas em breve, em lugar de vinho, embriagar-se-ão de sangue, é o fim para que os conduzem.

Dizei-me se tal homem é livre. Um “campeão da idéia” contava-me que, estando na prisão, privaram-no de fumo e que essa privação lhe foi tão penosa que quase traiu sua idéia para obtê-lo. Ora, esse indivíduo pretendia lutar pela humanidade. De que pode ser ele capaz? Quando muito dum esforço momentâneo, que não sustentará por muito tempo. Nada de admirar que os homens tenham encontrado sua servitude em lugar da liberdade, e que em lugar de servir à fraternidade e à união, tenham caído na desunião e na solidão, como dizia outrora meu visitante misterioso e mestre. De modo que a idéia do devotamento à humanidade, da fraternidade e da solidariedade desaparece gradualmente do mundo; na realidade, acolhem-na mesmo com derrisão, porque como desfazer-se de seus hábitos, aonde irá aquele prisioneiro das necessidades inumeráveis que ele próprio inventou? Na solidão, preocupa-se muito pouco com a coletividade. Afinal de contas, os bens materiais aumentaram e a alegria diminuiu.”

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Que possamos tentar responder Dostoiévski: Dizei-me se tal homem é livre.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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