O despertar da normalidade: a busca pela vida como ela é do filósofo espanhol Fernando Savater

A busca do equilíbrio e da tranquilidade versus as buscas filosóficas e o aprendizado pela alegria e pela tragédia são dois dos temas dessa entrevista com o filósofo espanhol Fernando Fernández-Savater Martín, professor de Filosofia da Complutense University of Madrid e autor de mais de 80 livros, entre eles “El contenido de la felicidad” (1986), “Despierta y lee” (1998) e “El Gran Laberinto” (2005). Realizada no México esta semana, a entrevista foi concedida em espanhol (na íntegra no site do Informador) e tem dois pequenos trechos traduzidos abaixo.

Amante da literatura e devoto de Espinoza (1632-1677), Fernando Savater se define como “agnóstico, anglófilo e defensor do Iluminismo na tradição de Voltaire” (1694-1778) (Wikipedia).

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Despertar de la normalidad: Fernando Savater
Informador Redacción / GJD

Pergunta – Como as pessoas aprendem a se questionar?
Fernando Savater – O que se aprende não é se questionar, acredito que todos os seres humanos se questionam sobre o que significa viver. Quando você sofre uma desilusão ou uma perda dolorosa, você se pergunta sobre a vida, muitas vezes o que falta é a linguagem para fazer bem essa pergunta. A filosofia te dá uma tradição de respostas que podem te ajudar a fazer tuas próprias perguntas.

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A tranquilidade e a busca da estabilidade estão contra a filosofia?
Não estão contra, estão à margem. Uma pessoa que busca estar totalmente tranquila é difícil que se faça perguntas filosóficas porque as perguntas filosóficas desassossegam, inquietam, trazem nervosismo.

A estabilidade está supervalorizada?
Homem! É natural, todos queremos uma serenidade. É verdade que nada quer viver na angústia, a filosofia também tem buscado a serenidade. Os estóicos buscavam a ataraxia, o ânimo tranquilo, mas não buscavam às custas de simplificar a vida, mas às custas de encarar a vida tal como ela é, de conhecê-la e aceitá-la. Há pessoas que ao invés disso não querem se inteirar, fechar uma cortina e não inteirar-se da vida, a filosofia também quer serenidade, mas quer através de ver a vida como ela é e não simplesmente Hay gente que en cambio lo que quiere es no enterarse, echar una cortina y no enterarse de la vida, la filosofía quiere también serenidad, pero la quiera a base de ver la vida como es y no simplemente esquecendo-la. O aprendizado está na tragédia.

De quais experiências se aprende mais: das tragédias ou das alegrias?
Essa é uma boa pergunta, mas não sei responde-la. É curioso, mas recebemos as alegrias como algo normal, como algo merecido, porque as coisas estão indo bem, te dão um prêmio ou te dão um beijo e consideras que isso é normal. Era o que você merecia. Acontece algo ruim e você vê como um ataque ou com um ‘porque a mim?’. AS tragédias são mais pedagógicas porque não as esperamos, se alguém está bem não aprende, porque pensa que tudo é assim: que o bem é o normal. A alegria e o carinho, os vemos como normal até que de repente chegue a tragédia… e isso é o que nos faz despertar”.

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Foto por Gonzalo Merat (direitos de uso BY, Creative Commons)