“A meditação é, fundamentalmente, uma maneira de descobrir a realidade”, Lewis Richmond (ARTIGO)

Minha meditação não é boa, fico pensando o tempo todo“. Quem nunca ouviu essa queixa de um meditador iniciante, ou já fez pra si mesmo essa confissão de frustração? Essa é uma das situações que necessitam aprendizado e que o professor zen-budista Lewis Richmond explora em seu mais recente artigo “The Purpose of Buddhist Meditation Is to Be Real” (O Objetivo da Meditação Budista é Ser Real”), publicado no Huffington Post e traduzido pelo monge brasileiro Ryozan em sua página no Facebook. “A meditação se tornou bastante popular no ocidente, e os professores budistas são numerosos, mas me pergunto se já aprendemos suficientemente bem este profundo ensinamento“, reflete Richmond, citando a longa busca do próprio Buda por desvendar a realidade usando a meditação. O artigo fala da meditação budista mas não é exclusivista, certamente várias outras escolas de sabedoria e ensinamentos de prática meditativa encontram ressonância nesse mesmo objetivo, o de parar, ouvir e silenciar em buscar a verdade.

O artigo segue na íntegra abaixo, com agradecimento pela tradução ao Monge Ryozan.

//////////

“O Objetivo da meditação budista é viver a realidade”.

Por Lewis Richmond, professor e escritor budista
Tradução de Monge Ryozan

Costumo dizer quando ensino meditação: “Não medite apenas para ter calma, mas para ser real.”

Meditação se tornou bastante popular no ocidente, e os professores budistas são numerosos, mas me pergunto se já aprendemos suficientemente bem este profundo ensinamento. O próprio Buda, no início de sua peregrinação espiritual, estudou com muitos professores de meditação. A maioria desses professores ensinavam um tipo de meditação para a indução da calma, ou até mesmo para entrar em transe. O jovem Siddhartha dominou todas essas técnicas. Era tão hábil que alguns de seus professores insistiram para que ensinasse junto com eles, mas ele não estava satisfeito. Sua intuição dizia-lhe que essas práticas de meditação, ao mesmo tempo que eram profundas, eram apenas um alívio temporário do sofrimento primordial da existência humana, e que uma vez findo o transe o sofrimento ainda estava lá. Assim, abandonou a prática com esses professores e fez o voto de uma busca mais profunda.

Como a meditação está encontrando seu caminho no Ocidente, à procura de raízes culturais genuínas, somos obrigados a reencenar a própria busca de Sidarta, redescobrir suas próprias decepções e iluminações.

Kalu Rinpoche, um jovem professor tibetano, na faixa dos seus vinte anos, disse recentemente em uma reunião pública: “O Dharma é a realidade.”, citação bastante profunda, especialmente vinda de alguém tão jovem. Ele passou então a explicar que a maioria das religiões, incluindo o budismo, oferece uma fuga da realidade, ao invés de uma visão transformadora sobre ela. Mas o Dharma não é assim, é sobre o que é verdadeiro e real. A meditação budista é, fundamentalmente, uma maneira de descobrir essa verdade.

Certa vez um estudante disse a Suzuki Roshi: “Minha meditação não é boa, fico pensando o tempo todo.”. Suzuki Roshi respondeu: “O que há de errado com o pensamento?”.

Suzuki Roshi quis expressar com isso uma questão profunda. O que está errado com o pensamento? Seria errado qualquer pensamento? Ou apenas alguns? Ficar pensando durante a meditação é uma coisa ruim? O sexto ancestral Zen na China, Hui Neng, ensinou especificamente que esvaziar a mente de todos os pensamentos durante a meditação não é uma prática budista.

Thrangu Rinpoche, um mestre vivo de Mahamudra (lit. Grande Selo, meio de atingir o despertar) disse no livro “Pointing Out the Dharmakaya”: “Às vezes ocorre um pensamento muito ruim quando se medita.”. E para reforçar este ponto ele acrescentou: “Isto é, quero dizer um pensamento de fato muito ruim!

Quando os risos terminaram, ele prosseguiu: “Não há problema algum. Basta manter a meditação”.

Não há nada de errado com a meditação ter a finalidade de acalmar a mente. Todos nós podemos ter mais calma no meio de uma vida agitada. Na verdade, sem alguma calma na meditação, é impossível ver qualquer coisa de forma clara ou distinguir o que é real do que é ilusão. Uma vez que tenhamos alcançado uma mente estável e calma, podemos então ir mais fundo. Como disse o Mestre Dogen Zenji na sua famosa frase, “estude a si mesmo”. Quem é esta pessoa que está meditando? De onde é que esses pensamentos e sentimentos surgem e decaem? E para onde eles vão quando desaparecem? Por que eu sofro? Por que outras pessoas sofrem? Qual é a causa dessa desgraça? Como pode ser amenizada de maneira convincente?

Essas são questões que Sidarta fez quando estava em busca espiritual, continuando a aprofundar-se, até que ficou convencido de que havia chegado ao fundo de seu questionamento. Esse é o verdadeiro tesouro que o budismo tem a oferecer, e pode ser necessário muito tempo para que tal tesouro chegue à fruição plena no ocidente.

É possível. O Xaquiamuni Buda não era um deus ou um superser, mas um ser humano comum como nós. Se ele pode fazê-lo, nós também podemos. Qualquer pessoa, de qualquer geração, tem a mesma oportunidade que Sidarta Gautama teve para ver a Realidade por trás da cortina da ilusão.

Cada um de nós pode ser Buda, estar desperto para o que é Real.

//////////

Foto de Triratna Photos (direitos reservados BY-NC)

Assuntos desse conteúdo
, ,
Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *