Ocupar-se do momento presente exclui planejar o futuro? Mestre Zen Tokuda Igarashi responde

O mestre Zen-Budista Tokuda Igarashi, da escola japonesa Soto Zen, com vários templos e discípulos no Brasil, certa vez foi perguntado se a experiência da vida plena do momento presente entraria em conflito com a possibilidade de projetar planos para o futuro — desde as atividades diárias até grandes planos. Citando o grande mestre do Zen, Dogen Zenji (1200-1253), Tokuda Igarashi explica que não há incongruência entre os dois, mas uma passagem de um modo de expectativa, pouco a pouco, a um onde “tudo chega”.

O site de Tokuda Igarashi possui outras perguntas sobre o Zen, a prática e a vida respondidas, a lista está aqui (o site também está aberto a receber perguntas).

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Pergunta: Ocupar-se do momento presente exclui planejar/projetar para o futuro? Não se ocupar nem do passado nem do futuro e ter projetos para a vida cotidiana, será tal coisa possível? Até onde se pode projetar? Isso me coloca um grande problema.

Tokuda Igarashi: Esta pergunta é muito importante. Dogen Zenji disse: “Quando abrimos as mãos e largamos tudo, temos as mãos enchidas”. Quando se começa a falar, muitas palavras chegam naturalmente. O que você quer, aquele lugar ao qual você quer chegar não se produz forçosamente do jeito que você está querendo. Mas quando se dá um passo atrás, aquele objetivo avança e vem em sua direção. É exatamente como eu disse, caminhar na chuva de granizo.

No que me toca, eu fiquei freqüentemente com raiva porque nada tinha para o amanhã, tinha fome. Subitamente, certo dia, alguém veio e me colocou na mão um cheque de mais ou menos quinhentos reais. Quando esperamos, nada vem, e quando não esperamos mais, as coisas chegam. Nossa vida é assim.

Antes de vir para o Brasil, eu trabalhava no Japão como editor de uma editora. Eu tinha que me encontrar com professores universitários muito importantes, mas muito ocupados e obter deles artigos para publicar.

Eu queria, mas não era fácil porque todo mundo era muito ocupado. Eu lhes visitava cedo de manhã, sobretudo quando chovia, mas nem sempre conseguia, ou então tarde da noite. Mas isso era muito delicado. Eu tinha começado a estudar seus hábitos, sua origem, suas atividades e seus hobbies. Um dia, eu me encontrei com um grande professor, eu diria o professor dos professores. Havia muitos de seus discípulos antigos que estavam agora como professores de eminentes universidades. Esse grande professor já estava aposentado e era muito difícil encontrar com seus discípulos, que eram muito orgulhosos e desagradáveis.

Então, eu prestei uma visita a este grande professor que havia traduzido um livro do Shobogenzo e lhe contei sobre minha experiência no mosteiro, de monge, esquecendo que eu precisava de um artigo. Começamos a falar livremente do Zen, do Caminho, do Dharma. Eu esqueci da hora e em certo momento disse: “Eu tenho que ir embora”. Então o professor me disse: “Espere, espere, você esqueceu isto”. E ele me entregou um livro que já estava pronto.

A partir do momento em que obtive um artigo deste professor, todos seus discípulos concordaram que deviam me entregar artigos deles também, sem que fosse necessário pedir demais. Isso não acontece sempre assim, mas com o zazen (meditação zen-budista), o estado de espírito se modifica pouco a pouco.

Em geral é preciso planejar e organizar as coisas, mesmo que não estejam indo como se deseja, mas com o tempo, a prática, isso tudo muda um pouco e começamos a nos liberar, a abandonar, a deixar cair esta necessidade de se preparar. E quando nos encontramos aqui, então chega tudo. Isso é sem dúvida uma coisa maravilhosa da existência.

É neste sentido que Dogen Zenji diz que quando nos esforçamos por obter a iluminação, é uma ilusão. Quando todos os fenômenos dão a confirmação de sua iluminação, isso é o satori.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

1 Comentário

  • Essa é a mais pura verdade:” Quando esperamos, nada vem, e quando não esperamos mais, as coisas chegam.”

    Certa ocasião eu estava na rua, conversando assuntos corriqueiros com uma amiga, nessa ocasião passou um rapaz a quem pedimos uma informação, ele parou e os três começamos a conversar. Ele veio a se tornar o homem mais especial que já conheci até hoje, quando eu não estava procurando um. É um fato que até hoje eu fico fascinada ao lembrar e que fascina a quem conto a historia.

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