20 perguntas sobre a existência de Deus, sobre Amor, blasfêmia e unicidade para Ramesh Balsekar

“A paz e a harmonia só são possíveis quando o indivíduo é capaz, no momento presente, de não estar desconfortável com os outros”.
~ Ramesh Balsekar

Ouvir e compreender os ensinamentos do Advaita Vedanta, uma das escolas hindus de sabedoria para a iluminação baseada nos Vedas, é sempre uma tarefa desafiadora. Nessa entrevista transcrita abaixo do blog da Editora Advaita, o mestre indiano Ramesh Balsekar (1917-2009), discípulo de Sri Nisargadatta Maharaj (“I Am That”), fala dos conceitos a respeito de Deus e de Amor, da possibilidade da existência deles e como percebê-los, sempre a partir da mudança radical de paradigma que o Advaita Vedanta enxerga e ensina como sendo a verdadeira percepção da realidade. “Deus não é um objeto. Deus é subjetividade”, diz Ramesh. “O único sujeito de todos os objetos“, completa.

Economista com formação profissional em Comércio em Londres, com carreira executiva chegando a ser presidente do Bank of India, em 1977, Ramesh é autor de mais de 20 livros, entre eles “The Seeking“, “The One In The Mirror” e “Confusion No More“, foi casado e pai de três filhos, sendo considerado um mestre “householder”, ou seja, alguém que manteve ocupações domésticas em seu caminho para a sabedoria.

Na entrevista abaixo, publicada originalmente na revista “Jnana Prabha“, Ramesh responde a 20 perguntas de temas que envolvem Deus, o Amor, oração, ídolos, a segurança da religião, unicidade entre outros.

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Falando de Deus…
Entrevista com Ramesh Balsekar

Pergunta: Parece esperar-se, entre os espiritualmente sofisticados, dizer que Deus é um conceito. Estou surpreso de ver quanta gente discute este assunto. Então, pergunto: o que é Deus?

Ramesh: Que pergunta! E você perguntando isto? Como poderia ser possível tal coisa como Deus? Deus não é um objeto.

P.: Deus não é um objeto, então é o quê?

Ramesh: Deus é subjetividade – o único sujeito de todos os objetos -, sujeito do sujeito-objeto que pensamos ser, erroneamente é claro.

P.: O que o senhor quer dizer?

Ramesh: O que você é fenomenalmente? Nada, exceto uma aparência na consciência. Você pensa que é o sujeito de todos os demais objetos. Mas, de fato, você e eu e todos os objetos sencientes subjetivamente, numenalmente, apenas poderíamos ser tudo que o Númeno – ou o Supremo – é.

P.: O que exatamente o senhor quer dizer?

Ramesh: Quero dizer que o Supremo – e cada um de nós (não como objetos fenomênicos) – é a presença do que-nós-somos, que é a ausência do que-nós-pensamos-que-somos.

P.: E o que é isto?

Ramesh: Nossa total ausência objetiva fenomenal, que pode ser a subjetiva numenal PRESENÇA DE DEUS.

P.: O senhor seguramente não quer dizer que os fenômenos objetivos desaparecem?

Ramesh: Claro que não. “Nossa total ausência objetiva” refere-se ao desaparecimento não de um fenômeno objetivo como tal, mas da identificação com um fenômeno objetivo que nós pensamos que somos. Em outras palavras, nós não somos “essa” coisa (que pensamos que somos), mas Aquilo que não pode ser nenhuma “coisa”.

P.: Por que o senhor diz que Deus não é um objeto?

Ramesh: Se Deus fosse um objeto, ele seria um dos milhares de deuses objetivos, e não o Supremo como você presumidamente indica.

P.: Não estou pensando nos ídolos, que são deuses objetivos.

Ramesh: No momento em que Deus é conceitualizado, converte-se em um deus, porque qualquer conceito de Deus automaticamente torna-se um ídolo. E, por certo, uma imagem de uma deidade ou santo, se em um templo ou em uma igreja ou em qualquer outro lugar de adoração, é um ídolo, se considerado como um símbolo ou outra coisa qualquer. E, todas as orações e oferecimentos a um objeto, símbolo ou outro aspecto, material ou conceitual, são orações e oferecimentos para um ídolo.

P.: Isto é blasfêmia!

Ramesh: Eu apenas disse o que é obvio. Blasfêmia e ofensa podem ser admissíveis apenas na mente em que tal noção surgiu. Então, o que é blasfêmia? Vou lhe dizer. Blasfêmia é toda e qualquer ação feita de um modo diferente do que na presença de Deus. Isto está claramente estabelecido no Bhagavad-Gita. E vamos deixar claro, na presença de Deus, eu não quero dizer um objeto, um ídolo. Independente da presença ou ausência de um objeto, um ídolo, o que a “presença de Deus” quer dizer é a ausência da presença do ser. Isto significa a imanente divindade.

P.: O que o senhor quer dizer pela ausência da presença do ser?

Ramesh: Um ser que ora humildemente para Deus, e um ser, sem qualquer identificação pessoal, que É Deus, são essencialmente o mesmo. Vamos deixar claramente entendido que “humildade” não significa “sem orgulho”, porque então a humildade seria tão somente o oposto do orgulho. “Humildade” metafisicamente implica a ausência de qualquer ente sujeito à humildade ou ao orgulho.

P.: Tudo isto é extremamente esclarecedor, mas, o senhor sabe, percebo que o senhor demoliu algo consagrado pelo tempo.

Ramesh: Consagrado pelo tempo o quê? Slogans, clichés, soporíficos?

P.: Talvez. Mas eles deram e dão algum sentido de segurança.

Ramesh: Você sabe o que Nisargadatta Maharaj disse sobre esses símbolos de segurança? Acho que ele nunca pediu para alguém abandoná-los mesmo que esse sentido de segurança fosse falso. Ele apenas sugeria que a pessoa podia prosseguir como antes, até que eles desaparecessem por si mesmos. O que ele queria transmitir era: “Vamos ao menos compreender. Quando o sentido de culpa que pode surgir pelo deliberado desaparecimento deles perder a força de seus condicionamentos, estes símbolos de falsa segurança perdem importância”.

P.: Claro que poderia haver outras considerações para o prosseguimento de tais práticas.

Ramesh: Certamente. O próprio Maharaj sinceramente realizava puja (oblações) três vezes ao dia porque seu Guru pediu-lhe. Ele dizia que isto não fazia mal algum e poderia trazer muitos benefícios àqueles não-dotados de inteligência suficiente para seguir no caminho da autoinquirição.

P.: Parece-me que nesta discussão sobre Deus ignoramos certos conceitos – sim, consagrados pelo tempo, como por exemplo, o “amor”. Não é dito ‘que Deus é amor’?

Ramesh: Você disse que amor é um conceito e que Deus é amor. Por consequência, Deus é um conceito. E, é claro, “amor” é apenas o oposto de “ódio”. Não estou desatento quanto ao uso da
palavra no sentido convencional, mas uma palavra imprecisa pode causar confusão e mal-entendidos.

P.: Qual a palavra que o senhor prefere?

Ramesh: Na verdade, “AMOR”, se usado não como uma expressão de separação baseado na emoção, mas para indicar compaixão, Karuna, é o que mantém o mundo (junto) em “at-one-ment” (unicidade). Preferência, como diferença, é puramente um fenômeno na dualidade. Entretanto, eu usaria a palavra “unicidade”, embora o uso de qualquer palavra, de certa forma parece aviltante, porque nenhuma palavra poderia descrever o indescritível e, é claro, uma palavra em si mesma é uma criação temporal.

P.: Então, “unicidade” é a palavra. Deus é unicidade. Ela transmite um sentido de totalidade.

Ramesh: Também não vamos esquecer que “amor” é uma expressão de separatividade, porque se espera que você ame os “outros”. Na unicidade não amamos os outros – nós somos os outros; e nossa relação fenomenal com “eles” é não-objetiva, direta, espontânea e imediata.

P.: O que o senhor me diz sobre a “oração”?

Ramesh: Claro, a oração. Você rezaria para – mais chuva e melhor colheita, ou talvez o aumento da produção industrial? Ou para um substancial aumento das exportações?

P.: Agora, não sejamos irreverentes.

Ramesh: Ah, asseguro-lhe que não sou. O que eu quis dizer era que a palavra oração geralmente é entendida como uma solicitação, o que pode ser percebido pelo fato de a palavra “oração” ser geralmente seguida de “para”. Oração verdadeiramente significa comunhão. De fato, oração é comunhão, do mesmo modo que meditação é quando não existe o meditador e nada sobre o que se meditar.

P.: O que o senhor está tentando dizer?

Ramesh: Nada, de modo algum – exceto talvez que não possa haver de fato nenhum significado em se rezar para (e adorar) um conceito de uma deidade paternal e misericordiosa como “Deus”, ou em amaldiçoar e abominar um conceito de um inimigo impiedoso como “o Demônio”, pela simples razão que eles nada são além do que nós Somos.

P.: Então, o que o senhor diria para eu fazer?

Ramesh: Eu diria para você não fazer nada, ou não faça nada. Este é todo o ponto. Como Nisargadatta Maharaj disse, a compreensão é tudo. APENAS SEJA. Isto seria “experienciar” o Ensinamento.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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