O valor da “auto-contenção”: aprendendo a dizer não para ter bem-estar, por Thanissaro Bhikkhu

Não só a palavra “contenção“, ou restrição, está em desuso, mas ensinamentos que falem sobre isso de maneira clara também não são frequentes, embora a necessidade de uma relação sábia com nossos próprios desejos seja primordial para qualquer bem-estar e paz mental. Temos alguns, como esse artigo “A Dignidade da Contenção” (The Dignity of Restraint), que o monge budista Thanissaro Bhikkhu, abade do Monastério Metta Forest, em San Diego, Califórnia (EUA), publicou na revista Tricycle. “Há um estado de bem-estar que vem do senso de estar independente dos desejos, de não precisar de outras coisas, e se esse estado não tiver chance de ser desenvolvido, se estivermos sempre cedendo a este ou aquele prazer, nunca saberemos o que bem-estar é”, diz Thanissaro Bhikkhu.

Esse tema é tão fundamental e estamos tão mergulhados e afundados nele que é difícil até escolher um exemplo entre todos que vivemos. Vão desde os mais importantes, como as prioridades do nosso tempo do dia-a-dia pra o que realmente valorizamos e como as escolhas que fazemos para cultivar respeito e alegria em nosso relacionamentos, até as escolhas de nossas atitudes “menores” como numa compra de supermercado e um trajeto no trânsito. “As pessoas querem vencer no xadrez sem sacrificar um único peão“, diz de maneira muito simples Thanissaro Bhikkhu.

Segue um trecho do artigo abaixo, traduzido para o português (íntegra na revista Tricycle, em inglês).

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A Dignidade da Contenção (trecho)
Por Thanissaro Bhikkhu

“Penso que a razão (porque a palavra “dignidade” vem desaparecendo do uso na América) está relacionada com uma outra palavra que tende a desaparecer do uso comum, e ela é “contenção”: deixar de ter certos prazeres, não porque temos, mas porque vão contra nossos princípios. A oportunidade de indulgir nos prazeres pode estar lá, mas nós aprendemos a dizer não. Isso, é claro, está relacionado com uma outra palavra que nós não costumamos usar, que é “tentação”.

A oportunidade de indulgir nesses prazeres pode estar lá, mas temos que aprender a dizer não. Isso está relacionado obviamente com outra palavra que não temos inclinação para usar, que é “tentação”. Apesar de não precisarmos acreditar que exista alguém lá fora nos tentando, há coisas ao nosso redor que fazem isso, que nos tentam a ceder a nossos desejos. E uma parte importante da nossa prática é exercitar a auto-contenção. Como o Buda diz, contenção sobre os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e o corpo é bom, e é contenção em termos de ações, fala e pensamentos.

O que tem de bom sobre isso? Bem, por um lado, se não tivermos nenhuma contenção, não teremos qualquer controle sobre para onde nossas vidas estão indo. Qualquer coisa que apareça em nosso caminho imediatamente nos sugará para seu sulco. Não temos nenhum senso forte de prioridades, do que é realmente valioso, do que não vale a pena, de prazeres que ganharíamos se disséssemos não para outros prazeres. Como hierarquizamos os prazeres em nossas vidas, a felicidade, o senso de bem-estar que conquistamos de diversas maneiras? Na verdade, há um senso de bem estar que vem de estar totalmente independente, de não precisa de outras coisas. Se esse estado de bem-estar não tem chance de ser desenvolvido, se nós estivermos constantemente cedento aos nossos impulsos de ter isso e aqui, nunca saberemos o que aquele bem-estar é.

Ao mesmo tempo, nunca conheceremos nossos impulsos. Quando simplesmente cavalgamos com nossos impulsos, você não entende a força deles. Eles são como a corrente por baixa da superfície de um rio: só quando você tentar construir uma ponte sobre o rio você detectará essas correntes e apreciará quão forte elas são. Por isso temos que olhar sobre o que é importante na vida, desenvolver um forte senso de prioridade e ser capaz de dizer não para correntes que nos levariam para prazeres menos valiosos. Como Buda diz, se você vê um prazer maior que vem do ato de passar um prazer menor, seja capaz de passar aquele prazer menor pelo maior. Soa óbvio, ridiculamente fácil, mas se você olhar para o jeito que a maior parte das pessoas vive, elas não pensam dessa maneira. Elas querem tudo que aparece no caminho delas. Querem ter o bolo e a iluminação, também; vencer o xadrez sem sacrificar um único peão. Mesmo quando meditam, seu propósito no desenvolvimento da atenção é ganhar uma apreciação ainda mais intensa da experiência de cada momento da vida. Isso é algo que você nunca vê nos ensinamentos do Buda. O tema dele é sempre que você tem que deixar algo ir para ganhar outro algo, abandonar isso para chegar àquilo. Sempre há uma troca.

Então nós estamos praticando não para ter uma apreciação mais intensa das visões, cheiros, sons, sabores e sensações táteis. Estamos praticando para realizar que a mente não precisa depender de todas aquelas coisas, e que é mais saudável sem tais dependências.”

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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