“Este é teu trabalho e a meta de teu ser e a razão de estares aqui”, por Sri Aurobindo

Trecho do livro “A Sabedoria de Sri Aurobindo“, do filósofo e iogue indiano Sri Aurobindo (1972-1959), capítulo “O Eu Aparente e o Eu Real” (p.25-26), onde ele expõe sua famosa tese da evolução do homem para um ser supramental, uma nova espécie, “tão nova para o homem quanto é o homem para o animal”. Curiosamente, essa tese se assemelha ao menos superficialmente com a visão do filósofo integralista Ken Wilber, que também usa a expressão “Integral” na sua visão de evolução do ser humano (veja o post “Ken Wilber: Somos Deus em Processo de Criação“).

Apenas uma observação sobre esse texto: Sri Aurobindo usa expressões como “se tornar“, mas acredito (e essa é uma interpretação pessoal) que ele não defenda necessariamente a idéia de que o homem tenha que ser algo que ele não é, e dessa maneira nutrir uma insatisfação fundamental (equivocada). Filósofos do não-dualismo ensinam que não há nada para se tornar, apenas algo como “desvendar” ou “realizar”, e acredito que Sri Aurobindo concorde com essa visão — apenas vai além e determina uma missão do ser humano como espécie. Como ele mesmo fala, neste texto abaixo, “tornar-te tu mesmo é ser isso e tudo que flui disso”.

Eis o texto:

Este é teu trabalho e a meta de teu ser e a razão de estares aqui, para tornar-te o divino suprahomem e um perfeito receptáculo da Divindade. Tudo o mais que tens que fazer é somente uma preparação para te aprontares, ou uma alegria no caminho, ou um declínio de teu propósito. Mas a meta é esta e o propósito é este e não no poder do caminho e na alegria do caminho, porém na alegria da meta está a grandeza e o deleite de teu ser. A alegria do caminho é porque aquilo que te está atraindo, está também dentro de ti na tua senda, e o poder para galgar te foi dado, para que possas escalar até tuas próprias culminâncias. Se tu tens um dever, este é teu dever; se tu perguntas qual será tua meta, que esta seja tua meta; se tu careces de prazer, não existe maior alegria, pois toda outra alegria é fragmentada ou limitada, a alegria de um sonho ou a alegria de um sono ou a alegria do auto-esquecimento. Mas esta é a alegria de teu ser inteiro. Porque, se tu dizes que é meu ser, este é teu ser, o Divino, e tudo mais é apenas sua aparência pervertida e fragmentada. Se procuras a Verdade, esta é a Verdade. Coloque-a diante de ti e em todas as coisas sê fiel a ela. Disse bem alguém que viu, mas através de um véu e tomou o véu pela face, que tua meta é a de te tornares tu mesmo; e ele disse bem, outra vez, que é da natureza do homem transcender a si mesmo. Esta é, na verdade, sua natureza e esta é, na verdade, a meta divina de sua transcendência.

O que é então o eu que tens de transcender, e o que é o Eu que tens de te tornar? Porque é aqui que tu não deverias fazer nenhum erro; pois esse erro de não te conheceres a ti mesmo é a fonte de todas as tuas tristezas e a causa de todos os teus tropeços. Isso que tu tens de transcender é o eu que tu aparentas ser, e isso é o homem como tu o conheces, o aparente Purusha. E o que é este homem? Ele é um ser mental, escravizado à vida e à matéria; e quando não está escravizado à vida e à matéria, ele é o escravo de sua mente. Mas essa é uma escravidão grande e pesada, porque ser escravo da mente é ser escravo do falso, do limitado e do aparente. O Eu que tens de te tornar é aquele Eu que tu és dentro, por trás do véu da mente e da vida e da matéria. É ser o espiritual, o divino, o superhomem, o real Purusha. Porque aquilo que está acima do ser mental é o superhomem. E ser o senhor de tua mente, de tua vida e de teu corpo; é ser um rei sobre a Natureza, de quem és agora um instrumento, é revelar-se acima dela, que agora te tem sob seus pés. É ser livre e não o escravo, é ser uno e não dividido, é ser imortal e não sombreado pela morte, é ser pleno de luz e não obscurecido, é ser pleno de bem-aventurança e não um joguete de tristezas e sofrimentos, é ser exaltado ao poder e não lançado dentro da fraqueza. É viver no Infinito e possuir o finito. É viver em Deus e ser uno com Ele em seu ser. Tornar-te tu mesmo é ser isso e tudo que flui disso.

Sê livre em ti mesmo e portanto livre em tua mente, livre em tua vida e em teu corpo. Porque o Espírito é liberdade. Sê uno com Deus e com todos os seres; vive em ti mesmo e não em teu pequeno ego. Porque o Espírito é união. Sê tu mesmo imortal, e não ponhas tua fé na morte; porque a morte não é de ti mesmo, mas de teu corpo. Porque o Espírito é imortalidade. Ser imortal é ser infinito em ser e consciência e bem-aventurança; porque o Espírito é infinito e aquilo que é finito vive apenas de sua infinitude. Estas coisas tu és, portanto tu podes tornar-te todas elas; mas se tu não fores estas coisas, então tu não podes nunca te tornar nelas. O que está dentro de ti, isso somente pode ser revelado em teu ser, Tu aparentas, na verdade, ser diferente, mas por que razão deverias te escravizar às aparências? Melhor erguer-te, transcender a ti mesmo, tornar-te tu mesmo. Tu és homem e toda a natureza do homem é tornar-se mais que ele mesmo. Ele era o homem-animal, ele tem que se tornar mais que o animal-homem. Ele é o pensador, o artesão, o que busca a beleza. Ele será mais que o pensador, ele será o vidente do conhecimento, ele será mais que o artesão, ele será o criador e o senhor de sua criação; ele será mais que aquele que busca a beleza, porque desfrutará de toda a beleza e de todo o deleite… No físico, ele procura por esta substância imortal; no vital, ele busca a vida imortal e o infinito poder de seu ser; no mental, e parcialmente em conhecimento, busca a luz total e a completa visão. Possuir isso é tornar-se o superhomem; porque ele tem que se erguer acima da mente até a Supermente. Chame-a de mente ou Conhecimento ou de Supermente; é o poder e a vontade divina e a divina consciência. Pela Supermente o Espírito viu e criou a si mesmo em mundos; por ela, ele vive neles e governa-os. Por ela, ele é Swarat, o soberano de si e de tudo. Viver no Ser Divino e deixar que a consciência e a ventura, a vontade e o conhecimento do Espírito te possuam e brinquem contigo e através de ti, este é o significado. Esta é a transfiguração de ti mesmo na montanha. É descobrir Deus em ti mesmo e revelá-Lo a ti mesmo em todas as coisas. Vive em seu ser, brilha com sua luz, age com seu poder, regozija-te com suaventura. Sê essa Fogo e esse Sol e esse Oceano. Sê essa alegria, essa grandeza e essa beleza“.

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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