A necessidade da morte (da individualidade humana), por Arthur Schopenhauer

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), conhecido por seu pessimismo, por seu trabalho sobre o tema da “Vontade” e suas ligações com Budismo (entre outras filosofias da Índia), questionou incessantemente a vida e a morte e os problemas psicológicos humanos, e na maioria dos seus escritos, como neste abaixo tirado do curto compêndio “A Vontade de Amar” (The Will To Live), ele discorre sobre a lógica da morte e o “pouco valor” da individualidade humana. O filósofo que colocou a “Vontade” como centro e força motivadora da criação influenciou Nietszche, Freud e outros intelectuais, mas, segundo Swami Krishnananda (The Divine Life Society), Schopenhauer não teria explorado suficientemente um “outro instinto humano mais alto, uma aspiração secreta, que é o de saber a verdade” (sobre sua existência e do universo).

No trecho abaixo, ele defende que, “se concedessem ao homem uma vida eterna, sentiria tanta repugnância por ela que acabaria desejando a morte”. Será?

Abaixo o trecho, capítulo “A Morte“:

“A individualidade do homem tem tão pouco valor que nada perde com a morte; há alguma importância nos característicos gerais da humanidade, que são indestrutíveis.

Se concedessem ao homem uma vida eterna, sentiria tanta repugnância por ela que acabaria desejando a morte, farto da imutabilidade de seu caráter e de seu ilimitado entendimento. Se exigíssemos a imortalidade perpetuaríamos um erro porque a individualidade não deveria existir, e o verdadeiro fim da vida é livrar-nos dela.

Se não houvesse penas e trabalhos, acabaria o homem por enfastiar-se, e voltaria a sofrer as dôres do mundo em tudo o que se encontrasse ao seu alcance. Num mundo melhor o homem não se sentiria feliz, o essencial seria fazer com que êle seja o que não é, isto é, transformá-lo completamente.

A morte realiza a principal condição; deixar de ser o que é; tendo isto em conta, concebe-se-lhe a necessidade moral. Ser colocado noutro mundo, e mudar inteiramente de ser, é no fundo uma só e mesma coisa.

Seria conveniente que a morte, que destruiu uma consciência individual, a reanimasse de novo dando-lhe uma vida eterna? Qual o conteúdo, quase invariável desta consciência? Uma torrente de idéias e preocupações mesquinhas, acanhadas, terrenas. Melhor seria deixá-la repousar eternamente”.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

6 Comentários

  • Schopenhauer teria influenciado Hegel? Pois este último era seu antecessor e forte adversário acadêmico. Schopenhauer dedicou parte de seus esforços a combater implacavelmente a filosofia de Hegel.

    • Claro, Leonardo. A pressa é inimiga da correção (sic) — errei 2x nesse post e peço desculpas, uma na data (digitação) e outra na referência (escrevi uma coisa e pensei outra). Freud. Queria até ter desenvolvido algo mais em relação a essa ponte entre filosofia e psicologia, mas fica pra próxima.

      Agradeço imensamente por ter escrito e me permitido corrigir o quanto antes.

  • muito bem colocada a alusãod sobre o pessimismo shopenhauriano no tocante a vida,isto é,quando se refere a morte,pois a necessidade da morte surge em função do enfado da vida.

  • Não considero a filosofia de Schopenhauer uma visão pessimista da vida. É só uma questão de relatividade, dependente das disposições mentais de cada pessoa. Parece-me que ele teria “feito a cabeça” de Nietzsche quando este deparou-se com um de seus livros (talvez “O Mundo como Vontade e Representação”) na vitrine de uma livraria e tornou-se seu admirador. Mas depois, como foi sua prática em vida, Nietzsche teria entrado em conflito com Schopenhauer, assim como fez com Wagner.
    Estudei mais Nietzsche do que Schopenhauer, mas o segundo atraiu mais a minha atenção.
    Quanto ao pessimismo de Schopenhauer, não é de admirar que ele teve conexão com o budismo, também considerado uma filosofia pessimista pois só fala em sofrimento e morte, a vida como um sonho/ilusão/……., quando eu o considero uma visão MUITO profunda da existência. Grande parte da multidão ocidental que conhece o budismo, tem uma visão negativa, ninguém está disposto a ouvir verdades, julga melhor enveredar-se pelas atrações do samsara.

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