“Não alcançar seu ideal é o que lhe permite ser você mesmo”: discurso de formatura de Conan O’Brien

Nem todos conhecem a história de Conan O’Brien, considerado um dos maiores comediantes e apresentadores de talk show dos Estados Unidos, que ano passado saiu da grande rede de tv NBC para viver um ano atípico e, como ele diz neste discurso de formatura deste ano da Faculdade de Dartmouth (EUA), “o mais satisfatório e fascinante da sua vida profissional“. Depois de 25 anos trabalhando como uma “celebridade bem-sucedida comum” (aspas minhas), em busca do seu ideal (se tornar o novo David Letterman) ele meteu os pés pelas mãos, perdeu seu contrato e teve que se reinventar, usando Twitter, shows solo, fazendo filmes e, depois de um ano, aprendendo a lição de quem somos e da verdadeira originalidade. “Todos vocês vão se frustar, tenham medo ou não, e seus sonhos vão mudar. A beleza é que você ganha clareza e verdadeira originalidade”.

O vídeo do discurso completo tem 23min, mas abaixo traduzi apenas a parte final, de 7 minutos, onde ele fala especificamente desta lição que aprendeu e que gostaria de transmitir.

IMPORTANTE: A tradução e legenda começam no momento 16min20seg.


 

Abaixo, a transcrição do trecho a partir de 16min20seg.

“Há 11 anos eu fiz um discurso para uma turma de formandos de Harvard. Não falei numa formatura desde então porque achei que não tinha nada pra dizer. Mas então veio 2010. E agora estou aqui, 3 mil milhas da minha casa, porque aprendi uma dura e profunda lição no último ano e eu queria dividi-la com vocês. Em 2000, eu disse aos formandos “Não tenha medo de errar“. BEm, agora estou aqui pra dizer que, apesar que vocês não deveriam temer o erro, vocês deveriam dar o seu melhor para evitá-lo. Nietzsche falou aquela famosa frase “O que não lhe mata, lhe torna mais forte”. Mas o que ele não disse é que QUASE TE MATA. O desapontamento te provoca e, para pessoas objetivas e bem-sucedidas como vocês, é desorientador. O que Nietzsche deveria ter dito é “O que não te mata, faz você assistir muito CartoonN Network e beber Chardonnay médios às 11 da manhã“.

Por princípio, discursantes de dia de formatura em uma faculdade da Ivy League são considerados bem-sucedidos. Mas um pouco mais de um ano atrás, eu experimentei uma frustração muito grande e pública. Não consegui o que queria, e deixei um sistema que tinha me nutrido e ajudado a me definir durante a maior parte dos 17 anos que trabalhei. Fui do centro da grade para não somente fora da grade, mas pra baixo da mesa de café em que a grade está, perdido no tapete que está embaixo da mesa de café. Era a criação de um desastre na carreira, e de uma terrível analogia.

Mas então uma coisa espetacular aconteceu. Confuso, sem norte, à deriva, eu comecei a tentar coisas. Deixei crescer uma barba canela estranha. Mergulhei no mundo da mídia social e comecei a twitar minhas piadas. Criei uma turnê nacional. Toquei guitarra, fiz shows sozinho, usei um terno colante de couro azul, gravei um disco, fiz um documentário e assustei meus amigos e minha família. No final, abandonei todas as percepções preconcebidas do caminho e da estatura da minha carreira e peguei um emprego na rede a cabo numa tv famosa por transmitir reprises, além de séries cômicas criadas por um homem negro alto que se vestia como uma velha mulher negra. Fiz um monte de coisas bestas, não-convencionais, espontâneas e aparentemente irracionais e, adivinhe o que — à exceção do terno azul de couro, foi o ano mais satisfatório e fascinante da minha vida profissional. Até hoje não entendo exatamente o que aconteceu, mas nunca me diverti tanto, fui mais desafiado, e isto é importante — tive mais convicção sobre o que eu estava fazendo.

Como isso poderia ser verdade? É simples: Há poucas coisas mais libertadoras nesta vida do que ver seu pior medo realizado. Fiz faculdade com muitas pessoas que tinha orgulho de saber exatamente o que eles eram e para onde estavam indo. Em Harvard, cinco caras diferentes me disseram que um dia seriam Presidente dos Estados Unidos. Quatro deles foram mortos em assassinatos de motel. O outro apresentou brevemente o programa “Blues Clues”, antes de morrer estupidamente em outro assassinato de motel. Seu caminho aos 22 não vai necessariamente ser seu caminho aos 32 ou aos 42. O sonho de uma pessoa está constantemente evoluindo, nascendo e morrendo, mudando de direção. Isso acontece em todo emprego, mas porque trabalhei em comédia por 25 anos, posso falar melhor sobre minha própria profissão.

Nos Anos 40 tinha um cara muito engraçado chamado Jack Benny. Era uma grande estrela e facilmente um dos maiores comediantes da sua geração. E um cara muito mais novo chamado Johnny Carson quera muito ser Jack Benny. De algumas maneiras ele era, mas de várias outras ele não era. Ele imitava Jack Benny, mas suas próprias gafes e maneirismos, além da mídia em mudança, o jogou numa direção diferente. E ainda assim sua falha em se tornar seu herói completamente o transformou na pessoa mais engraçada da sua geração. David Letterman queria ser Johnny Carson, e não era, e o resultado disso é que minha geração de comediantes queria ser David Letterman. E nenhum de nós é — meus colegas e eu perdemos totalmente o ponto de milhares de maneiras diferentes. Mas a questão é: foi nossa folha em nos tornarmos nosso aparente ideal que no fim nos definiu e nos tornou únicos. Não é fácil, mas se você aceitar a desgraça e gerenciá-la corretamente, sua aparente falha pode ser um catalisador para uma profunda reinvenção.

Assim, aos 47, depois de 25 anos perseguindo obsessivamente meu sonho, meu sonho mudou. Por décadas, no mundo do entretenimento, o objetivo final de todo comediante era apresentar o “Tonight Show”. Era o Cálice Sagrado, e como muitas pessoas eu pensava em alcançar aquela objetivo que me definiria como bem-sucedido. Mas não é verdade. Nenhum emprego ou objetivo de carreira me define e não deveria definir você. Em 2000, eu disse aos formandos para não terem medo de errar, e eu ainda acredito nisso. Mas hoje eu digo a vocês para, tenha você medo ou não, a frustração vai vir. A beleza é que através da frustração você pode ganhar clareza, e com clareza vem a convicção e a verdadeira originalidade.

Muitos de vocês hoje aqui estão pegando seus diplmas nessa faculdade da Ivy League porque se comprometerem com um sonho e deram duro para alcançá-lo. E não há nenhum cliché maior do num discurso de formatura do que “siga seu sonho”. Bem, estou aqui para dizer-lhes que qualquer que seja o sonho que você pense que tenha agora, ele provavelmente vai mudar. E está tudo bem. Quatro anos atrás, muitos de vocês tiveram uma visão específica de qual seria sua experiência na faculdade e quem vocês iriam se tornar. E aposto que hoje, a maior parte de vocês admitiria que seu tempo aqui foi muito diferente do que vocês imaginaram. Seus colegas mudaram, seu curso mudou, para alguns de vocês sua orientação sexual mudou. Aposto que alguns de vocês mudaram sua orientação sexual desde que esse discurso começou. Eu sei que eu mudei. Mas através do bom e especialmente do mau, a pessoa que você é agora é alguém que você jamais poderia ter imaginado no outuno de 2007.

Eu disse muitas coisas a vocês hoje, a maioria bobas mas algumas verdadeiras. Gostaria de terminar meu discurso quebrando um tabu e parafraseando eu mesmo há 17 meses. No final do meu último programa na NBC, antes de assinar minha saída, eu disse: “Trabalhe duro, seja amável e coisas maravilhosas acontecerão”. Hoje, recebendo esta honra de falar para a Turma de 2011 de Dartmouth, falando atrás de um tronco de árvore, nunca acreditei tanto nisso.

Muito obrigado e parabéns”.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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