O grave problema de ignorar ou negar o significado da morte, por Sogyal Rinpoche

Trecho do “Livro Tibetano do Viver e do Morrer“, obra do lama tibetano Sogyal Rinpoche, onde ele fala das suas visões sobre como os ocidentais encaram a morte, sua ignorância básica e proposital, e como isso está afetando tudo ao nosso redor, inclusive a destruição do meio ambiente. Esse texto aparece aqui por causa de uma curiosa matéria da revista Psychology Today, intitulada “A Consciência da Morte aumenta o Significado da Vida?” (Does Death Awareness Heighten the Meaning of Life?), que li ontem e mostra uma pesquisa que havia concluído que quanto mais uma pessoa reflete sobre a morte, mais ela valoriza a vida. A pesquisa foi feita na Universidade de Missouri, liderada pela professora de psicologia Laura King, e está disponível online (paga) no site da Psychology Science (“Death, Life, Scarcity, and Value: An Alternative Perspective on the Meaning of Death“).

“(…) Aprendi que as pessoas hoje são ensinadas a negar a morte e a crer que ela nada significa, a não ser aniquilação e perda. Isso quer dizer que a maior parte do mundo vive negando a morte ou aterrorizado por ela. Até falar da morte é considerado mórbido, e muitos acham que fazer uma simples menção a ela pode atraí-la sobre si.

Outros olham a morte de modo ingênuo, com uma jovialidade irrefletida, achando que por alguma razão desconhecida vão se sair bem ao passar por ela, não havendo motivo para preocupação. Quando penso neles, lembro-me do que diz um mestre tibetano: “As pessoas frequentemente cometem o erro de ser frívolas em relação à morte e pensam: ‘Ora, a morte chega para todo mundo. Não é nada de mais, é apenas natural. Tudo irá bem para mim’. Essa é uma bela teoria, até que se esteja morrendo.”

Dessas duas atitudes diante da morte, uma a vê como algo de que se deve fugir correndo, outra como um fato que simplesmente irá cuidar de si próprio. Como ambas estão distantes da compreensão de seu verdadeiro significado!

Todas as grandes tradições espirituais do mundo, inclusive, é claro, o cristianismo, dizem explicitamente que a morte não é o fim. Todas falam em algum tipo de vida futura, o que infunde em nossa vida atual um sentido sagrado. Mas, não obstante esses ensinamentos, a sociedade moderna é em larga escala um deserto espiritual em que a maioria imagina que esta vida é tudo o que existe. Sem qualquer fé autêntica numa vida futura, a maioria das pessoas vive toda a sua existência destituída de um sentido supremo.

Cheguei à conclusão de que os efeitos desastrosos da negação da morte vão muito além da esfera individual: eles afetam o planeta inteiro. Crendo basicamente que esta vida é a única, as pessoas do mundo moderno não desenvolveram uma visão a longo prazo. Assim, nada as refreia de saquear o planeta em que vivem para atingir suas metas imediatas, e agem com um egoísmo que pode tornar-se fatal no futuro. De quantas novas advertências ainda precisamos (…)? O medo da morte e a ignorância sobre a vida após a morte estão alimentando essa destruição do meio ambiente que está ameaçando tudo em nossas vidas. O mais perturbador nisso tudo não é o fato de que as pessoas não recebam instrução sobre o que é a morte, ou como morrer, ou que não tenham esperança alguma no que vem após a morte, no que está por trás da vida. Pode alguma coisa ser mais irônica do que a existência de jovens altamente educados em todos os campos do conhecimento, exceto naquele que detém a chave do sentido global da vida, e talvez até da nossa sobrevivência?
~ Sogyal Rinpoche, “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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