Seja livre como Deus quiser

Arte, solução, pudim e Ed Motta
Do post “Solução? Pudim“, de JP Cuenca (autor de “Corpo Presente”), escritor da nova geração carioca, ao responder a um crítico teórico (sei do pleonasmo) estilo padrão:

“Quem disse que literatura tem que dar solução para qualquer coisa? Um quadro soluciona os problemas da humanidade? Um músico precisa compor uma canção que anestesie ou ofereça mensagens de paz e amor ao seu público? Nada contra Sting ou Paulo Coelho, mas uma manifestação artística não merece esse fardo.”

Tem a ver com a visão do Ed Motta, que diz que para um artista não se pergunta pra quê nem por quê. A arte é livre. A única liberdade que ela não tem é de sair da cabeça de outro que não o seu autor (doh!).

Vou delirar (sério!). Mesmo totalmente livre, livrezinha da silva, a arte que sai da cabeça do homem está presa ao fato de sair da cabeça do homem (em contato com algo superior, nas melhores famílias, mas ainda assim da cabeça de alguém) e aí está o único nó que prende o autor ao seu ímpeto e à obra. Não é motivo, não é solução, não é desejo (era aqui que eu queria chegar!). É a posição do artista no universo e o estado presente da sua consciência (ou apenas da mente, se ele estiver “inconsciente”, enfim) que determina a criação da obra e o que ela vai ser. O sujeito entende uma coisa da vida e daí sai tudo o mais. E isso acontece em todas as instâncias da sua vida, porque até na hora de tratar com o mecânico da oficina ele “representa” sua visão do mundo e da vida.

É o detalhe humano do cotidiano saindo da cabeça (porque passou pelo olho e pelo coração) de Drummond. É o medo da morte de Ferreira Gullar. É o caos musical de Marylin Manson. É a entrega divina e operária de Bach. É a devoção colorida de Matisse. É o sarro político pindoramense do Millôr. É o Corpo Presente de JP Cuenca.

“Traz sempre na mão
vem sendo a minha solução
querendo vencer
passando por cima da razão
deixe o tempo que
ficou para trás
viva a vida como
quer viver
seja livre como
Deus quiser
(…)”
~ Ed Motta, “Solução” (Ed Motta/Bombom)

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

1 Comentário

  • Esta foi a melhor leitura que fiz no dia de hoje. A verdadeira arte é gratuita. Embora possa ser vendida sem remorsos pelo artista, que, afinal, precisa comer seu caviar. É gratuita no sentido de dispensar motivos pra existir. No fundo, a arte é inevitável.

    COMMENT:
    arte carrega visão de mundo, sim. e também acho que não se pergunta pra quê nem por quê para um artista.

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