A experiência iluminadora de Bill Wilson, co-fundador do AA: “Meu livramento da obsessão pelo álcool foi imediato”

Este post é basicamente a reprodução de trechos de dois documentos que tratam de experiências de despertar espiritual, ou algo parecido com isso, de um dos fundadores dos Alcóolicos Anônimos, Bill Wilson (1895-1971). E de como o alcoolismo parece ser uma espécie de desvio de saúde que pode ter conexão com a sede de plenitude que um buscador espiritual sério tem ao fazer suas investigações, práticas e meditações. O primeiro documento é um trecho da carta que Wilson enviou a Carl Gustav Jung (1875-1961) em 1961 contando de sua experiência religiosa, e de como Jung havia influenciado Wilson a buscar ajuda da religião e de uma comunidade. O segundo documento é um trecho do livro “Alcóolicos Anônimos“, especificamente do capítulo 1 onde Wilson conta sua história pessoa econta como deixou de beber da noite pro dia, com uma confiança anormal e que o manteria até o fim da vida sem colocar mais uma gota de álcool na boca. E estamos falando aqui de um alcóolatra tão desorientado que seu próprio médico o havia lhe dado um prognóstico de poucas esperanças.

Esse post é a segunda parte de um outro, intitulado “O álcool como forma inferior de matar a sede espiritual: a visão de Jung sobre o alcoolismo” (18/3/2019). É recomendável a leitura da primeira parte.

A experiência de Wilson é rica e contém dentro dela muitas das dúvidas, desconfianças, desilusões e ceticismos que sentimos em relação à religião, ao uso da palavra “Deus” e a todas as histórias de salvação pessoal envolvidas nisso. O médico de Wilson confessou na época desconhecer o que realmente havia acontecido a Wilson, mas o recomendou seguir em diante com o que estava experimentando. O próprio relato de Wilson mostra que ele estava elevadamente lúcido, e soube também que para que uma pessoa tivesse a proximidade divina que ele havia experimentado era necessário que passasse pelo que chamou de “o colapso do ego em profundidade“. Algo que muitas escolas de sabedoria ensinam e praticam. Leia ambos os trechos e faça sua reflexão.

Apenas atualizando os dados, hoje o AA tem mais de 115 mil grupos em 175 países. São mais de 60 mil grupos apenas nos Estados Unidos (para não mencionar os grupos que copiaram ou se inspiraram no AA).

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TRECHO DE CARTA
DE: BILL WILSON
PARA: CARL G. JUNG

26 DE JANEIRO DE 1961

“Ouvindo de minha situação, meu amigo Edwin T. veio ver-me em minha casa, onde eu estava bebendo. Era, então novembro de 1934. Há muito tempo tinha marcado meu amigo Edwin como um caso sem esperança. No entanto ali estava ele em um estado bem evidente de “livramento” que poderia sem dúvidas ser creditado por sua mera associação de pouco tempo com os Grupos Oxford. No entanto, esse óbvio estado de livramento, tão distinto de sua depressão usual, era tremendamente convincente. Porque ele era um parceiro de sofrimento, ele podia inquestionavelmente comunicar-se comigo em grande profundidade. Eu soube no ato que deveria encontrar uma experiência como a dele, ou morreria.

Voltei novamente aos cuidados do Dr. Silkworth onde eu pude novamente voltar a estar sóbrio e conseguir uma visão mais clara da experiência de livramento de meu amigo, e da aproximação de Rowland H (ex-paciente de Carl Jung) a ele. Desintoxicado novamente do álcool, senti-me terrivelmente deprimido. Isso parecia ser causado pela minha inabilidade de conseguir a menor fé.

Edwin T visitou-me novamente e repetiu as fórmulas simples dos Grupos Oxford. Assim que ele saiu eu fiquei ainda mais deprimido. Em grande desespero eu gritei, “Se existir um Deus, que ele se mostre a si mesmo.” Imediatamente veio uma iluminação de grande impacto e dimensão, algo que tentei descrever no livro “Alcoólicos Anônimos” e em “AA Alcança a Maioridade”, textos básicos que estou lhe enviando. Meu livramento da obsessão pelo álcool foi imediato. Eu sabia que era um homem livre no ato.

Logo depois de minha experiência, meu amigo Edwin veio ao hospital trazendo-me uma copia de William James “As Variedades da Experiência Religiosa”. Esse livro me deu a percepção de que a maioria das experiências de conversão, seja qual for sua variedade, tem um denominador comum do colapso do ego em profundidade. A pessoa enfrenta um dilema impossível. Em meu caso o dilema foi criado pelo meu beber compulsivo e o profundo sentimento de desesperança que foi grandemente aprofundado pelo meu médico. E foi mais aprofundado ainda por meu amigo alcoólatra quando me contou de seu veredicto de desesperança a respeito de Rowland H.

Na seqüência de minha experiência espiritual veio uma visão de uma sociedade de alcoólatras, cada um identificando-se com e transmitindo sua experiência ao próximo – ao estilo de corrente. Se cada sofredor levasse a notícia da desesperança científica do alcoolismo a cada novo interessado, ele poderia se capaz de fazer todo recém chegado ser aberto a uma experiência espiritual transformadora. Esse conceito provou ser o fundamento de tal sucesso como Alcoólicos Anônimos desde então alcançou. Isso tornou as experiências de conversão – quase que todas as variedades descritas por James – disponíveis quase que em uma base por atacado. Nossas recuperações sustentadas pelo último quarto de século somam cerca de 300.000. Na América e pelo mundo há hoje 8.000 grupos.”

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TRECHO DO LIVRO “ALCOÓLICOS ANÔNIMOS”
CAPÍTULO 1: A HISTÓRIA DE BILL WILSON
POR BILL WILSON

“Apesar do exemplo vivo do meu amigo, havia ainda em mim vestígios dos meus velhos preconceitos. A palavra Deus continuava a inspirar-me uma certa antipatia, e este sentimento agravava-se perante a ideia de um Deus pessoal. Esta noção desagradava-me. Podia aceitar conceitos como os de uma Inteligência Criadora, um Espírito Universal ou Espírito da Natureza, mas opunha-me à noção de um Czar dos Céus, por mais carinhoso que fosse o seu reino. Desde então tenho falado com dezenas de pessoas que partilham as mesmas idéias.

O meu amigo sugeriu o que então parecia uma ideia original, “Porque não escolhes a tua própria concepção de Deus?”

Esta afirmação tocou-me muito fundo. Derreteu a montanha de gelo intelectual, à sombra da qual tinha vivido e tremido durante muitos anos. Estava por fim à luz do sol.

Era só uma questão de ter boa vontade para crer num Poder superior a mim mesmo. Não era preciso mais nada para começar. Percebi que o crescimento podia partir deste ponto. Com base numa total boa vontade poderia edificar o que via no meu amigo. Conseguiria? Claro que sim!

Deste modo convenci-me de que Deus se preocupa connosco, seres humanos, desde que O queiramos suficientemente. Ao fim de muito tempo, vi, senti e acreditei. A camada de orgulho e preconceito que me tapava os olhos desapareceu. Surgiu-me um novo mundo.

O verdadeiro significado da minha experiência na Catedral tornou-se-me então claro. Por um breve instante tinha sentido a necessidade e o desejo de Deus. Tinha tido a humilde vontade de O encontrar, e Ele veio. Mas em breve, o sentimento da sua presença dissipou-se com os clamores mundanos, essencialmente com os que me habitavam. E assim tinha sido desde sempre. Que cegueira a minha.

No hospital tiraram-me o álcool pela última vez. O tratamento parecia indicado porque tinha indícios de delirium tremens.

Aí ofereci-me humildemente a Deus, tal como eu então O concebia, para que fizesse de mim o que quisesse. Pus-me sem reservas sob a Sua protecção e orientação. Admiti pela primeira vez que só por mim não era nada; que sem Ele estava perdido. Sem medo encarei os meus pecados e dispus-me a que o meu novo Amigo os removesse pela raiz. Desde então nunca mais voltei a beber.

O meu companheiro de escola foi visitar-me e pu-lo inteiramente a par dos meus problemas e deficiências. Fizemos uma lista das pessoas que eu tinha magoado e em relação às quais tinha ressentimentos. Manifestei a minha completa disposição para abordar essas pessoas, admitindo os meus erros. Nunca as deveria criticar. Tinha de reparar os danos causados da melhor maneira possível.

Tinha de pôr à prova a minha maneira de pensar com a nova tomada de consciência de Deus. Deste modo, o senso comum tornar-se-ia pouco comum. Deveria ficar quieto sempre que em dúvida, pedindo orientação e força para enfrentar os problemas como Ele quisesse. Nunca devia rezar para mim próprio, excepto na medida em que os meus pedidos tivessem utilidade para outros. Só assim podia esperar receber e então seria em abundância.

O meu amigo garantiu-me que, quando fizesse tudo isto, eu entraria numa nova relação com o meu Criador; que eu teria os princípios de um modo de vida que eram a resposta para todos os meus problemas. A crença no poder de Deus, acrescida de suficiente boa vontade, honestidade e humildade para estabelecer e manter a nova ordem das coisas, eram os requisitos básicos.

Era simples mas não fácil; havia um preço a pagar. Significava a destruição do egocentrismo. Tinha de me virar em tudo para o Pai da Luz que nos dirige a todos nós.

Eram propostas revolucionárias e drásticas mas, a partir do momento em que eu as aceitei plenamente, o efeito foi fulminante. Tive um sentimento de vitória, seguido por uma paz e serenidade que nunca tinha conhecido. Senti uma enorme confiança. Senti-me elevado como se o ar puro do cimo de uma montanha me invadisse. Deus manifesta-se à maioria dos homens de um modo gradual, mas o Seu impacto sobre mim foi súbito e profundo.

Por um instante fiquei assustado e chamei o meu amigo, o médico, para lhe perguntar se estava demente. Ele ouviu-me espantado à medida que eu ia falando.

Por fim disse-me abanando a cabeça: “Aconteceu-lhe qualquer coisa que eu não compreendo, mas é melhor agarrar-se a isso. É tudo preferível ao que foi até aqui”. Este bom médico vê agora muitos homens que tiveram experiências semelhantes. Ele sabe que são experiências reais.

Enquanto estava no hospital, veio-me à ideia que havia milhares de alcoólicos desesperados que ficariam felizes de ter o que me tinha sido dado tão gratuitamente. Talvez eu pudesse ajudar uns tantos. Eles, por sua vez, poderiam trabalhar com outros. (…)”

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

4 Comentários

  • Eu não consigo falar de um lugar mais amplo que a minha experiência com meu pai, que está sóbrio há mais de 20 anos. Isso me toca como uma ferida que nunca será curada. Quem gostaria de perder um pai, ou, em outros casos, alguém tão importante na vida? E eu quase perdi meu pai. Mas ao mesmo tempo, ele se tornou a minha vontade de continuar mesmo com o meu histórico de depressão. Simplesmente porque ele ficou por seus filhos. Seja qual for o motivo para alguém permanecer, continuar, acreditar e sair deste buraco que se chama alcoolismo, seja sua experiência com Deus ou algo que faça o dependente sair de um lugar que parece impossível de sair, é válido. O trabalho do AA é um bote salva-vidas. E eu sei. Meu pai se salvou. Obrigada, Dharmalog, por expor assunto tão delicado e complexo de forma respeitosa e cuidadosa.

    • Obrigado por contar tua experiência, Tici. Vendo a potência que ela tem, para o seu pai, para você e para tua família, a gente vê a dimensão da importância.

      Infelizmente já perdi parente para o alcoolismo, mas também tive um amigo que recebeu ajuda imensa do AA, e hoje é um exemplo e uma inspiração.

      Um serviço desses, que consegue oferecer ajuda a um problema tão sério, é realmente admirador.

      Nando

  • Nando,
    O mais importante de todas as histórias que vivenciamos de perto ou de longe no caso específico do alcoolismo é ouvir o que essas pessoas têm a dizer. Meu pai hoje é voluntário na clínica onde ele ficou internado, dá palestras, expõe toda uma batalha a qual ele foi capaz de enfrentar seja lá de que forma isso se deu. São essas coisas que nos dão uma pequena demonstração do quanto somos capazes de virar o jogo em favor da vida, colocando-a em uma perspectiva maior e de acordo com um valor que às vezes não conseguimos perceber.
    Eu sinto muito pela sua perda. Isso nos toca profundamente e também nos traz aprendizados que, infelizmente, às vezes, vêm de forma dolorosa.
    Mas ao mesmo tempo fico muito feliz por saber que muitas vidas se salvam através do AA como a de seu amigo e de muitas outras pessoas. Isso é muito bonito.
    Só por hoje.
    Tici

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