As quatro estórias que nós nos contamos sobre (o medo d)a morte, segundo o filósofo Stephen Cave

Estamos condenados a viver a única vida que temos moldada pelo medo e pela negação (da morte) ou nós podemos superar isso?“, pergunta o filósofo Stephen Cave, da Universidade de Cambridge e autor do livro “Immortality: The Quest to Live Forever and How It Drives Civilization” (Imortalidade: A Busca pela Vida Eterna e Como Ela Comanda a Civilização, ainda sem edição em português – até a data deste post). Em uma palestra de 15 minutos no TED Bratislava, na Eslováquia, filmada em julho de 2013, Cave apresentou o que enxerga como “as quatro estórias que nos contamos sobre a morte“, uma síntese interessante que cita quatro maneiras que a civilização teria encontrado para responder ao medo da morte ao longo de sua história, todas elas, na visão dele, distorcidas, enganadas, ou “enviesadas“.  A resposta dele, no entanto, não é tão convincente. Invocando Epicuro, ele diz que “o medo da morte é natural, mas não é racional”. Invocando Wittgenstein, ele diz que “a morte não é um evento na vida, nós não vivemos para experimentar a morte; então, nesse sentido, a vida não tem fim”. Mas seriam essas respostas frontais e sem negação para o medo da morte? Que soberania o raciocínio tem sobre as outras percepções humanas sobre a existência e a vida? Não seria a busca de respostas na dimensão intelectual uma outra espécie de estória? A alma e a vida pós-humana seriam apenas negação sem evidências da morte? A resposta que buscamos para o medo da morte é uma justificativa prática para a impossibilidade de uma mudança nesse mortal destino humano, ou uma revelação sobre a verdade da nossa existência? E as outras descobertas, como a de yogues e monges orientais? Como as do Buda Shakyamuni? Teria sido ele apenas mais um sujeito tomado por um viés? Ou um ser que pesquisou essa questão verdadeiramente a fundo? Teria ele encontrado alguma resposta mais real, e com ela a possibilidade de um viver fora das estórias que a humanidade tem se contado? A resposta/proposta de Cave é que levemos nossa vida como a boa história de um livro, com começo e fim, capa e contracapa, mas cujos personagens não temem essa finitude, e, de certa forma, não acabam com o fim do livro. Segue a palestra na íntegra abaixo, com legendas em português embutidas: //////////

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

5 Comentários

  • A morte é a ilusão elevada ao máximo, dessa ideia de limitação que é o ego, essa personalidade que acreditamos ser. O ego mantém o controle através do medo, através da finitude e enquanto aceitarmos que somos apenas isso, o medo continuará a guiar a nossa existência. Mas aquilo que somos é imutável, é perfeito tal como é e nada o pode beliscar.
    http://paulorenatoconsultor.blogspot.com

  • Gostei dos argumentos do filósofo, porém há uma lacuna imperdoável ao não tratar da crença na reencarnação, muito mais difundida por entre várias religiões (espiritismo, budismo, etc.) do que a ressurreição. Acredito que ele não a incluiu em “ressurreição” e nem em “alma”, o que seria incorreto. De qualquer forma, a ideia da vida como um livro é interessante.

    • Jose Carlos, acho que a reencarnação estaria ali entre “alma” e “ressurreição”, que também não são excludentes (esse seria uma divisão questionável). Poderíamos alinhar a um ou a outra, talvez a “alma” seja mais apropriado até.

      Um abraço.

  • Interessante, este tema é talvez o mais “hot” na vida de cada um de nós. Verdade? Principalmente quando pensamos nele (risada)…porque para dizer a verdade, eu acredito que agente não pensa muito acerca da morte…Ai meu Deus! Falar sobre a morte e, principalmente, lembrarmo-nos, neste momento, de que um dia “eu vou morrer” é muito sério e muito pessoal também…O que é que esta consciência desperta em mim? Medo? Certeza?

    Outra coisa muito interessante: vou partilhar convosco o que eu me lembro que seja o meu primeiro pensamento acerca da morte. Era eu muito pequena e pensei assim: -Meu Deus!Os velhos devem viver aterrorizados, pois sabem que a morte está perto. Ufa! Ainda bem que eu sou bem novinha :) :)

    Aproveito este momento para parabenizar o Nando por este excelente blog que me tem proporcionado produtiva reflexão. Muito bom mesmo.Gratidão.

    Em relação ao conteúdo da palestra propriamente dita, acho que fornece muita matéria de reflexão, mas como disse, este tema é muito pessoal e como eu acredito que devemos ser os nossos próprios pesquisadores, acho que devemos questionar o que existe para lá da morte, ver o que há no mundo relativamente a essa matéria e questionar a nós mesmos qual a base da nossa própria crença. Talvez seja uma busca de uma vida inteira. O Buda não saiu do palácio para descobrir a verdade por ele mesmo? Então…a morte não é menos que isso.

    Obrigado
    Cumprimentos a todos

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