Uma visão budista do Livre Arbítrio, para além do determinismo e do indeterminismo, segundo Alan Wallace

O trecho abaixo faz parte do artigo “Uma Visão Budista do Livre Arbítrio: Além do Determinismo e do Indeterminismo” (“A Buddhist View of Free Will: Beyond Determinism and Indeterminism.”, Journal of Consciousness Studies, 2011), do estudioso budista americano Alan Wallace, phD em Estudos Religiosos na Stanford University (EUA), fundador da Santa Barbara Institute for Consciousness Studies (EUA) e autor de livros como “Hidden Dimensions: The Unification of Physics and Consciousness” e “Tibetan Tradition of Mental Development“. Está aqui como uma abordagem alternativa a outras publicadas aqui sobre o assunto do livre arbítrio, como na palestra em que o pesquisador Gary Weber defende, no post “Você não está no controle [1]: Gary Weber, Einstein e Ramana Maharshi e como “tudo está predeterminado”, de julho passado, dividido em três posts.

Tomando as palavras do Buda como parâmetro principal para interpretar a questão do livro arbítrio, Alan Wallace reúne algumas visões de psicólogos como William James e de cientistas como Stephen Hawking para comparar as abordagens, inclusive com algumas das mais contemporâneas conclusões sobre o tema, e, seguindo o venerado “caminho do meio“, equilibra a visão budista entre o determinismo das limitações humanas ordinárias e o estado para além das limitações, que faz parte da natureza humana mas permanece obscurecida — momentaneamente. Estando “além do intelecto e da lógica“, não pode, por sua vez, ser descrito por completo em um artigo (mas pode ser explicado até seu limite).

É um tema delicado e que toca em pontos profundos das crenças das pessoas e das abordagens das correntes filosóficas e científicas humanas, portanto, se beber não dirija. Talvez eu possa começar levantando algumas hipóteses para tentar “acender mais regiões” de nossos cérebros, como, por exemplo, e de que teríamos muito mais limitações e precondicionamentos que estamos dispostos a ver e aceitar (e que em uma dimensão continuarão sempre existindo, inevitavalmente), e simultaneamente também teríamos muito mais espaço para a liberdade e libertação do que sequer imaginamos que existe. Em qual nível da realidade manifestada essas duas dimensões convivem há um mistério. E/ou talvez seja um túnel de conhecimento onde só caiba um de cada vez (nós mesmos). De qualquer maneira, a própria criação do conceito de livre-arbítro pressupõe a existência de uma não-liberdade, em algum lugar, em alguma dimensão.

O artigo completo tem 15 páginas e a tradução abaixo dá conta de apenas uma, do subtítulo “O Ideal Budista de Liberdade” (The Buddhist Ideal of Freedom). A compreensão do contexto completo da argumentação de Alan Wallace é importante, mas o trecho selecionado abaixo é também compreensível sozinho. Se houver dúvida, então, é recomendável a leitura do artigo completo (em inglês). Se houver interesse, é possível traduzir mais trechos (neste caso, seria interessante saber por qual assunto teríamos mais necessidade de saber).

“À luz de uma definição moderna de liberdade como a capacidade de alcançar o que é de valor em uma gama de circunstâncias (Maxwell, 1984), a tradição budista claramente enfatiza que os seres sencientes ordinários não são inteiramente livres, porque estamos limitados por aflições mentais tais como o desejo, a hostilidade e a ilusão, que por sua vez nascem da nossa ignorância da verdadeira natureza da realidade; e, enquanto vivemos nossas vidas sobre o domínio dessas aflições, nos mantemos na prisão de seus resultantes sofrimentos. Mas o Buda trouxe uma hipótese verdadeiramente surpreendente, que o sofrimento e suas causas internas não são intrínsecas às mentes dos seres sencientes, pois em cada ser existe uma dimensão da consciência “brilhantemente luminosa” que, embora velada por contaminações passageiras, é em si mesma livre da ignorância e das aflições mentais, e que pode ser revelada pela prática espiritual.

 

Comentários do Budismo Theravada identificam essa mente radiante como a naturalmente pura “base do ser” (bhavanga), o estado relaxado da mente que não está incluído nos seis modos da consciência, que são os cinco sentidos físicos mais a consciência ordinária da mente. Esta dimensão da consciência se manifesta no estado de sono sem sonhos e na morte, e durante o estado de vigília a mente momentaneamente é revertida para ele entre períodos de engajamento com os objetos da cognição. Em circunsâncias normais, nós geralmente não temos reconhecimento claro desse estado básico relativo da consciência, mas pode ser vividamente experimentado com a conquista meditativa da atenção estável e altamente focada (samadhi), em que a atenção é retirada de todos os objetos, sensoriais e mentais. A base do “tornar-se” descrita no Budismo mais antigo tem uma semelhança forte  com as descrições do substrato da consciência (alaya-vijñana) da tradição da Grande Perfeição do Budismo Tibetano.

 

Essa mente brilhantemente luminosa pode ser entendida alternativamente como o estado descondicionado da consciência que está presente depois que um arhat, aquele que atingiu o nirvana, morre, para nunca mais reencarnar. Tal consciência, que transcende os cinco agregados psicofísicos, é dita como sendo não-manifesta, eterna e não-condicionada. Como é não-nascida – nem criada por causas prévias – e não é a consciência de alguém ou de algo além do que ela mesma, deve estar presente em cada ser senciente antes da conquista do nirvana. Esta dimensão da consciência está além do alcance da mente conceitual, por isso sua possível influência nas mentes dos seres sencientes ordinários é inimaginável. Tal atenção primitiva e transcendente parece ser similar à natureza de Buda apresentada no Budismo Mahayana e à consciência primitiva (rg pa) ensinada na Grande Perfeição. Essa dimensão primordial da consciência é dita como sendo a fonte mais profunda de nossa busca por felicidade e libertação, eé conhecida como o último estágio da liberdade para todos os seres. Mas uma vez que sua natureza transcende o domínio da mente conceitual, da mente racional, não se sujeita à análise racional, e sua maneira de impactar a mente e o resto do mundo natural também está além da dimensão da filosofia. Pode ser conhecida diretamente através da atenção não-dual, mas não pode ser objeto do intelecto.

 

Uma compreensão Budista moderna do “livre arbítrio” não foca na questão se a vontade é condicionada por causas e condições prévias, mas na extensão em que nós temos liberdade para tomar decisões que são condutivas à nossa própria felicidade e à felicidade genuína dos outros. Tais escolhas são condicionadas, com certeza, somente por sabedoria e compaixão, ao invés de desejo, hostilidade e ilusão. Meditações praticadas com a mente ordinária são conduzidas para dentro do campo de interações causais, levando à liberdade cada vez maior para fazer escolhas sábias. Quando alguém se liberta da consciência ordinária em direção à atenção primordial, transcende a dimensão do intelecto e da causalidade, e é aqui que a liberdade verdadeira e primordial é descoberta. Isso não é algo que possa ser provado com a lógica, mas pode ser percebido através da experiência direta que nasce de uma prática de meditação rigorosa e regular. A tradição Budista concordaria com (William) James quando ele diz, “O pensamento lida somente com as superfícies. Pode nomear a grossura da realidade, mas não pode penetrá-la, e sua insuficiência aqui é essencial e permanente, não temporária”. (…)

~ Alan Wallace,  “Uma Visão Budista do Livre Arbítrio: Além do Determinismo e do Indeterminismo”

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Foto de CEBB Imagens (licença de uso BY-NC-SA Creative Commons).

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

7 Comentários

  • “O Buda trouxe uma hipótese verdadeiramente surpreendente, que o sofrimento e suas causas internas não são intrínsecas às mentes dos seres sencientes, pois em cada ser existe uma dimensão da consciência “brilhantemente luminosa” que, embora velada por contaminações passageiras, é em si mesma livre da ignorância e das aflições mentais, e que pode ser revelada pela prática espiritual.

    Quando alguém se liberta da consciência ordinária em direção à atenção primordial, transcende a dimensão do intelecto e da causalidade, e é aqui que a liberdade verdadeira e primordial é descoberta. Isso não é algo que possa ser provado com a lógica, mas pode ser percebido através da experiência direta que nasce de uma prática de meditação rigorosa e regular. A tradição Budista concordaria com (William) James quando ele diz, “O pensamento lida somente com as superfícies. Pode nomear a grossura da realidade, mas não pode penetrá-la, e sua insuficiência aqui é essencial e permanente, não temporária”. (…)

    Alan Wallace

    Excelente tema para reflexão, Nando.

    Saudações, queridos amigos,
    Olira Rodrigues,

    Muitos estudiosos e praticantes, como Alan Wallace, e principalmente, muitos “teóricos” da meditação, falam com grande paixão e “desenvoltura” sobre a dimensão da “CONSCIÊNCIA BRILHANTEMENTE LUMINOSA”. Naturalmente, muitos destes baseiam suas palavras nos ensinamentos do Buda e de alguns de seus seguidores mais conhecidos, e não a partir de sua própria experiência direta.

    A mente comum tende a rejeitar, desprezar e desmerecer o que julga “pouco importante” e, ao mesmo tempo, tende a supervalorizar, ou mesmo endeusar e revestir com impenetrável misticismo, a tudo o que elege como “importante” – sejam técnicas, conceitos, ensinamentos ou pessoas. Seu critério de julgamento há de ser bastante limitado – como reconhece Alan Wallace quando diz que “porque estamos limitados por aflições mentais tais como o desejo, a hostilidade e a ilusão, que por sua vez nascem da nossa ignorância da verdadeira natureza da realidade; e, enquanto vivemos nossas vidas sobre o domínio dessas aflições”.

    Tenho observado que, em geral, muitos destes pensadores (antigos e modernos) restringem sua atenção e foco, ao último estágio da meditação (Samadhi ou Nirvana), relegando os estágios intermediários como “inexistentes”, pouco importantes ou “não dignos de sua atenção”. Tenho estudado o assunto há muitos anos e, esta é a minha percepção pessoal com relação a este aspecto da questão.

    Eu, humildemente, acredito que deveríamos nos voltar inteiramente ao “próximo passo”, e não ao “último passo” do Caminho. Assim tenho feito, e esta minha atitude tem demonstrado ser uma decisão acertada.

    Entre os “pensadores” modernos que se preocuparam e se dedicaram a este “enfoque menos ambicioso ou profundo” e que muito me ajudaram em meu Caminho espiritual, menciono, primeiramente, Jiddu Krishnamurti e, também, Eckhart Tolle.(Há outros em que somente parte de seus ensinamentos pude “compreender, aceitar e utilizar com proveito” – dentre estes – reverencio o nome de Osho, mas há muitos outros).

    Ambos falam com grande ênfase, (cada qual com sua linguagem própria) deste “estágio menos avançado”, porém ao alcance de um maior número de pessoas.

    Ambos, J.Krishnamurti e Eckhart Tolle, sustentam que há um estado em que ainda não atingimos uma “CONSCIÊNCIA BRILHANTEMENTE LUMINOSA” (como a nomeia Alan Wallace, no texto em discussão), mas sim uma mente silenciosa, suave, intuitiva e compassiva, em que o “eu” ainda existe, mas nos desidentificamos e “nos desprendemos parcialmente dele”. O “eu” ainda permanece, mas agora sob a vigilância perene de uma “instância (Superior) subjacente”, de modo que (o “eu”) já não tem mais poder para nos atirar de um lado para o outro em busca de satisfação de incontáveis desejos ou para nos submeter a compulsões de todo tipo na tentativa de fugir do sofrimento interior, e também não pode mais nos predispor ou coagir ao conflito ou à competição com os outros.

    É bastante “complicado” e um tanto “constrangedor” falar abertamente sobre isto, de modo que, se exponho aqui este depoimento pessoal, o faço unicamente porque desejo ajudar os buscadores sinceros a alcançar ou avançar em direção a este bem aventurado “estado intermediário”.

    Não me proponho a “provar minhas afirmações” a ninguém, o que seria absolutamente inútil e desnecessário, pois aquele que está “pronto” não opõe obstáculos adicionais ao seu próprio avanço no Caminho, e aquele que não está pronto, não poderá ser “convencido” nem por todos os argumentos do Universo! Entretanto, coloco-me à disposição de todo aquele que sincera e humildemente, aceite ajuda.

    Como bem colocou Alan Wallace, “A PRÁTICA DE MEDITAÇÃO RIGOROSA E REGULAR” – é, sem dúvida, um dos métodos hábeis para se atingir “A EXPERIÊNCIA DIRETA”, mas ele não disse que este era o único caminho. A “atenção sem intenção” preconizada por J.Krishnamurti e o “estado meditativo” de Eckhart Tolle podem e devem ser adotadas como uma prática espiritual ininterrupta – 24hs por dia, sete dias por semana.

    Talvez a aplicação das técnicas de J.Krishnamurti e de Eckhart Tolle não seja suficiente para “levar-nos até o Nirvana mais avançado”, mas, segundo pude experimentar, podem ser de inestimável valor para auxiliar-nos a nos libertar “DAS CONTAMINAÇÕES PASSAGEIRAS, DA IGNORÂNCIA E AFLIÇÕES MENTAIS” que bloqueiam o nosso avanço para esta Incomparável e Insuperável Meta.

    Que todos os seres Despertem e sejam Felizes e Bem Aventurados!

    Um fraterno abraço, a todos,

    adilson

    ***

    “O VOSSO PRIMEIRO DEVER PARA CONVOSCO E PARA COM O MUNDO É PURIFICAR OS VOSSOS PENSAMENTOS.

    TORNAI-VOS COMO UM LÍMPIDO CRISTAL, ATRAVÉS DO QUAL POSSA A LUZ DIVINA PASSAR E ILUMINAR O MUNDO”.

    Jiddu Krishnamurti

    • Muito interessante Adilson.

      Outro dia ouvi uma definição do que seria o “nada” dada por um físico. Segundo ele, o espaço vazio sem luz e sem radiação não poderia ser chamado de “nada”, porque o próprio espaço é uma entidade, ele existe. Então o “nada” seria um “não-espaço”, um “não-tempo”, uma “não-existência”. O universo teria surgido desse “nada”, cada pessoa também.

      Percebi então que esse conceito está além da compreensão da mente, as coisas vem da “não-existência” e voltam no final para a “não-existência”: Como seria a “não-existência”, ou o “nada”?

      Seria isso o Nirvana?

  • Caro amigos,
    Caro Misterkey,

    Para “alcançar” um “pequeno espaço” de Silêncio Interior, ajuda muito, abrir-se à compreensão de que uma das formas de destruir este Silêncio é, justamente, ceder ao “desejo” de experimentar o prazer que nos facultam os nossos pensamentos compulsivos – especialmente os que giram sobre especulações metafísicas sem fim.

    Num certo sentido, este “prazer” surge da “sensação da conquista pessoal” do que nos parece uma gnose proibida (como na alegoria bíblica da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal). É como se estivéssemos “rasgando os véus e desmascarando” os segredos que o Universo deliberadamente nos negou, e que nós, em nossa “justa” rebeldia, penetramos como que à força, a fim de provar ao Universo e a nós mesmos, o nosso próprio “poder e independência” e, desta forma, nos autoafirmarmos e nos tornamos ainda mais poderosos e indomáveis.

    Ao desistirmos deste prazer – o que exigirá um mínimo de discernimento e de autodomínio, experimentamos “outro tipo de prazer” – incomparavelmente mais sublime – o prazer que nasce da experiência da verdadeira e autêntica liberdade – da liberdade do jugo da própria mente condicionada – estaremos dando passos decisivos em direção ao autodomínio e à libertação definitiva dos pensamentos compulsivos. Só então, seremos verdadeiros “livres pensadores”.

    Dentro do Silêncio, tornamo-nos totalmente Presentes, Conscientes, pacíficos e inofensivos e, exatamente por esta razão, os segredos do Universo abrem-se e revelam-se alegremente para nós, possibilitando-nos “penetrá-los, conhecê-los e compreendê-los” intuitivamente, sem pensamentos, sem julgamentos, sem opiniões, sem dúvidas, e principalmente, sem interesses pessoais, sem intenções ocultas, sem violência, sem pressa e sem ansiedade, de uma forma inexplicavelmente suave e venturosa.

    Espero que estas palavras possam ajudá-lo(s) a responder às suas próprias perguntas.

    Se quiser(em), pode(m) experimentar a prática do seguinte exercício espiritual:

    a) Proponha(m)-se a estabelecer um período de absoluto silêncio, se possível diariamente. Comecem com alguns minutos e gradativamente amplie(m) até várias horas. Neste período, fale o estritamente necessário, abstenha(m)-se de dialogar, ler, assistir TV, ouvir música, ler/responder emails, telefonar, ou atender telefones, “navegar na internet”, ou distrair-se com o que quer que seja. Fique(m) inteiramente consigo mesmo(s). Tente(m) manter(em)-se conscientes, apenas, e tão somente de seus próprios pensamentos, emoções, sensações e atitudes. Conheça(m) e ouça(m) os pensamentos que brotam incessantemente em sua(s) mente(s). Conheça(m) o estado “mental/emocional” em que, inconscientemente, vive(m).

    Aquele(s) que persistir(em) se surpreenderão com os resultados.

    Este é um exercício espiritual muito poderoso. Obterá maiores e melhores resultados, aquele(s) que avançar(em)lentamente, com calma, com máximo respeito e humildade.

    Que todos os seres despertem e sejam Felizes e Bem Aventurados.

    Namastê!

  • “De qualquer maneira, a própria criação do conceito de livre-arbítrio pressupõe a existência de uma não-liberdade, em algum lugar, em alguma dimensão.”
    Exatamente isso.
    A natureza da mente é livre a tal ponto em que esta liberdade se manifesta dentro de nossos próprios condicionamentos. Talvez daí possa nascer o conceito de livre-arbítrio.
    Por outro lado, estes condicionamentos limitam nossas ações, percepções e, consequentemente, nossa apreensão da realidade se reduz, nos conduz a “erros” e se mantém na superfície.
    Somos e não somos livres.

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