Previsões evolucionárias do visionário Buckminster Fuller pro Século 21, no “Manual da Nave Terra”, de 1969

A seguir, dois trechos curiosos e ricos de autoria do inventor, teórico, designer e futurista americano Richard Buckminster Fuller (1895-1983) no belo livro “Manual de Instruções para a Nave Mãe Terra“, escrito e publicado em 1969. No primeiro, “Bucky” mostra como a evolução do e no planeta é um processo muito maior que o homem, e que controla o homem, e no segundo ele faz graça com um hipotético “plano humano” para a evolução na Terra, que seria concebido em 1810, pelas mentes mais brilhantes do planeta, mas que não conseguiria prever as maiores descobertas e mudanças que transformariam qualquer plano, por mais brilhante que fosse concebido. Fuller morreu antes de ver o triunfo da telefonia celular e da Internet, mas já conhecia os potenciais do computador e previa, neste livro, a salvação evolutiva que viria por ele. Em 69, ele falava dos “próximos 35 anos” sem prever o fim da União Soviética, a ascensão da China, a ameaça do terrorismo, a crise global econômica e ecológica, a União Européia, as guerras do petróleo, a televisão a cabo, as redes sociais, etc etc etc.

Quem quiser ver mais de Buckminster Fuller, pode visitar o recomendadíssimo post “A idade da escuridão segundo Buckminster Fuller: prisão sem barras de ferro, correntes ou cadeados“, de julho de 2011.

Seguem os dois trechos:

 

TRECHO 1 (pags 25-27)

“A evolução consiste num grande número de acontecimentos evolucionários que têm lugar de modo completamente independente da vontade consciente do homem em lhes provocar. O homem é muito vaidoso; gosta de sentir-se responsável por todas as coisas favoráveis que acontecem e inocente de todos os acontecimentos desfavoráveis. Mas os maiores esquemas evolucionários, sejam eles aparentemente favoráveis ou não para os reflexos condicionados humanos, escapam transcendentalmente a qualquer planejamento ou concepção consciente do homem. Para revelar aos leitores a sua própria vaidade de reflexão, lembro-lhes rapidamente que nenhum de vós se encontra conscientemente a enviar o peixe ou as batatas que comeu ao almoço a esta ou aquela glândula para fazer cabelo, pele ou outra coisa do gênero. Nenhum dos leitores tem consciência do modo como o seu peso aumentou primeiro de 4 para 40 quilos, e então para 80 quilos, e assim por diante. Tudo isso está, e sempre esteve, automatizado. Muitas coisas encontram-se automatizadas em relação à nossa salvação total na Terra, e gostaria que tivessem isso bem presente de modo a poder ser útil no pouco tempo que nos resta.

 

Exerçamos agora as nossas faculdades intelectuais da melhor maneira possível, de modo a apreendermos os esquemas evolucionários que transcendem o nosso conhecer e reconhecer espontâneos. Podemos em primeiro lugar notar um sentido evolucionário opondo-se a todos os sistemas educacionais e à deliberadamente crescente especialização profissional dos cientistas. Esta oposição começou a manifestar-se no início da II Guerra Mundial, quando foram desenvolvidos instrumentos científicos extraordinariamente novos, e os biólogos, químicos e físicos se reuniram em Washington D.C., em missões especiais de guerra. Esses cientistas constataram que, enquanto os biólogos julgavam lidar apenas com células, os químicos com moléculas e os físicos com átomos, na realidade a sua nova e poderosa instrumentação e operações contíguas sobrepunham-se. Cada um dos cientistas compreendeu subitamente que lidava ao mesmo tempo com células, moléculas e átomos. Descobriram não existir nenhuma verdadeira fronteira separando os seus campos profissionais. Não tinham tido essa intenção, mas os seus campos profissionais tinham sido integrados – pela sua parte inadvertidamente, mas aparentemente com um objetivo bem preciso – pela inexorável evolução. De modo que, por alturas da II Guerra Mundial, os cientistas tiveram de inventar uma série de novas qualificações profissionais: bioquímico, biofísico, etc. Foram forçados a isso. Apesar das suas deliberadas tentativas para se especializarem cada vez mais, estavam a ser fundidos em campos de consideração cada vez mais vastos. E assim o homem, que deliberadamente se especializava, foi obrigado, contra a sua própria vontade, a reutilizar as suas capacidades inatamente globalizantes.

Se, no que respeita à evolução geral, nos queremos desembaraçar da nossa miopia, vaidade, preconceitos e ignorância em geral, considero muito importante pensarmos do seguinte modo. Ouvi muitas vezes pessoas dizerem: “Gostaria de saber como será estar a bordo duma nave espacial”, e a resposta é muito simples. Como será  a bordo duma nave espacial? Mas isso é o que desde sempre experimentamos. Nós somos todos astronautas. Sei que me estão a prestar atenção, mas sinto que não concordam imediatamente comigo e dizem: “Sim, é claro, sou um astronauta”. Estou certo de que os leitores não se sentem realmente a bordo duma nave espacial fantasticamente real – a nossa Nave Espacial Terra esférica. Da nossa pequena esfera viram apenas pequenas porções. Viram muito mais, contudo, do que o homem anterior ao século vinte, pois esse.,durante a totalidade da sua vida, não viu mais do que um milionésimo da superfície da Terra. Mas mesmo isso, na sua totalidade, não chega para ver e sentir a Terra como uma esfera – a não ser que, sem o meu conhecimento, um dos leitores seja algum astronauta de Cabo Kennedy.”

 

TRECHO 2 (pags 61-63)

“Suponhamos que, num acesso da mais suprema sabedoria, os cidadãos americanos unidos de 1810 tinham reunido os seus mais respeitados e imaginativos líderes e lhes tinham pedido que empreendessem um plano técnico e econômico de 150 anos para desenvolver rapidamente o sistema de apoio àvida da América e do mundo — plano esse que deveria estar to-talmente realizado em 1960. Devemos recordar aqui que, nessaaltura, o telégrafo não fora ainda inventado. Não existiam ciências electromagnéticas ou produção industrial de aço. Os caminhos de ferro não eram ainda sequer sonhados, para não falar da T.S.F., dos raios-X, da luz eléctrica, da energia por cabos e dos motores elétricos. Não havia noção da tabela periódica dos elementos nem da existência do electron. Tivesse algum dos nossos antepassados investido a nossa riqueza de 1810 em refletir impulsos de radar na Lua e iria parar a um asilo de lunáticos. Em 1810, nestas circunstâncias assumindo uma riqueza capital dos estados unidos americanos, tanto pública como privada, totalizando apenas três mil milhões de dólares, é absurdo pensar que os nossos mais brilhantes e poderosos líderes pudessem ter decidido investir “todos” os seus três mil milhões de dólares numa “mil vezes mais cara” aventura de dez bilhões de dólares, como contudo veio a acontecer, mas só sob a ameaça, imposta pela guerra, da desintegração dos tímidos direitos até então conquistados pelo homem comum aos poderes tirânicos e historicamente longos duma minoria tecno-analfabeta e muitas vezes cruel. Em 1810, era também impensável, mesmo para os mais brilhantes líderes da humanidade, que 160 anos depois, em 1970, o produto nacional bruto dos Estados Unidos alcançasse um bilhão de dólares por ano. (Este número deve ser comparado com os magros 40 mil milhões das reservas totais mundiais de ouro monetário.) Assumindo um lucro médio de 10 por cento, este produto de 1 bilhão de dólares em 1970 significaria que, onde os líderes nacionais de 1810 apenas creditaram três mil milhões de dólares de bens nacionais, se encontrava operativa uma base de capital de dez bilhões de dólares. Os mais sábios humanos de 1810 reconheceram assim apenas um tricentésimo de um por cento do imediatamente a seguir “valor demonstrado” da fatia dos Estados Unidos nos potenciais mundiais geradores de riqueza. É claro que os homens mais sábios dessa época não saberiam muito bem por onde começar a investir a sua riqueza.

Os nossos mais seguros, visionários e bem informados bisavós de 1810 não tinham hipótese de prever que, num escasso século e meio das milhões de vezes maiores expansões do tempo universal conhecido, a vida humana triplicaria, os rendimentos individuais decuplicariam, a maioria das doenças seriam vencidas e a liberdade humana de viajar aumentaria cem vezes; nem que os humanos conseguiriam sussurrar aos ouvidos uns dos outros, a partir de quaisquer locais afastados do mundo, a uma velocidade superior a mil milhões de quilômetros por hora, com a sua audição alcançando claramente o planeta Vênus; nem que a visão humana em redor do convés esférico da Terra aumentaria ao ponto de permitir ver pedras e grãos de poeira na Lua.

Agora, em 1969, 99,9 por cento das crescentes acelerações das modificações do meio ambiente físico efetivando a evolução de toda a humanidade estão a acontecer nos domínios do espectro electromagnético, que são diretamente indetectáveis pelos sentidos humanos. Já que essa gestação é invisível, torna-se aproximadamente impossível para a sociedade mundial compreender que as mudanças dos próximos trinta e cinco anos – introduzindo o século vinte e um – serão muito maiores do que no século e meio que passou desde o primeirocenso económico dos Estados Unidos. Estamos mergulhados numa gigantesca vaga invisível que, quando recuar, deixará a humanidade, se esta sobreviver, numa ilha de sucesso universal, sem compreender como tudo aconteceu.”

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

6 Comentários

  • Sem dúvida o mais lucido pensamento dentre os muitos “pensantes”.

    E se não for assim como será?
    Magia? Bem, aí depende.

    Se tiver capacidade de gerir os peixes e as batatas e fizer cabelo,ótimo!

  • Amei o estilo jocoso do Fuller (não o conhecia).
    A vaidade, o ‘controle’ do homem cai por terra ao esbarrar no “Sistema de Integração” do corpo que além de cuidar do peixe e das batatas, filtra o meu sangue, combate os invasores, lava os olhos com lágrimas em caso de corpos estranhos, gesta uma ‘réplica’ com igual funções, avisa ao meu pé para mudar de posição, me dá muitos prazeres sensoriais/visuais/mentais e me dispensa de acordar de 1/2 em 1/2 hora para verificar se estou respirando… tudo junto e concomitantemente, só para citar alguns.

    Somos um espetáculo e muitos já tem consciência do ‘sucesso universal’ e já compreende, pelo menos, parte de como tudo acontece, dentro e fora.

    E como diria o Mochileiro das Galáxias: Grato pelos peixes!
    Boa Sorte, Norma

  • “Agora, em 1969, 99,9 por cento das crescentes acelerações das modificações do meio ambiente físico efetivando a evolução de toda a humanidade estão a acontecer nos domínios do espectro electromagnético, que são diretamente indetectáveis pelos sentidos humanos.”

    a mente consciente não treinada pode não perceber, mas sente o efeito dessa dissonancia eletromagnética que afeta nossa ressonancia natural com do planeta.

    RESONANCE – BEINGS OF FREQUENCY
    http://vimeo.com/54189727

    a visão da evolução vinda do Aurobindo me parece mais lúcida. E se seguirmos com essas acelerações que o Buck achava o máximo (ele foi influenciado pelo Oliver Reiser http://www.earthportals.com/Portal_Messenger/reiser.html que tb influenciou os experimentos da CIA com radiação em humanos, etc, aceleração da evolução via radiação, etc) a solução será oq o Aurobindo dizia mesmo, teremos que nos tornar radioativos para sobreviver à tecnologia em nosso redor.

    mas posso estar vendo o mundo do canto errado. :)

    • “Nos tornar radioativos” é ótimo, nunca tinha pensado nisso. Ia ser genial. O superhomem radioativo. :)

      Gostei muito da visão do Bucky de aceitarmos que somos peças de uma engenharia muitas vezes mais ampla e mais poderosa, que controla e equilibra tudo conosco e através de nós. Esse exemplo de 1810 é muito definitivo.

      E você viu “A Viagem”? Está ali também. A escolha está sincronizada a um movimento muito maior. E quando for ver, já está feita. É o que deve ser feito.

      PS: Onde é o canto do mundo? :)

      Namastê!

    • “teremos que nos tornar radioativos para sobreviver à tecnologia em nosso redor.”
      É verdade, Sr. Anônimo, e em sua maioria nem terá ciência do fato. Vamos ao exemplo (que é sempre melhor do que citações, para mim):

      Há uns quase cinco anos, uma auxiliar deixou de trabalhar, porque fez um ‘contrato’ com uma operadora de telefonia celular (cerca de 4 mil p/mês – Wow!) para permitir que um antena fosse instalada no terreno de sua casa (Baixada do RJ). Foi viver de rendas…

      Almoço grátis? A onde?

      Boa Sorte, Norma

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