Deus, “segundo Ele mesmo”: “Se não podes me ler num amanhecer… Não me encontrarás em nenhum livro”

Quem já se perguntou alguma vez seriamente sobre a existência de Deus ou de um Absoluto, tão importante quando a definição do que esse Ser seria, como uma realidade transcendente ou imanente, é a atenção ao que ele não seria (ou não é) – ou que a humanidade imaginava que ele fosse. O texto abaixo, intitulado apenas “Deus“, é uma teatralização da definição de Deus segundo ele mesmo, imperativo, exclamativo, falando diretamente ao homem e indignado com diversos enganos humanos. A autoria do texto é atribuída ao filósofo racionalista holandês Baruch Spinoza (1932-1677), e embora guarde semelhanças com o Deus-natureza não-bíblico do filósofo, segundo fontes dificilmente esse texto é dele. Mesmo com a ausência de autor identificado, a texto é interessante e sua intenção parece ser nobre: a de querer expirar uma definição já realmente caduca de Deus, um Deus dogmatizado, julgador, controlador, paternalista e ameaçador de infernos, um Ser que existiu apenas como conceito de papel de paradigmas humanos ultrapassados.

Segue o texto abaixo:

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“DEUS”
(autor desconhecido)

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.”

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Foto de brokinhrt2 (licença de uso BY Creative Commons)

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

7 Comentários

  • Oi, Nando:
    Eu (como provavelmente alguns) atribuia o belíssimo texto acima a B.Spinoza (ou Espinoza)- o filósofo do Einstein. E, acredito que ele não se afastava muito da linha acima, para justificar tal excomunhão, o que me leva a não ter dúvidas sobre a qual Deus servir. Grata.

    Quote
    (é o da excomunhão de Espinosa)

    (…) quando os rabinos da comunidade judia de Amsterdã se reuniram em assembléia, em 27 de julho de 1656. Dizem que enquanto o texto era lido, uma a uma, as luzes do local eram apagadas para simbolizar “Deus” se afastando de Espinosa…

    “Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch de Espinosa, estando de acordo toda a sagrada comunidade, reunida diante dos livros sagrados.

    Que ele seja execrado durante o dia e execrado à noite; seja execrado ao deitar-se e execrado ao levantar-se; execrado ao sair e execrado ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou aceite; que a ira e o desfavor do Senhor, de agora em diante, recaiam sobre esse homem, carreguem-no com todas as maldições escritas no Livro do Senhor e apaguem seu nome de sob o firmamento.

    Por meio deste documento ficai, portanto, avisados de que ninguém poderá manter conversação com ele pela palavra oral, ter comunicação com ele por escrito; de que ninguém poderá prestar-lhe nenhum serviço, habitar sob o mesmo teto que ele, aproximar-se dele a uma distância de menos de quatro cúbitos e de que ninguém possa ler qualquer papel ditado por ele ou escrito por sua mão.”

    Humilhado, Espinosa foi abandonado pela própria família e passou a ter uma vida humilde. Para sobreviver, aprendeu a fabricar e polir lentes, inclusive para seu amigo, o grande cientista holandês Christiaan Huygens. Sejam por suas idéias ou pelas lentes de seu ofício, Espinosa trabalhou para que os homens tivessem uma visão mais clara e menos distorcida do mundo.

    “Espinosa é hoje reconhecido como um dos maiores filósofos racionalistas que já existiu. Ainda bem que esse Senhor do texto de excomunhão, que execra e amaldiçoa, não é o Deus de Espinosa, porque se o Deus de Espinosa resolvesse execrar a estupidez humana, estaríamos realmente perdidos…”
    Marilena Chaui (?)

    Boa Sorte, Norma

    • Oi Norma, em nenhum lugar existe uma confirmação que esse texto é dele, pelo contrário, existem desmentidos. Se algum especialista da obra dele aparecer por aqui em algum momento, talvez possamos ter alguma informação mais precisa.

      Saudações,

  • Oi Nando,
    Não entendi o teu comentário, mesmo!
    Em momento algum foi importante a autoria e sim, o sentimento que inspirou o texto. O link feito por mim foi o fato do Espinoza ter sofrido tão dura punição (que em parte “justificaria”) pelo seu pensamento e visão de um Deus (panteísta ?)
    Obrigada por tudo e Boa Sorte!

    Norma

  • Texto interessante que se identifica muito com o que pregava Spinoza,que era Panteísta,sim.O Deus spinoziano é a substância única e a causa única. A substância divina é eterna e infinita: quer dizer, está fora do tempo e se desdobra em número infinito de perfeições ou atributos infinitos. Desses atributos, entretanto, o intelecto humano conhece dois apenas:
    o espírito(cogitatio) e a matéria (extensio).
    Parece-me que se não é de Spinoa é de algum de seus seguidores,que acabaram sendo muitos. Algumas frases do texto são bem características da teologia Spinoziana.

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