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Bem-vindo ao iCode (Iniciativas de Comunicação para o Desenvolvimento). Este é um rendez-vous web-mob-log dos jornalistas e cientistas digitais Carlos Castilho e Nando Pereira. Virtual, real, participativo, open source, democrático, e, claro, digital.

Março 09, 2005

Cultura Digital, afinal o que é isto?

Acho que é necessário primeiro uma leve investigação etimológica. "Digital" é uma palavra com um significado mais ampliado e popularizado que o verbete do Aurélio, que diz que digital é aquilo "que é representado exclusivamente por números (segundo um código convencionado) e, portanto, passível de processamento por computadores digitais". Em contrapartida ao termo "analógico", o dicionário diz também que é aquilo "que tem intervalos discretos, i. e., em que há um número finito de valores possíveis entre dois valores quaisquer". Quase não dá pra explicar "cultura digital" usando essas definições. Mas observando atentamente ao que nos referimos como o "ecossistema digital" - computador, internet, celular, videogame, etc - há um fator comum que se destaca. Esse fator é a tela. Todos eles tem tela. O mundo digital é um mundo de telas, um mundo de... comunicação VIRTUAL. Seja no celular, na Internet, no videogame, o que existe é comunicação virtual - igual a comunicação real feita através de uma tela. "Virtual" tem vários significados (do latim virtualis), desde Aristóteles até Pierre Levy, mas o que define virtual em concordância com "digital" são esses três conceitos abaixo (segundo este artigo de Renato Rocha Souza, MD.):

Virtual.
1) Que eqüivale a outro, podendo fazer as vezes deste, em virtude ou atividade;
2) Algo que embora não exista estritamente, existe em efeito;
3) Algo que é tão próximo da verdade que para a maioria dos propósitos, pode ser considerado como tal.

As três mais ou menos apontam para o fato de que *a tela equivale ao sujeito*. Ou o aparelho equivale ao sujeito. É o que acontece. Através de telas - do computador (Internet), do celular, do videogame, PDAs, iPods - nos comunicamos uns com os outros e com nós mesmos. Então Cultura Digital seria, mais apropriadamente, Cultura Virtual? Possivelmente.

Mas isso não responde à pergunta original: o que é Cultura Virtual (afinal)? Por este raciocínio, seria a cultura do virtual. A cultura no sentido tanto de "cultivo" de tal realidade quanto do sentido mais amplo, que envolve o social e o conhecimento humano (o Aurélio tem boas definições para esta palavra cheia de significados e amplitudes, que inclui [a] "o conjunto de características humanas que não são inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade" e [b] "o conjunto complexo dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva").

A pessoa que cultiva o virtual, que tem a cultura do virtual, a cultura virtual (!), é aquela que é habituada com a comunicação e o conhecimento virtual, é aquela que se adaptou a este novo "código", è aquela que adotou essas características para si. Ué, mas uma criança que brinca de PS2 pode ser considerada uma pessoa com cultura virtual (digital)? Não sei. Afinal, ela sabe mexer ali. É verdade. Veremos mais pra frente. Uma pessoa que lide razoavelmente bem com o computador e a Internet idem. Os milhões que falam diariamente de celular no Japão igualmente. E daí em diante. Quando mais telas e comunicação virtual essa pessoa fizer ou cultivar, mais... cultura virtual ela terá?

Mas... e o open source, a independência, a liberdade, a pluralidade e a conectividade, que são consideradas as características definidoras da cultura digital? É uma ótima pergunta. Se o hábito realmente não faz o monge, destreza técnica não poderia ser suficiente, muito menos fator exclusivo, para se definir alguém com Cultura Digital. Dois casos são possíveis: (1) haver o sujeito que é um aficcionado por computadores, Internet e celular, mas que é um reacionário, autoritário, dominador; e (2) haver o sujeito que tem pavor às telas mas que é libertário, plural, social, open source. Qual dos dois teria mais Cultura Digital?

Por achômetro, é possível concluir que quanto mais um sujeito se comunica por celular e acessa a Internet, por exemplo, mais reconhecedor do poder da informação livre, da pluralidade e da conectividade ele se torna. Mais defensor dela ele se torna (o meio é a mensagem, vide McLuhan). Mas isso não é regra. Ou é? Algumas pesquisas confirmam essas características entre as pessoas com mais acesso à Internet, mais adaptadas à telefonia celular, à cultura do videogame e a todos as outras tecnologias virtuais. Seria conveniente, então, cruzar essas pesquisas de valores e comportamentos com a frequência de uso do virtual. Do técnico com o cultural. Aí poderemos chegar mais perto de saber o que é a Cultura Digital.

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