Felicidade, “uma experiência infinitamente pacifica”, no relato de Yongey Mingyur Rinpoche

O relato abaixo é do mestre budista Yongey Mingyur Rinpoche, um dos principais nomes atuais do Budismo Tibetano, e autor do livro “A Alegria de Viver” (2007), de onde vem o trecho. Quando ele menciona logo no início “pouco a pouco”, ele está falando da sua percepção e também da sua própria prática, ou práticas, e de como elas foram afetando o modo como ele via a realidade. Ao mesmo tempo em que conta sua experiência e percepções, fica implícito o método budista de descobrir a verdade das coisas através da própria experiência, da própria prática. Embora ele pudesse estar seguindo instruções de mestres e livros da sua linhagem, ele não menciona em nenhum momento deste trecho que “foi assim que Buda disse” ou “Buda explica que” isso ou aquilo, e sim narra seu próprio caminho de descoberta.

Uma das coisas que se destacam é o conceito de felicidade que ele menciona. Quando nos perguntamos o que é felicidade exatamente, ao menos no modo Ocidental de ver o mundo, há uma relação com a alegria, o prazer e a satisfação de modo mais permanente, mas aqui Yongey Mingyur associa diretamente a uma percepção completamente diferente dos próprios pensamentos e emoções. E também a conecta a uma “experiência infinitamente pacífica“.

Eis o trecho:

“Pouco a pouco, eu começava a reconhecer a fragilidade e o caráter efêmero dos pensamentos e das emoções que me haviam perturbado durante anos, e compreendia como, fixando-me nos pequenos aborrecimentos, eu os havia transformado em enormes problemas. Pelo simples fato de ficar sentado observando a que velocidade e, sob muitos aspectos, com que ilogismo meus pensamentos e minhas emoções iam e vinham, comecei a ver diretamente que eles não eram tão sólidos e reais quanto pareciam. Depois, logo que comecei a abandonar minha crença na história que eles pareciam me contar, percebi, pouco a pouco, o ‘autor’ que se escondia por trás deles: a consciência infinitamente vasta, infinitamente aberta, que é a própria natureza da mente.

Toda tentativa de descrever com palavras a experiência direta da natureza da mente é destinada ao fracasso. Tudo o que se pode dizer e que se trata de uma experiência infinitamente pacífica e, uma vez estabilizada por uma prática constante, é quase inabalável. É uma experiência de bem-estar absoluto que impregna todos os estados físicos e mentais, até mesmo aqueles que são normalmente considerados desagradáveis. Esse sentimento de bem-estar, independe das flutuações das sensações vindas do interior ou do exterior, é uma das maneiras mais claras de compreender o que o budismo entende por ‘felicidade’ ”.

(YONGEY MINGYUR RINPOCHE)

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Escrito por

Psicoterapeuta, jornalista, autor de "Para Abraçar a Prática".

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