“Você consegue olhar sem o movimento da mente?”: o desafio de J. Krishnamurti

O trecho abaixo, de autoria do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986), foi compartilhado pelo Dharmalog nas redes sociais como apenas uma frase — “Você consegue olhar sem o movimento da mente?“. Uma pergunta, na verdade. Alguns leitores compreenderam que se tratava de um desafio impossível, pois a mente está envolvida em tudo, enquanto outros entenderam como uma possibilidade real, já que a mente pode ser tomada nesta frase como aquilo que define, conceitua e julga tudo. Para ampliarmos a reflexão e as possibilidades de entendermos o que realmente Krishnamurti queria dizer, segue abaixo o trecho maior, reproduzido do livro “The Book of Life”, traduzido pelo site krishnamurti.org.

“Você nunca fica com nenhum sentimento, puro e simples, mas sempre o rodeia com a parafernália das palavras. A palavra o distorce. O pensamento, rodopiando em torno dele, joga-o na sombra, domina-o com imensos medos e anseios. Você nunca fica com um sentimento e nada mais, com ódio, ou com esse estranho sentimento da beleza. Quando o sentimento de ódio surge, você diz como ele é ruim, há a compulsão, o esforço para superá-lo, a confusão do pensamento a respeito dele. Tente ficar com o sentimento de ódio, com o sentimento de inveja, ciúme, com o veneno da ambição; pois afinal, é isso que você tem na vida cotidiana, embora você possa querer viver com amor, ou com a palavra amor. Desde que você tem o sentimento de ódio, de querer ferir alguém com uma atitude ou com uma palavra veemente, veja se você pode ficar com esse sentimento, Pode? Já tentou? Tente ficar com um sentimento e veja o que acontece. Você achará tremendamente difícil. Sua mente não deixará o sentimento sozinho, ela chega correndo com suas lembranças, suas associações, seu fazer e não fazer, seu eterno tagarelar. Pegue um pedaço de concha. Você pode olhar para ele, se maravilhar com sua delicada beleza, sem dizer como ele é belo, ou qual animal o fez? Você pode olhar sem o movimento da mente? Pode você viver com o sentimento por trás da palavra, sem o sentimento que a palavra construiu? Se puder, você descobrirá uma coisa extraordinária, um movimento fora da medida do tempo, uma primavera que não conhece verão.”
JIDDU KRISHNAMURTI, em “O Livro da Vida”

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2 Comentários

    • Oi Cláudio,

      Cada caso é único e muito difícil de falar em termos gerais.

      A meditação não foi feita para curar pensamentos obsessivos, ainda mais em casos agudos. Pode ser muito difícil sentar em meditação nessa condição. Mas, por outro lado, se formos olhar a realidade humana com a visão de lama Alan Wallace, por exemplo, todo nosso movimento de pensamentos “normais” já é obsessivo e compulsivo, o que significa que a meditação é sim um tipo de prática que ajuda nessa circunstância. Na verdade, a meditação é feita para lidarmos com a nossa mente da melhor e mais saudável maneira possível, então em tese ela tem essa capacidade e finalidade. Com a instrução e assistência correta, e também uma prática espiritual mais completa, é possível sim lidar com essa condição e caminhar em direção à cura.

      O problema é que na prática isso nem sempre se mostra viável ou possível, como se a perturbação e a identificação com os pensamentos não possibilitassem à pessoa conseguir meditar. Tive contato com vários casos de pensamento obsessivo e muitos deles são mais apropriados à terapia, com o cuidado mais próximo e constante da terapia, pois geralmente há questões sérias inconscientes criando ou participando desse processo, geralmente histórias e questões fortes específicas da pessoa — que a meditação sozinha, ainda mais sem assistência, tornam difíceis de serem tratadas. Mas não tem a ver com o problema em si, e sim com sua intensidade e causa.

      Em outros casos ainda a meditação também pode ser usada como uma ajuda, paralela, não como “a” solução.

      Mas, como falei e repito, cada caso é um caso e precisa ser visto como tal.

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