“Não confunda imaginações com conhecimento da verdade”: Paul Brunton e as visões “divinas”

Num mundo tão repleto de confusão e ignorância, uma virtude fundamental e utilíssima é o discernimento. O filósofo inglês Paul Brunton (1898-1981), autor de “A Índia Secreta” e “A Sabedoria do Eu Superior”, escreveu algumas anotações sobre a necessidade de discernir o que é imaginação do ego e o que é manifestação real, no que se refere à parte mais “mística”, digamos assim, do caminho do auto-conhecimento. Brunton diz que “com frequência, impulsos vindos do ego são, erroneamente, considerados como sendo intuições espontâneas que vêm da individualidade superior”. Não precisamos fazer muita pesquisa para admitirmos que há de fato um oceano de charlatanismo e auto-engano em praticamente todas as geografias religiosas e espirituais. O mundo da ignorância é, afinal, o mundo do ego.

Como discernir?

Brunton dá várias sugestões, todas ricas e importantes, ao mesmo tempo em que admite a dificuldade da tarefa do discernimento para o iniciante no caminho.

Dentre as sugestões, reforço aqui a cautela crítica, a profundidade e a serenidade com tudo que se diga ser pretensamente de Deus ou de profetas ou de qualquer fonte superior ou divina. “Declarações pomposas”, diz Brunton, são exemplos de que há uma grande chance de ser uma manifestação de algum ego inflado. Uma exímia auto-sinceridade e auto-honestidade deve ser desenvolvida, assim como uma devoção pela verdade.

Ainda assim, também não deve haver um fechamento ou ceticismo exacerbado, e sim uma abertura, tranquila e atenta. As coisas da verdade superior tem paciência e geralmente não se exibem.

Eis o texto:

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OS CUIDADOS COM MENSAGENS, VISÕES E VOZES VINDAS DE DENTRO
Por PAUL BRUNTON, em “Notebook 11” (Cap. 14)

Na história do misticismo, com frequência, impulsos vindos do ego são, erroneamente, considerados como sendo intuições espontâneas que vêm da individualidade superior.

Quando lidando com a origem das experiências internas, das visões, e assim por diante, não atribua a elas somente expectativas, mas as relacione também à imaginação.

Assim, não confunda imaginações ou especulações com o conhecimento da verdade; com frequência, existem nelas apegos e desejos pessoais, expectativas e inclinações.

Por que atribuir a uma fonte superior o que meramente tem uma origem natural? Por que interpretar tudo o que venha à mente como sendo uma revelação divina?

As mensagens certamente não são produzidas pela mente consciente, entretanto, elas podem ser produzidas pela mente subconsciente. Evocar alguma força externa e não terrena – pelo propósito de algum esclarecimento – evocar algum espírito oculto, só pode ser justificado após o poder e operação do subconsciente houver sido primeiro evocado e lidado de forma adequada.

A Baronesa Von Krudener era uma mística que, por um período, influenciou grandemente o Czar Alexandre I. Ela lhe passou a ideia de uma Aliança Sagrada entre a Rússia, a Prússia e a Áustria. Ela assumiu missões fantásticas. Entretanto, pouco antes de sua morte, ela confessou: “Frequentemente, considerei como sendo a voz de Deus o que não passava de algo fruto do meu próprio orgulho e imaginação.”

Muitos clérigos, leigos e líderes falavam com se fossem Deus, como se conhecessem a mente de Deus e fizessem a vontade de Deus. Na maioria dos casos, podemos dizer com segurança que eles ou compreendiam muito imperfeitamente a natureza divina ou interpretavam falivelmente a comunicação divina.

A mensagem ou revelação, a imagem clarividente ou a voz clariaudiente, se apresentam como se, neste exato momento, houvessem se originado vindas de fora da personalidade quando, em verdade, sempre estiveram presentes no subconsciente.

Será mais seguro em tais aproximações adotar uma atitude cautelosa e conservadora. A mente então permanecerá estável e melhor equipada para perceber a verdade.

Que não confundamos a insensatez humana com a sabedoria de Deus, nem impulsos humanos com a vontade de Deus! Que não aceitemos a perversão da verdade como sendo a pureza da verdade.

Caso alguém receba insinuantes mensagens de uma fonte misteriosa, que alegue ser um mestre ou um deus, um bom espírito ou a sua própria alma, que ele esteja certo de que estará sendo desvirtuado pelo seu próprio ego e que tal fonte não é o que alega ser.

Que não nos admiremos com o fato de que tais experiências venham a inflacionar o seu ego, que tomem a sua cabeça e que venha ele a considerar tais revelações como sendo exclusivamente suas e que, por fim, se anuncie ele como sendo um novo messias, que vem entre os homens como o seu único salvador!

As declarações pomposas de conhecimento místico, com frequência, não passam de afirmações vazias ou de opiniões pessoais.

Todas as comunicações de caráter psíquico, intuitivo, clarividente ou clariaudiente, devem ser testadas e avaliadas crítica e cautelosamente, através dos resultados dessas experiências. De outra maneira, o que for falso, fraudulento, não factual e enganador será aceito como verdadeiro e real. Essa regra, é claro, será principalmente para os principiantes.

O aspirante deverá ter um cuidado escrupuloso em discriminar entre as emoções vindas do ego e os sentimentos que sejam impessoais e intuitivos. Já que isso não é uma tarefa muito fácil, ele terá de trilhar com cautela nesta área. Onde ele sinta que não pode confiar em si mesmo, deve ele se recusar a se deixar ser levado por essas sugestões, não importa o quão veemente sejam. Mas onde a profundidade, a serenidade e a certeza na sua experiência interna se combinem para lhe dar a convicção de isso ser uma orientação superior, ele poderá levar a cabo essa sua experiência entregando-se a ela. Desta maneira, e com tal cuidado, ele não se jogará tão rápida e facilmente nessas mensagens internas. Além do mais, ele não virá a rejeitá-las com exagero, como fazem os céticos, e assim não perderá os benefícios advindos de um sussurro que venha do Alto.

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Imagem: reprodução parcial da obra “Stranger Factory Presents: The Pit of Unease, Anomie, Mystic Visions & Kaiju Vs. Yok“, de Jon MacNair.

Escrito por

Psicoterapeuta, jornalista, autor de "Para Abraçar a Prática".

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