Carta de Lama Zopa Rinpoche a um ansioso hospitalizado: “leia isso de novo e de novo”

O texto a seguir é uma carta que Lama Zopa Rinpoche, mestre budista, enviou a uma pessoa que havia sido hospitalizada devido a uma crise de ansiedade. Ela foi originalmente publicada no site Lama Yeshe Wisdom Archive, em lamayeshe.com, intitulada “Meditações para a Ansiedade” (Meditations for Anxiety) e segue reproduzida e traduzida abaixo com a autorização do site, a quem agradeço imensamente pela gentileza e confiança, e também ao próprio Lama Zopa Rinpoche.

A carta tem duas partes. A primeira é mais facilmente compreensível, pois trata da aceitação da natureza da vida e dos problemas. Mas a segunda nem tanto. Essa segunda parte começa em “Então, na próxima meditação…“. O próprio Lama Zopa adverte para a possível ausência de sentido no início, mas enfatiza que é importante ler a carta de novo e de novo. Atentamente.

No início, quando li pela primeira vez, pensei que havia lido algo errado, mas logo fui percebendo que era isso mesmo, que Lama Zopa havia escrito para que nós nos déssemos conta que há um engano crucial em vigor, um engano a respeito de quem somos. Procurei me certificar que a tradução desses trechos estava bem feita e revisada, pois um problema aqui dificultaria ainda mais o entendimento. Há apenas uma parte específica em que acrescentei um artifício, um estilo itálico na expressão “meramente rotulado Eu”. Para facilitar. Espero que a tradução esteja plenamente compreensível, mas quem quiser ler a carta original em inglês, ela está neste link.

Trago aqui para que todos possamos ler, de novo e de novo. Podemos não estar com crise de ansiedade, mas nosso estado de ignorância é praticamente o mesmo. Por isso essa carta pode ser tão útil para nós quanto deve ter sido, ou de fato foi, para a pessoa a quem ela foi originalmente enviada.

Eis o texto:

//////////

MEDITAÇÕES PARA A ANSIEDADE
Por Lama Zopa Rinpoche, dezembro de 2017 (fonte: lamayeshe.com)

Uma aluna com câncer escreveu que seu marido havia sido hospitalizado devido a uma severa ansiedade. Ele não era budista. Rinpoche enviou este conselho.

“Por favor dê isto para seu marido ler e mesmo que não faca sentido agora, ele deveria ler repetidamente:

Primeiro, aceite que essa é a natureza da vida. Desde o nascimento não temos liberdade total; estamos totalmente sob o controle da ilusão e do carma e essa é a base do sofrimento. Por isso, faça nascer na sua mente (o desejo) de ser totalmente livre da causa do sofrimento — ilusão e carma. Isso significa sua própria mente, não a mente de outra pessoa. É a sua mente que é a causa do seu sofrimento, que cria ilusão e carma. Para que sua própria mente seja livre — para você se libertar da ilusão e do carma — é através de realizar esse caminho na sua própria mente.

Então, ao realizar a sabedoria final, ao perceber diretamente a realidade última do Eu, você será capaz de se libertar da morte, do renascimento, da doença e assim por diante.  Você também ficará livre do segundo tipo de sofrimento, o sofrimento da mudança, que são todos aqueles sofrimentos temporários que são denominados prazeres.

Todos esses sofrimentos nascem do sofrimento geral composto. O terceiro sofrimento é amplo, o que significa que seus agregados estão sob o controle da ilusão e do carma, portanto eles são permeados por sofrimento. (Os agregados) são contaminados pela semente da ilusão e do carma, e a partir dessa semente, a ilusão nasce de novo, e o sofrimento nasce de novo. É assim que ele é composto. Portanto, precisamos nos libertar desse sofrimento penetrante composto e então estaremos totalmente livres do sofrimento da morte, do renascimento, da velhice e da doença — do sofrimento da dor e do sofrimento da mudança.

Com a felicidade do Dharma nós podemos continuar e nos desenvolver, e é então que ficamos totalmente livres; porque desenvolvemos isso é que estaremos totalmente livres do sofrimento penetrante composto, para sempre! Quando atingirmos o nirvana, o agraciado estado de paz para nós mesmos.  Então podemos libertar outros, os inumeráveis seres vivos, do sofrimento e da causa do sofrimento — ilusão e carma — e trazê-los para a felicidade inigualável, a cessação total dos obscurecimentos e o complemento das realizações, a iluminação completa.

Essa é a razão pela qual primeiro precisamos aceitar quaisquer problemas que temos, porque essa é a natureza da vida, da mente subdesenvolvida. É a natureza da vida, são os erros da nossa vida que temos que aceitar. Então nossos problemas podem ser tornar menores ou não haver problemas.

Isso é muito importante, e a compreensão disso faz uma enorme diferença na sua vida, tenhamos felicidade ou problemas.

Observe cuidadosamente a mente com atenção e consciência plena, com a lembrança que a mente está meditando na mente. Tenha consciência ou atenção plena disso, para que a mente não esteja perambulando fora.

Então, na próxima meditação, logo depois ou numa outra hora, você pode primeiro olhar para o Eu. Há um Eu real que vem aparecendo desde os renascimentos imemoriais e na qual nós acreditamos cem por cento. E então há um meramente rotulado Eu, que se parece com isso, e que nós vemos o Eu como isso.

Qual é o correto e qual é o incorreto? A primeira crença, o Eu real desde tempos imemoriais, é a mente errada e alucinada. Acreditamos que é a correta, mas é a errada. O meramente rotulado Eu, acreditando que o Eu é meramente rotulado, este é o correto.

Para nós, nossa mente está tão habituada na alucinação e na mente alucinada desde renascimentos imemoriais, que assim para nossa mente parece que o primeiro (o Eu real) é correto e o segundo (o meramente rotulado Eu) é errado. Parece que o segundo não existe. Mas é completamente o oposto.

Para aqueles que tem a sabedoria correta, eles tem a percepção que o Eu real — esse que vem aparecendo desde renascimentos imemoriais — é totalmente falso, e que acreditar nele é um conceito errado. Eles percebem que o Eu existe no mero nome, meramente rotulado pela mente. Então na visão dessa mente, eles podem ver o que é certo e o que é errado.

Por favor, leia isso lentamente, de novo e de novo. Pode não fazer sentido no começo. Mais tarde, depois de algum tempo, se você desejar vou lhe enviar mais informações. Mas primeiro faça isso, tente isso e mais tarde talvez eu lhe envie mais informações.

Também estou recitando orações para você.

Com muito amor e orações…

Lama Zopa Rinpoche

//////////

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *