Como manter uma pessoa “chata” próxima do seu coração: a experiência pessoal do 17º Karmapa

Veja que história interessante e inspiradora essa do 17º Karmapa, Ogyen Trinley Dorje*, líder da escola Karma Kagyu do Budismo Tibetano, sobre como trabalhar a própria mente e contornar situações que aparentemente oferecem poucas escolhas (e geralmente não muito virtuosas) ao indivíduo comum. Esse texto é um relato pessoal que está contido no livro “The Heart Is Noble: Changing the World from the Inside Out” (2014).

“Gostaria de compartilhar algo da minha própria experiência pessoal. Não tenho certeza sobre como isso poderia funcionar em outras situações, mas me ajudou a superar esse tipo de conflito. Mencionei que desde que eu saí de casa e fui para o monastério, quando tinha sete anos de idade, tive diferentes zeladores e guardiões. Um desses, um monge mais velho, tinha a tendência de ser bastante chato, e constantemente me corrigia em coisas que eu considerava totalmente triviais. Isso acontecia muito, e nós vivíamos juntos num bairro próximo, por isso tive que inventar uma maneira de lidar com isso. O que aconteceu foi o seguinte: sempre que ele começava a me repreender, eu imaginava que ele estava falando com outra pessoa — não de mim, mas de uma terceira pessoa. Então, mentalmente, eu tomava o lado desse meu zelador, em um argumento contra essa terceira pessoa. Eu concordava com a crítica do meu zelador e internamente dizia a mim mesmo: “Ah sim, que cara terrível esse Karmapa. Olha o que ele fez. Dá pra acreditar? Como alguém pode usar roupas assim tão amassadas?”. Isso se tornou um jogo que eu poderia entrar a qualquer momento que meu zelador quisesse iniciá-lo. Era divertido, e cheguei ao ponto de me deleitar com ele. Mais importante que isso, me permitiu manter vivos e fortes meus sentimentos de afeição e cordialidade por esse monge, não importava o que estivesse acontecendo entre a gente. Consegui manter em mente que ele estava dando o melhor que podia para cuidar de mim, do seu próprio jeito.”
17º Gyalwang Karmapa Ogyen Trinley Dorje, no livro “Heart is Noble” (pg.134)

Talvez para algumas pessoas isso seja apenas um truque criativo, ou mesmo um mecanismo de defesa. Mas a atitude inspira à sabedoria e também à compaixão, a si mesmo e ao outro ser — uma maneira de desejar e agir para a felicidade (de ambos). Não é apenas um mecanismo de defesa pois ele foi executado reconhecendo diretamente o problema e a necessidade, e a atitude foi realizada com consciência por aquele que estava executando, para si e para o outro. Um mecanismo de defesa geralmente é inconsciente, e via de regra funciona unilateralmente.

“Mas ele estava fantasiando”, podemos pensar. É verdade. Mas o fazia sem ignorar a realidade: fazia para lidar com ela diretamente. E com habilidade e virtude, como é cultivado na cultura do Budismo Tibetano. Pelo que está narrado, a fantasia não foi realizada inconscientemente e nem a partir do primeiro momento, mas a partir de quando o convívio se tornou cronicamente difícil. Poderíamos comparar a uma manobra para tentarmos dormir enquanto rola um som alto no apartamento do lado, e depois de 3h ainda não conseguirmos pegar no sono. Temos que fazer algo.

Observando mais um ponto da história, podemos perceber que houve uma espécie de julgamento (“chato”) e uma discordância (“me corrigia em coisas que eu considerava totalmente triviais”), o que apenas mostra a natureza humana individual que está presente. Mas a atitude não foi tomada levando em conta somente esse julgamento, mas sim a outra pessoa. A compaixão e o egoísmo não ocupam o mesmo lugar.

Por fim, podemos também forçar um pouco a barra e questionar se o Karmapa não poderia ter escolhido falar com o monge-zelador e deixá-lo saber que estava sendo “chato”. Seria uma maneira do monge poder tomar consciência e talvez até mudar seu comportamento, se assim desejasse. É uma possibilidade. Mas há duas coisas que imagino estarem implícitas, embora o Karmapa não as cite: a primeira é o respeito ao monge, que é mais velho, mais sábio e é responsável por cuidar dele (um comportamento que já está perdido no Ocidente); e a segunda é que esse problema poderia ser um ensinamento para Karmapa conseguir lidar com sua própria mente, seu próprio julgamento e sua atitude. Jamais saberemos. E como o próprio Karmapa diz no início da história, também é difícil saber se esse tipo de atitude pode funcionar em outras circunstâncias. Seja qual for sua conclusão, fica o exemplo da história como inspiração para nossa própria vida.

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Foto: kagyuoffice.org

(*) Aparentemente há uma discordância sobre quem seria o 17º Karmapa, da qual este blog não tem a menor capacidade nem conhecimento para traçar comentários. Recomenda-se buscar especialistas (como publicações) e pessoas profundamente envolvidas com a escola Karma Kagyu para maiores esclarecimentos.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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