“Essa é a forma de se liberar”: como descansar do samsara, por Lama Yeshe

“O que tiver que acontecer, que aconteça!
Seja qual for a situação, está ótimo!
Eu realmente não preciso de coisa alguma!”
— Os três mantras de Tsangpa Gyare

Eis aqui um belo convite para despertarmos de nossas ilusões, de autoria de Lama Thubten Yeshe (1935-1984), um reconhecido lama tibetano da tradição Gelug.

Conhecimento, sabedoria e métodos para explorarmos e experimentarmos o despertar das ilusões humanas existem em abundância, mas ainda é preciso que cheguemos a querer verdadeiramente o despertar. Ou que cheguemos a perceber claramente que estamos envolvidos nas ilusões humanos até o pescoçopescoço aqui como força de expressão, porque estamos envolvidos além do pescoço, com a mente afogada no samsara. Se temos dúvidas, mesmo que não admitamos, esse texto é saúde.

O artigo foi publicado originalmente no blog Big Love, que traz ensinamentos de Lama Yeshe (em inglês completo aqui: Renunciation is a little bit heavy for you.), e a tradução é deste blog.

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A Renúncia é um pouco pesada pra você
LAMA YESHE

“Agora vamos falar sobre a renúncia ao samsara. A renúncia é a mente que leva à liberdade. Essa renúncia específica, esse tipo particular de mente não é fácil de alcançar. Nós temos normalmente uma mente renunciada. Por exemplo, tentamos renunciar a situações onde há doença, como tuberculose ou câncer, não tentamos? Tentamos evitar a todo custo situações desagradáveis. Essa não é uma habilidade especialmente humana. Até mesmo insetos, cães, galinhas e porcos podem fazer isso, né? Mas se considerarmos o significado da renúncia em nossa vida humana, isso significa renunciar às causas da confusão e da insatisfação — isto é, ao apego ao prazer temporário e à expectativa que ele vá durar, permanentemente, mesmo que você não coloque isso em palavras. Mesmo que você não diga, filosoficamente, “meu prazer vai durar a vida toda”. Intelectualmente você pode dizer, “claro que não vai durar a vida toda, bla bla bla”, mas por dentro, psicologicamente, você está esperando que seu prazer vá durar tanto quanto possível.

Mas esses pensamentos não são realistas. Enquanto você tiver tais atitudes de apego não-realistas, como manter uma idéia que considera o prazer como permanente e duradoura, não há espaço para você se liberar, para alcançar a paz eterna ou o que quer que você chame isso. É por isso que a renúncia é um pouco pesada pra você. Mas é assim que é. O que quero dizer com pesada? Pesada significa bem difícil de entender, porque o ego não quer entender isso. Porque normalmente nós vemos prazer somente do jeito não-realista. É o que consideramos real. Não vemos mais nada, nenhuma outra alternativa.

Entretanto, do ponto de vista budista, é essencial eliminar o desejo que almeja o prazer temporal para que a paz ou liberação eterna seja descoberta. Do contrário, nossa situação é interminável. Lembre-se que falamos do ciclo da existência; isso é o que o samsara significa. Nós repetimos nossa situação de novo e de novo, o que não nos leva a lugar algum. O único resultado é a insatisfação. Agora, de acordo com o Budismo, precisamos usar nossa inteligência. De uma certa maneira, a sociedade ocidental tem boa intenção, usando o intelecto para desenvolver o que quer que dê mais prazer, não é? É isso que estamos perseguindo, não é? Tentamos. Da mesma maneira, o Budismo diz que os seres humanos podem atingir a paz e o prazer indestrutíveis. Somos capazes. O problema é que sempre nos apegamos ao prazer menor. E isso interfere com nossa capacidade de descobrir o prazer e a paz duradouras.

É por isso que você deve usar sua sabedoria para verificar qual é a melhor maneira de produzir felicidade na sua vida, na sua mente. Esse é o ponto principal. Desperdiçamos nossas vidas focando em coisas temporárias que resultam em prazeres pequenos, em tão poucos prazeres. Gastamos tanta energia e esforço mas o resultado é quase todo confusão. É isso que fazemos, sabe. Eu faço isso também, apesar de ser um monge. Verifique. Verifique você mesmo.

Então, agora, aqueles que compreendem, aqueles que realizaram a renúncia ao samsara, não tem mais ambição de alcançar algo que falta. Você entende isso? Normalmente, não importa quanto prazer nós experimentamos, ainda sentimos que sempre tem algo faltando. Mas aqueles que realmente alcançaram uma percepção profunda do samsara, não tem mais esse tipo de ambição. Não desejam um prazer Nova Iorque, não desejam um prazer California, não desejam um prazer Austrália. Assim que você alcançar esse entendimento, você pode descansar. Você descansa porque há menos contradição na sua mente. Essa é a forma de se libertar.”

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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