Viagem ao despertar interior: Lama Yeshe e os lugares sagrados (que nos habitam)

“Os homens viajam para se maravilharem com
a altura das montanhas
as ondas imensas do mar
os longos cursos dos rios
o vasto âmbito do oceano
o movimento circular das estrelas
e passam por si mesmos sem se maravilhar”
Santo Agostinho (354-430), filósofo, teólogo e bispo doutor da Igreja Católica

Na primeira vez que fui à Índia, em 2004, quis muito visitar uma cidade chamada Mathura, que era historicamente a cidade natal de Krishna, uma divindade muitíssimo admirada e venerada no país há milênios. Possivelmente a mais venerada e admirada. Eu mesmo, depois de ter feito contato e aprendido a história e sabedoria representada por esse deus hindu, tinha desenvolvido uma reverência a ele. Sri Krishna, como é conhecido, é a voz da consciência divina no épico Bhagavad Gita, considerado uma das escrituras mais sábias da Índia. Então fui realmente com muito interesse e expectativa. São 3 horas de Delhi até lá de trem. Nenhum guia havia me sugerido ir até Mathura, fui por minha própria conta e risco. E expectativa.

Chegando lá, percebi que era uma cidade de peregrinação eminentemente indiana, que não tinha turistas à vista. Depois de me instalar no hotel, fui passear na cidade, e então fui ao tão esperado Sri Krishna Janmabhoomi Temple, que era na verdade a prisão onde Krishna teria nascido. Um lugar de peregrinação obrigatória. Mas, apesar de tudo isso, o lugar não me moveu, entrei e saí sentir absolutamente nada (talvez eu tenha sentido algo, mas nada perto do que minha fantasia esperava). Tinha muita intenção de ter alguma experiência marcante, mas não aconteceu. Não tinha nada lá. Eram paredes, barro, pedra, chão, estátuas, flores, gente e placas. Muita devoção das pessoas, amor, reverência, mas basicamente o lugar para mim não passou de um receptáculo inanimado disso. De volta ao hotel, um tanto decepcionado, me dei conta que eu estava mais perto de Krishna quando eu meditava sozinho em meu quarto, no Brasil, do que na cidade dele, de frente para o berço dele, com meu corpo no lugar em que ele nasceu e viveu. Lembro que naquela época eu ja tinha uma compreensão razoável de que o mundo “interior” era onde as coisas realmente “aconteciam”, mas nunca tinha levado um tapa na cara tão forte que me acordasse para essa realidade.

De uma certa maneira, a viagem inteira à Índia sofreu uma queda na animação que vinha tendo pra mim. Mas, por outro lado, eu estava acordando para o fato de que a existência não está nos esperando lá fora. Ou, mesmo que haja uma existência lá fora (que há, né), a experiência fundamental está dentro. Pode parecer algo simples, mas era uma mudança total de paradigma para mim na época. Logo depois eu reconheceria que, de alguma forma, esse tipo de acordar era uma herança da sabedoria justamente daquele “lugar”: a espiritualidade verdadeira que é a experiência interior, o silêncio de si mesmo onde se reconhece isso, a meditação, e o tapa na cara, tudo isso era um tipo de ouro que a Índia dava pra todos. Então, no fim das contas, estava tudo certo. Menos uma ilusão na minha vida.

O autor Eckhart Tolle (“O Poder do Agora”) tem uma frase sobre o sofrimento humano que diz que “o sofrimento é necessário até realizarmos que não é (necessário)“. Podemos transportar isso para os lugares sagrados: eles são necessários para vermos que não são necessários. E que o lugar mais sagrado é nosso próprio ser. E que todos os seres são lugares sagrados, e que por fim todos os lugares são sagrados. Pode ser uma simplificação, mas é válida.

Lama Yeshe

Isso tudo pra falar desse texto abaixo do Lama Yeshe (foto), que diz que tem preguiça de ir a lugares sagrados, que não tem vontade. No texto, ele explica porque e fala sobre viajar até a “Bodhgaya interior“, em alusão à cidade onde Siddharta Gautama atingiu a iluminação e se tornou um ser desperto, Buda, há 2500 anos. Lama Thubten Yeshe (1935-1984) foi um célebre mestre do Budismo Tibetano, da tradição Gelug, fundador do Monastério Kupan, em Kathmandu (Nepal), e autor de vários ensinamentos hoje disponíveis em livros como “Universal Love”, “Mahamudra: How To Discover Your True Nature” e “The Peaceful Stillness Of The Silent Mind”.

O texto abaixo está disponível no site oficial de Lama Yeshe, lamayeshe.com, e segue abaixo traduzido por este blog.

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FAZENDO CONTATO COM A BODHGAYA INTERIOR
Por Lama Thubten Yeshe
do site oficial de Lama Yeshe, “Contacting the Bodhgaya Within” (1981)

Certa vez, há muito tempo, um lama tibetano queria ir à Índia para ver seu guru lá. Um dos seus discípulos disse a ele, “por que razão você está indo para a Índia? Não há razão para ir. O guru interior está dentro do seu sistema nevoso, e se você quiser ver as deidades e criar carma positivo, faça oferendas à mandala do corpo dentro do seu sistema nervoso, aos dakas e dakinis no seu sistema nervoso”. O discípulo disse várias coisas desse tipo e seu guru não conseguiu responder.

Também podemos fazer uma observação parecida em relação às nossas mentes ocidentais que frequentemente estão entediadas em um lugar e desejamos ir a outro. “Oh, eu ouvi que as praias da Grécia são muito bonitas. Também as de Bali e do Havaí”. As pessoas consideram esses bons lugares para ir, mas na realidade os bons lugares da Grécia, de Bali e do Havaí estão dentro do nossos sistemas nervosos, que interpretam esses lugares como bons. Da mesma maneira, sempre buscamos no exterior para ver os objetiso que são fisicamente bonitos, embora haja beleza também dentro de nós. Onde no exterior está a qualidade que consideramos bonita? Mostre-me onde no exterior esta qualidade está. Na Grécia? Não é possível. Não é possível que você possa encontrar a qualidade Vajrayigini (budeidade) nas praias da Grécia.

Pensamos sobre Bodhgaya, onde o Buda Shakyamuni se tornou iluminado. Então nós vamos até lá, olhamos e sentimos algo também. Iluminação? Sentimos algo, mas nunca sentimos que temos o potencial da iluminação. Talvez a iluminação exista dentro de nós aqui e agora. E nós ignoramos. Mas nós vamos em peregrinações, enfrentamos aviões, hotéis e toda nossa bagagem pesada. Bem, talvez seja bom para algumas pessoas, mas minha mente preguiçosa está completemente convencida que em vez de ir em peregrinação, é melhor para mim apenas fazer uma hora do mantra OM MANI PADME HUM. Não, nem uma hora, talvez apenas dez minutos. Em comparação, acho que a energia que eu gastaria indo daqui até o Oriente, circulando estupas e vendo essas coisas, é desperdício. Isso é o que minha mente preguiçosa pensa. Não estou dizendo que é assim para todos.

Por exemplo, ficamos em Kathmandu. No Nepal há esses lugares santos incríveis, como o lugar em que o senhor Buda deu seu corpo aos tigres, ou as estupas como aquela em Swayambhunath, onde relíquias dos corpos de Nagarjuna e Vasubadhu estão guardadas. Tenho sorte se minha mente preguiçosa vê essas coisas uma vez no ano. Dentro de mim não tenho nenhuma vontade de ir até esses lugares. E também não sinto culpa. Talvez eu esteja doente, mas estou convencido. Também não recito os mantras, mas sinto que se eu fizesse por somente dez minutos com contemplação, seria muito mais poderosa do que viajar a qualquer lugar Claro, acredito que tais peregrinações pode ter algum carma positivo, mas não há abalo interno, nada é alterado o suficiente.

Então, na realidade, Bodhgaya, o lugar real essencial onde o senhor Buda deu seu ensinamento, está dentro de você. No tantra temos 24 lugares sagrados na Terra, onde muitos dakas e dakinis (deidades) vivem. Por isso também, temo 24 lugares sagrados dentro de nós. Qualquer lugar no mundo externo que pensamos que é sagrado está, na realidade, dentro do nosso precioso corpo humano.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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