Shunryu Suzuki nas cachoeiras de Yosemite: “Nossa vida e nossa morte são a mesma coisa”

Catarata do Parque Nacional de Yosemite, na California (EUA).

Uma pessoa vai tomar banho num rio usando um balde, enche-o, usa metade da água e despeja a outra metade de volta no rio. Economia? Eficiência? Nenhum dos dois. A pessoa que tomava este banho da história é uma das maiores referências do Zen-Budismo, Mestre Dogen (1200-1253), o banho ficou emblemático ao ponto da ponte hoje ser conhecida como “Ponte do Meio-Balde” (Hanshakukyo) e a história é contada pelo mestre Shunryu Suzuki (1904-1971) no clássico livro “Mente Zen, Mente de Principiante” (1970).

Qual o sentido ou mensagem que está contida na devolução da água? “Este tipo de prática não se fundamenta em nenhuma idéia de sermos econômicos. Pode ser difícil entender por que Dogen devolvia ao rio metade da água que dele recolhia. Este tipo de prática está além do nosso entendimento”, diz Suzuki, ao contar essa história. Se está além do nosso entendimento, para que contar?, podemos nos perguntar. Uma das maneiras que o Zen opera é criando uma prática para “despertar para a totalidade do momento presente“, mas geralmente isso não se dá em adequação à nossa mente convencional, iludida por conceitos e idéias. E sim pelo que às vezes se denomina de Grande Mente (Big Mind), com diz Suzuki. Assim, talvez Suzuki queira se referir à incapacidade do entendimento por essa mente convencional, presa em idéias e conceitos, e não à Grande Mente, livre delas. “Quando sentimos a beleza do rio, quando somos um com a água, intuitivamente procedemos como Dogen. É nossa verdadeira natureza que o faz. Mas se sua verdadeira natureza está encoberta por idéias de economia ou eficiência, o caminho seguido por Dogen não faz sentido.”

Faz sentido?

Suzuki diz que “somos como a água no balde“, e ilustra a história traçando um paralelo com as quedas d’água que viu no Parque Yosemite, nos Estados Unidos. Se conseguirmos ser um com o rio, não temeremos mais a morte, e percebermos que “nossa vida e nossa morte são a mesma coisa”.

Leia abaixo o trecho onde ele conta toda essa história, parte do capítulo “Nirvana, a Queda d’Água“.

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Nirvana, a Queda d’Água.
Trecho do livro “Mente Zen, Mente de Principiante”
Por Shunryu Suzuki

“Nossa vida e nossa morte são a mesma coisa. Quando percebemos este fato, não tememos mais a morte nem temos verdadeiras dificuldades em nossa vida.”

Se você vai ao Japão e visita o mosteiro de Eiheiji, logo antes da entrada vê uma pontezinha conhecida por Hanshakukyo, que significa “ponte do meio balde”. Toda vez que o mestre Dogen apanhava água do rio, usava só metade do balde, devolvendo a outra metade à corrente, sem desperdiçá- la. Por isto chamamos a ponte Hanshaku-kyo, “ponte do meio balde”.

Em Eiheiji quando lavamos o rosto, enchemos a bacia com setenta por cento de sua capacidade. E depois de nos lavarmos, despejamos a água perto do nosso corpo em vez de lançá-la para longe. Isto expressa respeito pela água. Este tipo de prática não se fundamenta em nenhuma idéia de sermos econômicos. Pode ser difícil entender por que Dogen devolvia ao rio metade da água que dele recolhia. Este tipo de prática está além do nosso entendimento. Quando sentimos a beleza do rio, quando somos um com a água, intuitivamente procedemos como Dogen. É nossa verdadeira natureza que o faz. Mas se sua verdadeira natureza está encoberta por idéias de economia ou eficiência, o caminho seguido por Dogen não faz sentido.

Fui ao Parque Nacional de Yosemite e vi quedas d’água enormes. A mais alta tem quatrocentos e oito metros e a água desce como uma cortina lançada do topo da montanha. Não parece cair com velocidade, como seria de se esperar; parece cair muito devagar por causa da distância. E a água não desce como uma única torrente, mas se divide em muitas e diminutas quedas. À distância, assemelha-se a uma cortina. E ocorreu-me que deve ser uma experiência muito difícil para cada gota d’água cair do topo de uma montanha tão alta. Leva muito tempo, você sabe, um longo tempo, para a água chegar finalmente ao fundo da catarata.

Parece-me que a vida humana pode ser assim. Temos muitas experiências difíceis. Mas ao mesmo tempo, pensava eu, originalmente a água não estava dividida e era um único rio. Apenas quando se dividia é que encontrava dificuldade ao cair. É como se a água, enquanto rio, não experimentasse nenhuma sensação. Somente quando dividida em muitas gotas é que poderia começar a ter ou expressar alguma sensação. Quando olhamos um rio não percebemos a atividade viva da água; mas quando apanhamos um pouco de água num balde, experimentamos algum sentimento pela água e sentimos também o valor da pessoa que a usa. Cientes, deste modo, de nós mesmos e da água, não podemos usá-la de forma meramente material. Ela é uma coisa viva.

Antes de nascermos, não tínhamos sentimentos: éramos um com o universo. A isso chama-se “só-mente” ou “essência da mente” ou “mente grande”. Após o nascimento, somos separados dessa unidade, como a água da catarata que se divide pelo efeito do vento e das rochas; só então passamos a ter sentimentos. Você tem dificuldades porque tem sentimentos. Você se apega ao que sente sem saber ao certo como é criado esse tipo de sentimento. Quando você não percebe que é um com o rio ou um com o universo, você tem medo. Dividida em gotas ou não, a água é água. Nossa vida e nossa morte são a mesma coisa. Quando percebemos esse fato, não tememos mais a morte, nem temos verdadeiras dificuldades em nossa vida. Quando a água volta à sua unidade original com o rio, deixa de ter qualquer sentimento individual; a água retoma sua própria natureza e encontra serenidade. Que contente deve ficar a água ao retornar ao rio original!

Se assim for, que sentimento teremos ao morrer? Penso que somos como a água no balde. Então, quando morrermos, teremos serenidade, perfeita serenidade. Talvez nos pareça perfeito demais neste momento, tão apegados estamos aos nossos próprios sentimentos, à nossa existência individual. Nós, neste momento, temos algum medo da morte, mas, depois que retomamos nossa verdadeira natureza original, há o nirvana. Eis a razão pela qual dizemos: Atingir o nirvana é morrer”. “Morrer” não é uma expressão muito adequada. Talvez fosse melhor “prosseguir”, ou “continuar”, ou “juntar-se”. Você poderia achar uma expressão melhor para a morte? Se a achar, terá uma interpretação inteiramente nova para sua vida. Será como minha experiência quando vi a água descer naquela grande queda. Imagine! Eram quatrocentos e oito metros de altura!

Nós dizemos: “Tudo surge da vacuidade”. A totalidade de um rio ou a totalidade de uma mente é vacuidade. Quando chegamos a esta compreensão, encontramos o verdadeiro sentido da vida. Quando chegamos a esta compreensão, podemos ver a beleza da vida humana. Antes de percebermos este fato, tudo quanto vemos é só ilusão. Algumas vezes superestimamos a  beleza; outras vezes a subestimamos ou a ignoramos, porque nossa mente pequena não está em sintonia com a realidade.

Falar sobre isto como o estamos fazendo é bastante fácil, mas ter a experiência do sentimento real não é tão fácil. Contudo, pela prática do zazen você pode cultivar esse sentimento. Quando for capaz de sentar-se com todo seu corpo e sua mente, com a unidade de sua mente e de seu corpo sob controle da mente universal, você poderá atingir facilmente este tipo de compreensão correta. Sua vida diária será renovada sem se apegar a velhas interpretações errôneas da vida. Quando você compreender isto, descobrirá quão insensata era sua velha interpretação e a inutilidade dos esforços que vinha fazendo. Você encontrará o verdadeiro significado da vida e, apesar das dificuldades na descida vertical desde o topo até o pé da queda d’água, você apreciará sua vida.”

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Foto: Parque Yosemite (EUA) com queda d’água — copyright 2017 © CaptureLight.

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

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