Krishnamurti e a crise interior [2]: “vocês me perguntam: e agora, o que fazer?” [VÍDEO]

“Se você sabe por si mesmo quem você é, descobrindo o que você é, então a pergunta é inteiramente diferente, essa pergunta “o que fazer?” é inteiramente diferente; porque a pessoa percebe quem ela é, e ela está confusa, como o mundo está; e percebe que vive em contradição e divisão, como o mundo vive”.
— Jiddu Krishnamurti, palestra na San Diego State College, California (EUA), 5 de abril de 1970

Uma leitora, Kely, pergunta nos comentários, depois de ler o post de ontem (“A crise não está lá fora, a crise é interna, e não queremos encarar isso”: Krishnamurti, 04/03/2016): “E como conseguir aplacar a crise interior?
Para responder a essa pergunta sobre o discurso publicado ontem, o melhor respondedor não poderia ser outro que não o próprio Jiddu Krishnamurti, como está no vídeo abaixo, esse mais longo (57min), de um discurso de 5 de abril de 1970, quando que ele responde “o que fazer?” com a crise interior. É uma resposta brilhante, embora longa e com seu grau de complexidade, ainda que seja apenas uma linha de questionamentos sobre “como se observar“, que é o caminho mais sério e frutífero que ele sugere para se chegar à resposta do que fazer com a crise interior.

A resposta não está “lá fora”, obviamente, e nem poderia. A resposta não está lá fora no sentido de não estar num molde, num lugar, numa fórmula, num texto já existente ou num sistema. É exatamente ao se livrar de todas as respostas prontas e importadas de fontes existentes que o filósofo indiano sugere que cada um de nós pode finalmente chegar à própria resposta de quem é, ou do que é, do que quer e do que fazer. Observando a si próprio, por si mesmo — o que cria outra pergunta:

Então a pergunta é: como observar a si mesmo? Sendo que si mesmo é o ser humano total“, diz Krishnamurti. “Porque sem conhecer a si mesmo, que é o mundo, não um indivíduo… a palavra indivíduo significa uma entidade inteira, indivisível, e um indivíduo significa um ser humano em quem não há contradição, não há divisão, não há separação, uma unidade total, uma unidade harmônica. Então vocês não são indivíduos, estão todos quebrados, contraditórios em si mesmos”, explica ele, no primeiro passo de uma palestra que se dedica inteira a esse tema da fragmentação, do aprofundamento na estrutura do ser humano e de como chegar a responder “o que fazer”.

Então a palestra avança no tema “como observar a si mesmo” por esse caminho da análise de que fragmentação é essa, pois ela afeta como nós vamos nos observar. O trecho em que esse momento começa a avançar está transcrito abaixo, que é praticamente uma apresentação do problema (que se desenvolve mais na sequência do vídeo):

Crise Interior Krishnamurti“Como somos seres humanos fragmentados em nós mesmos, desejos contraditórios, sentindo inferioridade ou superioridade, tendo medo, sem amor, sentindo solidão, fragmentados, não apenas superficialmente mas profundamente — como você vai observar? Como um fragmento observa o resto dos fragmentos? Como um se torna o censor, o examinador, o observador, assistindo o resto dos fragmentos? E o que lhe dá autoridade sobre os outros fragmentos? (…) Então a pergunta é, quem é o observador e quem é o censor que diz, “Isso vou fazer, isso não vou, isso é certo e isso é errado, esse caminho vou seguir e esse outro não, serei um pacifista nessa guerra mas tenho outras guerras favoritas, seguirei esse líder e esse outro não, acreditarei nisso e não naquilo, manterei esse preconceito e rejeitar aquele, e sabendo, se você tiver se observado, que você é um ser fragmentado? E portanto, sendo fragmentado, contraditório, vivendo em constante conflito, e conhecendo esse conflito, um fragmento desses todos muitos fragmentos tomas as rédeas, se torna a autoridade, o censor, e sua observação deve inevitavelmente ser contraditória. Espero que vocês estejam acompanhando isso. Se um fragmento, uma parte de você assume a autoridade do analisador sobre os outros fragmentos, porque ele assumiu essa autoridade, e pode ele, um fragmento, analisar o resto dos outros fragmentos? Vocês estão acompanhando isso? Veja quão terrivelmente complexo isso se tornou. Não importa se você for analisado por um profissional ou analisa a si mesmo, é o mesmo padrão. Então é muito importante saber como observar, como observar todos esses fragmentos.”
Jiddu Krishnamurti, 5 de abril de 1970.

A palestra completa segue no vídeo abaixo, que contém a gravação original da palestra de 5 de abril de 1970 na California e está legendado em português. Com agradecimento ao KrishnamurtiBrasil, que disponibilizou no YouTube.

O discurso também pode ser lido em inglês na íntegra aqui.

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Imagem: Brno Del Zou – Izoumi, 2012 (reprodução).

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

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