“Pratiquei Budismo, Raja Yoga, terapia, mas não vejo resultados”: uma consulta com Jodorowsky

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Há muitas coisas interessantes nesse pedido (reproduzido abaixo) que uma mulher chamada Ema faz a Alejandro Jodorowsky, o terapeuta, escritor e artista chileno criador da Psicomagia (técnica terapêutica que usa atos chamados mágicos-simbólicos-sagrados para se comunicar com o inconsciente e curá-lo de bloqueios e limitações). Uma das principais é a circunstância comum em que vários de nós nos colocamos de buscar e esperar que a cura ou a solução das coisas venha de fora, em buscas múltiplas, apesar de tantos ensinamentos indicando o caminho interior. Em outra dimensão, parece não haver uma percepção de Ema de que a busca está intimamente relacionada com sua situação presente, como seu distanciamento da família, o trabalho infrutífero e a ausência de relacionamento conjugal.

A técnica de Jodorowsky pode ser discutida (embora não seja a intenção desse post), mas a percepção dele é que gostaria de chamar a atenção e que pode inspirar a termos sempre uma visão ampla e holística de nossa situação de vida: Jodorowsky viu o cenário inteiro da vida de Ema, e isso possibilitou ver a crença inconsciente e viva que “gerenciava” as partes de sua vida. Não é apenas um problema no trabalho, ou as mãos vazias, ou a falta de um relacionamento, ou o Budismo que aparentemente não lhe ajuda, etc. Segundo a visão de Jodorowsky, é a história inteira que importa, e que aponta para a interferência do inconsciente. Como não há feedback, não é possível saber o resultado da resposta ou do ato de cura, mas pela descrição desenvolvida parece fazer bastante sentido.

O texto foi compartilhado originalmente em espanhol, pelo projeto Plano Creativo, e segue traduzido pelo Dharmalog abaixo.

Boa leitura.

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EMA envia:

Amável Alejandro, faz uns 8 anos que venho buscando em meu interior um canal livre para que possa fluir a energia. Estudei Budismo e suas teorias analíticas para mudar minha maneira de pensar e raciocinar. Pratiquei Raja Yoga por anos, graças à orientação de uma mestra extraordinária que encontrei depois de buscar várias vezes. Há cinco anos faço psicoterapia. Apesar de alguns resultados importantes, como o desaparecimento, graças ao Pranayama, de uma forma de asma crônica que eu havia desenvolvido na infância, e de haver conhecido durante minha jornada alguns personagens realmente excepcionais, minha busca não tem produzido resultados concretos. Me distanciei de uma família que amo intensamente mas que produz mecanismos pesados demais para mim, coloquei em dúvida todas minhas certezas e mergulhei nos meus medos, nadando neles com braçadas fortes. Aos 35 anos, meu talento não me permite expressar-me nem pagar as contas, não tenho parceiro, não tenho filhos e faz alguns dias se olho para minhas mãos as vejo vazias. Você pode me sugerir um ato psicomágico que possa me desbloquear, ou que permita prosseguir minha busca com suposições mais sólidas?

ALEJANDRO JODOROWSKY responde:

“Querida Emma, tu que tens estudado o Budismo e suas teorias analíticas, o Raja Yoga (exercício, equilíbrio e concentração do pensamento para desenvolver o poder mental), mais cinco anos de psicoterapia, mais o Pranayama (domínio, restrição e regulação da respiração), além de ter buscado contato com pessoas excepcionais, me pedes, a essa altura (já completaste 35 anos) um ato de psicomagia, sentindo que não possues um canal livre por onde possa correr a energia. Te dás conta até que ponto essa família que dizes amar intensamente tem te desvalorizado? A asma infantil, salvo poucas exceções, tem uma origem em problemas emocionais. Não te viram realmente como eras, não viram teu talento, nem tuas capacidades. Acreditando-se vazia (se os pais não nos vêem, nós crescemos sem poder nos ver) crias para ti mesma um mundo onde te custa ganhar a vida (para que, já que tua vida não vale nada?), não tens filhos, não tens marido, o vazio te circunda…

Queres te desbloquear para seguir a busca? Desbloquear o que? Buscar onde? Se buscas fora de ti, nunca encontrarás nada, porque o que está bloqueada é tua divindade interior. Estas são palavras de Katha Upanishad, texto sagrado que tem uns 3000 anos: “Quando tiveres ouvido e compreendido e encontrado tua essência, alcanças o mais profundo do ser, encontras a alegria na Fonte da Alegria: te convertes em uma casa aberta para tua Alma, teu Deus interior”. Desde pequena mutilaram teu tesouro interior, te fizeram acreditar que eras um recipiente vazio, te negaram como mulher. Te deprecias, não consegues te amar, te fazes continuamente o que tua família fez contigo: te negas.  Tens as mãos cheias de vida, mas as vês vazias, tal qual vês teus ovários… Deves aprender a se ver com um novo olhar, sentir que tu, como todos os seres humanos, tens un tesouro interior…

Como ato psicomágico, posso te recomendar que realizes um ritual de nascimento. Teu inconsciente não tem a informação do que é nascer de pais que tenham te criado com amor e que valorizassem cada célula de teu corpo e de tua alma. Deves encontrar uma pessoa bem intencionada que se preste ao papel de interpretar uma mãe e um pai perfeitos, que se amam, se compreendem e se desejam. Deves, nua, colocar-te em posição fetal no ventre de tua “mãe” e viver o processo de desenvolvimento intrauterino, que deve ser cheio de felicidade. O “pai” deve estar presente e te encorajar a nascer e crescer sendo tu mesma, ou seja uma mulher maravilhosa. Eles devem te parir com facilidade, te lavar, te vestir com roupa nova. Tu te darás um novo homem. Depois, para celebrar tua verdadeira entrada na vida, trocarás cem euros em moedas de cinco centavos. Com essa pilha irás a uma praça pública onde haja pombos e lançarás a eles as moedas como se fossem migalhas de pão. Voltarás à tua casa regando as moedas na rua, como se tivesses semando-as. Entenderás que o que dás, dás a ti, e o melhor que podes dar é tu mesma. Aprenderás a acompanhar o silêncio aos que sofrem.”

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

5 Comentários

  • Boa noite,

    Li este artigo e tem muito a ver comigo ou melhor com minha vida passada. Eu cheguei ter um processo cancerigeno (chocante para toda a gente, como poderia acontecer a mim)?.

    Vivi á minha maneira alegre, contente e com sentido de humor que ainda cá está.

    Resumindo, hoje com 47 anos o que me vale são os meus amigos que me querem bem e me tem ajudado no mais básico (comida e algum conforto moral).

    Muito mais havia a descrever.

    Dizem que estou numa fase crise meia idade.
    Estou também sem trabalho e aluguei um quarto e vou buscar alimentos a instituições do Estado. Se não fosse isso…já não estava cá.

    Meus pais (e até um animal de estimação morreram no espaço de 1 ano) em 2013/2014 e até agora tenho me “arragado” a mim….. mas ultimas semanas já não me basto a mim própria e “agarro-me” á memória da minha mãe (mulher fantástica que foi).

    Sou sensivel, gosto de ajudar os outros e vou fazendo algo de positivo para mim e pelos outros.

    Não tenho filhos e muito provavelmente não vou ter, que será mais um “desgosto” porque sempre ser mãe.

    A minha doença (faz este ano 5 anos) tenho a certeza também foi provocada por excesso de stress de procurar trabalho/emprego…e constante preocupações com minha independencia e autonomia (que teive alguns momentos assim) e responsabilidades para deixar boas referencias nos empregos que tive (muitos dos quais empresas que faliram).

    Também pratico regularmente meditação e já fiz ioga e mesmo desempregada era feliz e tinha um desempenho corporal muito bom. Deixei por questões financeiras. Também foi uma fase que tinha uma relação amorosa na sua plenitude.

    Agora tenho um companheiro que gosta de mim, mas de forma pouco envolvente e com pouca iniciativa para me conquistar e da minha parte não sinto o que já senti – paixão e amor independentemente das circunstancias.

    Não consigo dizer ao meu companheiro “amo-te”., porque na verdade “enganei-me” a mim própria quando o conheci
    …e tenho “medo” de verbalizar carinho porque posso sofrer, dada a distancia fisica em que estamos.

    Ele vive com os pais e também está desempregado.

    Boa noite.

    Agradeço Vª atenção.

  • afastei-me da familia que resta (2 irmãos homens), porque há tensões implicitas que sempre me fizeram mal..e eles próprios com as vidas devidamente organizadas também não me procuram.

    Apenas mantenho contacto com uma sobrinha que tem saudades minhas para não a “castigar” e abraça-se a mim….e fico contente, mas quando saio de lá e vou para meu quarto alugado (onde o ambiente é muito fraco e autoritário) e consequentemente fico triste e sinto mais a condição de pobreza que estou.

    Se podesse saía deste país e deixava tudo para trás das costas.

    Estou quase a desistir da vida…hoje acredito porque muitos desistem. Farta de “lutar” (esta palavra já me custa ouvir )…isto é sobreviver, com sofrimento. E não vejo nada que radicalmente resolva.

    Já passei meu limite de forças há muito tempo e quem me conhece sabe disto.às vezes saio do sitio ondo moro e durmo em casa de amigos…ando sempre com a casa ás “costas”. Tenho que dizer um “basta”, mas não sei mais como.

    Onde está pessoa que era?

    • Dulce, você já buscou terapia? A ajuda de uma pessoa próxima e de um processo terapêutico pode ser o que você procura, pela natureza do teu relato e da tua questão (o “como”). Pode ser a reconexão que você busca.

      Apesar do relato desta pessoa do post a Jodorowsky dizer que já tentou terapia e não funcionou, o que Jodorowsky faz é um ato de terapia (que ele chama de psicomágico, por ter as características que tem), um renascimento particular, baseado numa visão psicoterapêutica dele a respeito da situação.

      Que você encontre essa luz e continue seu caminho com saúde e paz.

      Um abraço,
      Nando

  • Eu era uma pessoa muito desencanada, alegre, sorridente, diria que inocente até.. Conheci um cara que me fez virar outra pessoa, minha pureza foi embora, entrei em uma depressão profunda mas, conseguia fazer as coisas do dia a dia, estudar, me relacionar enfim.. O tempo passou, as coisas ficaram normais durante um tempo, mas parece que eu lidei com essa depressão de outra maneira, parei de me relacionar com as pessoas, festas nao tem mais graça, não consigo, estudar ou trabalhar, chego a passar uma semana sem sair do quarto, e o fato da minha familia nao saber lidar com isso so piora o sentimento de estar só… Nao sei o que realmente me causou tudo isso mas, sinto que perdi algo no caminho e nao consigo achar, nao consigo me ter novamente desde entao procuro por ajuda e nao acho. Meus dias sao angustiantes, quando estou acordada so choro… Preciso de ajuda, achei que aqui talvez pudessem ter respostas!!

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