Crônica dos gêmeos no útero: você acredita em vida após o nascimento?

Esse diálogo hipotético entre dois fetos gêmeos está em vários sites, principalmente de cuidados maternos e crianças, e como traz algumas reflexões curiosas sobre as indagações humanas mais sérias (e adultas) —como a vida após a morte, a crença em sermos produtos de universos auto-conscientes e sustentadores onipresentes (“A Mãe”), as dúvidas acerca de possibilidades físicas após uma grande transição (nascimento) — resolvi reproduzir aqui, abaixo. O fim versus um (novo) início, e o que isso representa para o estado atual das coisas nesta vida (neste caso, útero), é o tema dessa crônica dos gêmeos. Ninguém, de fato, voltou ao útero após o nascimento (ainda que muitos aparentemente tenham desejado isso, segundo Freud), mas isso não obrigatoriamente torna o argumento do gêmeo cético mais provável que o outro gêmeo.

O autor dessa crônica é desconhecido.

No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês. O primeiro pergunta ao outro:

– Você acredita na vida após o nascimento?

– Certamente. Algo tem de haver após o nascimento. Talvez estejamos aqui principalmente porque nós precisamos nos preparar para o que seremos mais tarde.

– Bobagem, não há vida após o nascimento. Como verdadeiramente seria essa vida?

– Eu não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui. Talvez caminhemos com nossos próprios pés e comeremos com a boca.

– Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca? É totalmente ridículo! O cordão umbilical nos alimenta. Eu digo somente uma coisa: A vida após o nascimento está excluída. O cordão umbilical é muito curto.

– Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.

– Mas ninguém nunca voltou de lá, depois do nascimento. O parto apenas encerra a vida. E afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.

– Bem, eu não sei exatamente como será depois do nascimento, mas com certeza veremos a mamãe e ela cuidará de nós.

– Mamãe? Você acredita na mamãe? E onde ela supostamente está?

– Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e através dela nós vivemos. Sem ela tudo isso não existiria.

– Eu não acredito! Eu nunca vi nenhuma mamãe, por isso é claro que não existe nenhuma.

– Bem, mas às vezes quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la cantando, ou sente, como ela afaga nosso mundo. Saiba, eu penso que só então a vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para ela.

— Autor Desconhecido

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

8 Comentários

  • Uma crônica com considerações muito boas. O fato mais importante que nos apresenta é ilustrar que, apesar de algo nos ser intangível e invisível, não quer dizer que não exista – apenas não pode se fazer notar em um determinado momento cronológico. E, apenas para aproveitar o gancho oferecido pelo conto, acho que o gêmeo cético irá se maravilhar mais que o outro, quando a verdade se manifestar (mas isso é apenas um”eu acho”, e nada mais)…

  • Digamos que essa comparação é meio tola, sim é claro o bebê senti as emoções da mãe, senti o coração dela até ouve sua voz,
    E nós? Alguns dizem q escutam que sentem, e etc mas se realmente existisse um deus pq ele conversaria só com uns?
    O fato é que a relação da mãe e o bebê é totalmente concreta.
    E nós, com o deus é algo imaterial, que foi passado de geração pra geração e depois de um tempo documentado, mas que na verdade não passa de uma lenda!

    • Amigo, concordo com vc em gênero, número e grau! Por isso temos vários tipos de filhos, uns rebeldes, outros amáveis, mas que são amados da mesma forma pela suas mães! A mãe chama e fala com ambos, mas só o amável houve, escuta, se importa. Já o outro, nem liga, desconversa, vira as costas e vai embora. No final, SOMOS TODOS UMA LENDA!!!!

    • É interessante o que levanta essa história em cada um.

      Gostaria de fazer algumas observações, pra gente refletir:

      – A relação do bebê e da mãe é concreta somente para a mãe, pois o bebê não faz a menor idéia que há uma mãe, e provavelmente nem que há um “eu” isolado como ele é. Para nós, já fora da barriga há anos, é fácil entender esse momento como uma relação concreta, mas lá dentro a situação é bem diferente. Quando um dos bebês fala da mãe, está usando uma informação que não tem, apenas como forma de criar o paralelo com o mundo de fora.

      – O bebê vai desenvolvendo seus órgãos e sentidos com o tempo, cada semana é diferente, e sua percepção vai crescendo. Uma hora ele ouve, por exemplo. Isso pode ter um paralelo com a vida humana sim, nossa percepção, nossa consciência, pode passar por ampliação e aprendizado durante a vida. Podemos adquirir capacidades de perceber e entender mais com o tempo e com uma mente melhor desenvolvida. E isso pode chegar, talvez, quem sabe, a Deus.

      – A relação nossa com um “Deus” antropomórfico e incerto (ou fantasioso) é justamente uma reflexão da historinha. A dúvida e a especulação é o que resta a quem não tem acesso à realidade que não conhece. O bebê não sabe que há um mundo “lá fora”, sequer sabe que vai nascer para esse mundo. Mas pode desconfiar, dada a realidade que lhe cerca e que ele consegue observar. De onde vem comida? De onde vem meu crescimento? Quem o sustenta? Para onde vou?

      – A historinha obviamente usa licenças poéticas, para efeito de reflexão. Diferentemente de nós, os bebês não observam outros bebês e não sabem que outros bebês nascem, eles só vêm a si mesmos, não há mais realidade visível que essa. E tampouco sabem que vão “nascer”. Portanto, não sabem se alguém “volta” ou não desse nascimento. Se formos levar ao pé da letra, racionalmente, e não fazer concessões, não há nada na historinha pra gente. Mas se formos aceitar os paralelos e fazer a reflexão em nossa vida, podemos imaginar que talvez não tenhamos todas as informações aqui também, talvez isso tenha alguma similaridade com um útero, talvez tenhamos limitações de nos movimentarmos no universo (ficamos aqui nesse planeta o tempo todo), talvez também não consigamos ouvir ou ver nada mais além por uma série de motivações (e interesses) no nosso próprio cordão umbilical, e assim por diante.

      Mais do que sermos religiosos ou ateus, é uma história que gosto de pensar que tem apelo a qualquer um interessado em desvendar o que não sabemos. E há muita coisa que não sabemos.

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