“Estar aqui agora” relaxará você, mas não levará você pra casa: o perdão, por Gary Renard (e Eckhart Tolle)

Estar aqui agora“, ou “viver no momento presente“: duas das expressões mais citadas, ensinadas e compartilhadas nestes tempos de expansão da consciência, auto-conhecimento e aprendizado pessoal (e auto-ajuda, e frases fáceis, e Facebook, etc). A expressão é simples, óbvia até, mas a realização é hercúlea, a jornada de uma vida (ou mais), e esse é o ponto articulado por Gary Renard, um dos líderes do movimento Um Curso Em Milagres (UCEM), que tem vindo ao Brasil nos anos recentes para divulgar seu trabalho. É o perdão, segundo Renard, que abre as portas para que o “viver no momento presente” possa acontecer de fato. O perdão dos outros mas principalmente de si mesmo, de toda culpa inconsciente.

A primeira vez que li o diálogo abaixo, que faz parte do livro “Sua Realidade Imortal” (Grupo Mera), do próprio Renard, parecia uma resposta ou um adendo ao trabalho de Eckhart Tolle sobre “O Poder do Agora“, como se disse “você não vai conseguir chegar lá se não passar por essa etapa”. Mas depois notei que o próprio Eckhart Tolle discorre sobre a necessidade do perdão para que o “estar no agora” aconteça, seja verdadeiro e pleno.

Então trago para cá primeiro o trecho principal, onde Gary Renard fala sobre o “estar no agora”, na verdade pergunta para seus mestres envisionados sobre esse aqui-e-agora. Você vai notar um tom mais religioso, a citação a Deus, ao Divino Espírito Santo, mas está no contexto simbólico que conhecemos, então vai faz sentido mesmo para quem não tem conhecimento dessa nomenclatura ou simbolismo. Depois, logo abaixo, um trecho onde Eckhart Tolle fala sobre o perdão, reproduzido do livro “O Poder do Agora” (pgs 179-180).

Estar no aqui-e-agora é simples e complexo ao mesmo tempo. Simples por uma visão filosófica, digamos assim, ao vermos e entendermos o que é de “fora”. Mas é complexo dentro da realidade humana, que é complexa nesse sentido, que nasce neste mundo, desenvolve um ego, sentidos, possui memória, influências, cognições, necessidades, desejos, mecanismos de defesa e tudo o mais que sabemos. Ao abrirmos mão de outro “tempo” e nos centrarmos no momento presente, toda a variedade de condicionamentos será atirada à nossa frente, chame-os de fixação, karma, samskara, desejo, identificação, ignorância, tendência, etc. A mágoa ou a ausência de perdão ou culpa será uma delas, talvez a principal e das mais profundas, intoxicando o “estar no agora” com imagens, sentimentos gravados, conceitos formados e desejos fixos. Um assunto enorme, então fiquemos com as palavras de Renard e Tolle por enquanto, abaixo.

[1]

GARY RENARD: O que há a respeito de “estar no agora”?

ARTEN: Onde a prática do “esteja aqui agora” levará você é para o aqui. Com certeza, isso relaxará você, mas, sozinha, não levará você para casa. Um aspecto desse tipo de sistema é de vigiar seus julgamentos. Mas vigiar seus julgamentos não é, exatamente, perdoá-los. E o agora, experienciado, não é o eterno sempre do Céu, exatamente, que só consegue ser, consistentemente, experienciado quando o ego haja sido desfeito pelo Divino Espírito Santo, completamente. Isso exige que você cumpra sua parte no perdão, e que o Divino Espírito Santo cuide da parte do encargo dele, na profundeza de sua mente inconsciente, que você não enxerga. Então, à medida que você segue, você terá experiências que lhe indicará o estar você no trilho certo. Algumas vezes será, simplesmente, uma sensação de profunda, e consistente, paz interior. Isso é muito mais importante do que você consegue se dar conta. Se a paz é a condição inerente do reino, então sua mente tem de ser retornada a uma condição de paz, antes que ela consiga reentrar no reino. De outra forma, ela não se acomodaria nele. Isso seria o mesmo que tentar acomodar um bloco quadrado num espaço circular. A “paz de Deus que traz entendimento” é um pré-requisito para retornar ao lar. Repetindo, ela não é conquistada, em base permanente, até que toda culpa inconsciente haja sido removida da mente, pelo Divino Espírito Santo. E lembre-se do que lhe dissemos a respeito de ensinar: nada há de errado com a repetição. De fato, repetir é essencial.

Gary Renard, trecho de “Sua realidade Imortal” (tradução M.Thereza de B.Camargo), pg .41

[2]

“Parece que a maioria das pessoas precisa experimentar uma grande dose de sofrimento antes que possam abandonar a resistência e aceitar — antes de perdoarem. Assim que perdoam, um dos maiores milagres acontecem: o despertar do Ser-consciência através do que parece o mal, a transmutação do sofrimento em paz interior. O efeito último de todo mal e sofrimento no mundo é que forcará os humanos a perceberam que estão além do nome e da forma. Assim, o que percebemos como mal, de uma perspectiva limitada, é na verdade parte de um bem maior que não tem contrário. Isso, entretanto, não se torna verdade para você exceto através do perdão. Até que isso aconteça, o mal não foi perdoado e portanto permanece como mal. Através do perdão, que essencialmente significa reconhecer a insubstancialidade do passado e permitir que o momento presente seja como é, o milagre da transformação acontece não somente dentro, mas também fora”.

Eckhart Tolle, trecho de “O Poder do Agora”, pgs.179-180

 

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Foto: Troy Mason (licença de uso BY, de Creative Commons – link)

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

4 Comentários

  • Nando, muitíssimo grato mesmo pela postagem; talvez voce não saiba o quanto ajuda a todos no processo evolutivo que, como diz no texto, é hercúlea. Sempre busquei conhecimentos como os que voce disponibiliza de tão bom grado.

    “Através do perdão, que essencialmente significa reconhecer a insubstancialidade do passado e permitir que o momento presente seja como é, o milagre da transformação acontece não somente dentro, mas também fora.”

    Grato

  • Na verdade só existimos aqui e agora, não outro modo. Não há nada que tenhamos de fazer para viver no agora, a ilusão de existir noutros momentos são meros pensamentos, crenças que pululam na mente e que são reais para nós, enquanto humanos, porque lhe dedicamos a nossa atenção e nos limitamos por essas crenças e pensamentos. Desapegando desses pensamentos,dessas crenças tomamos consciência que somos o espaço onde eles ocorrem, mas eles não nos definem. Quanto ao perdão, este apenas tem a ver connosco próprios e não com os outros. O perdão permite criar espaço na nossa atenção para relembrarmos quem somos e fazendo-o iremos concluir que na verdade nada há a perdoar. Aquilo que somos agora é perfeito tal como é, e isso que somos é muito mais do que aquilo que pensamos que somos.

  • Parabéns pelo texto, realmente quando trabalhamos o passado e o presente juntos, o Aqui e Agora , necessitamos do discernimento e do perdão, senão a nossa escravidão será eterna. obrigada por dividir os seu textos e o seu conhecimento, isso ajuda muito mesmo. grande abraço e muita luz no seu caminho.

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