O “corpo de dor” de Eckhart Tolle [2]: quanto tempo precisamos para nos libertar dele?

Como continuação do tema do “corpo da dor“, conceito que Eckhart Tolle usa para definir o “acúmulo de antigas dores emocionais” que carregamos conosco, ou seja, que mantemos em nosso campo energético através da identificação com elas, e assim “re-sofremos” no momento presente, segue abaixo um trecho do capítulo “A Libertação”, intitulado “A libertação do Corpo da Dor” — do mesmo livro “O Despertar de Uma Nova Consciência” (Sextante, 2005). No post anterior, trouxemos um vídeo dublado onde Eckhart explica basicamente o processo do “corpo de dor”, e agora ele responde quanto tempo leva e o que está implicado na libertação deste corpo.

Enquanto conhecer intelectualmente o processo pode ser revelador e simplificador – afinal, o que pode ser mais entusiasmante do que saber que o processo não leva tempo algum? — experimentá-lo não é tão simples. Já li diversas críticas à aparente simplicidade que é colocada nesse lema do “viva o momento presente”, cada vez mais divulgado em diversas abordagens psicológicas e espirituais, mas o próprio Eckhart chama a atenção para os vários cuidados a serem tomados nesse processo. Não é “apenas” ter consciência de, e nesse trecho abaixo em particular ele cita a necessidade de agir com aceitação, por exemplo, pois, entre outras coisas, “o ego adora quando você faz de si mesmo um problema”. Assim vamos notando que a atitude de não-identificação é mais ampla (do que apenas a um tipo de emoção).

Segue o trecho do capítulo “A Libertação do Corpo de Dor”:

“Uma pergunta que as pessoas costumam fazer é: “De quanto tempo precisamos para nos libertar do corpo de dor?” Evidentemente, isso depende tanto da densidade do corpo de dor (quanto do grau ou da intensidade da presença manifestada de cada um de nós. No entanto, não é o corpo de dor, e sim a identificação com ele que causa o sofrimento que infligimos a nós mesmos e aos outros. É essa identificação que nos leva a reviver o passado vezes sem conta e nos mantém no estado de inconsciência. Assim, uma pergunta mais importante a fazer seria esta: “De quanto tempo necessitamos para nos libertar da identificação com o corpo de dor?

A resposta a essa pergunta é: não demora tempo nenhum. Sempre que o corpo de dor estiver em atividade, temos que estar cientes de que o que estamos sentindo é o corpo de dor em nós. Esse conhecimento é tudo de que precisamos para interromper a identificação com ele. E, quando essa identificação cessa, a transmutação tem início. O conhecimento impede que as emoções antigas surjam na nossa cabeça e controlem não só o dialogo interior como também nossas ações e interações com as pessoas. Assim, o corpo de dor não conseguirá mais nos usar e se renovar por nosso intermédio. As antigas emoções podem ainda viver em nós por algum tempo e aparecer de vez em quando. Talvez também nos enganem ocasionalmente, fazendo com que nos identifiquemos com elas de novo e, desse modo, obscureçam o conhecimento, porém não por muito tempo. Não projetarmos as antigas emoçõees nas situações significa que devemos encará-las diretamente dentro de nós. Pode não ser agradável, mas isso não chega a nos matar. Nossa presença é mais do que capaz de contê?-las. As emoções não são quem nós somos.

Portanto, quando sentir o corpo de dor, não cometa o equívoco de pensar que existe algo errado com você. O ego adora quando você faz de si mesmo um problema. O conhecimento precisa ser seguido pela aceitação. Qualquer outra coisa irá obscurecê-lo novamente. Aceitação significa que você se permite sentir qualquer coisa naquele momento. Isso é parte da essência do Agora. Você não pode discutir com o que é. Bem, você pode. No entanto, se fizer isso, sofrerá. Por meio da aceitação, você se torna o que você é: vasto, pleno de espaço. Transforma-se no todo. Não é mais um fragmento, que é como o ego vê a si mesmo. Sua natureza verdadeira emerge, e ela está unificada com a natureza de Deus.”

ECKHART TOLLE, em “O Despertar de Uma Nova Consciência”, pg 161

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

2 Comentários

  • Boa tarde. Ótimo esclarecimento! “Não é “apenas” ter consciência de, e nesse trecho abaixo em particular ele cita a necessidade de agir com aceitação”. Realmente a abordagem do Tolle sobre o “Poder do Agora” é simples e esclarecedor mas o importante é conscientizar e agir com aceitação.

  • Lembrei de outro post:
    “O ponto de estrangulamento do Medo:- O ponto de estrangulamento do medo não é causado pelo condicionamento, mas pela decisão a meu respeito, tomada com base naquele condicionamento. Felizmente, como essa decisão é composta por pensamentos e reflete-se em contração corporal, ela pode ser minha mestra quando me experimento neste exato momento.
    ~C. Joko Beck
    Acho que a abordagem de Tolle se complementa com a da Mestra Joko. Entendo que o que Tolle chama de corpo da dor seria o mesmo que a mestra Joko chama de contração corporal, na verdade um estado contraído de identificação com uma estrutura cármica. o que é mais animador e que não precisamos assumir este trabalho infindável de iluminar cada uma das múltiplas estruturas cármicas, corpos de dor, e contrações corporais, basta que realizemos a não identificação com um eu-ego, é como cortar o mau pela raiz ao invés de ficar podando folhas e galhos de uma árvore enorme, nunca conseguiremos mata-lá!
    Valeu Nando!abraço fraterno _/\_

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