O “corpo da dor”, de Eckhart Tolle: o sofrimento presente que vem das identificações com sofrimentos passados

Uma das maneiras que sofremos e interrompemos o viver no momento presente é através da memória, principalmente da identificação inconsciente com algum evento passado que esteve carregado da emoção da dor: esse tipo de prisão é o que Eckhart Tolle, autor do aclamado “O Poder do Agora” (1999), chama de “corpo da dor” (pain body). No vídeo abaixo, ele discorre sobre esse tema e explica como a frequente reativação desse corpo da dor — algo comum em nosso comportamento, tanto que chega a chamar esse corpo de parasita — dispara uma cadeia de pensamentos negativos em nós, condenando nossa vida (“minha vida é terrível”), condenando nosso relacionamento com pessoas que convivemos ou qualquer outra coisa que possamos negativizar. A ação do “corpo de dor”, segundo Tolle, se dá porque nos identificamos com eventos de dor passados, no sentido de acharmos que somos aquela dor ou que ela faz parte de nossa identidade, e assim a repetimos no presente, reatualizando-a.

Apesar da identificação ser o problema, a solução não é fácil, pois depende do grau de identificação e de quanto tempo ela está em vigor. Em um trecho do livro citado, Tolle diz o seguinte:

“Toda emoção negativa que não é plenamente enfrentada nem considerada pelo que ela é no momento em que se manifesta não se dissipa por inteiro. Deixa atrás de si um traço remanescente de dor.”
— Eckhart Tolle, em “Um Novo Mundo – O Despertar de Uma Nova Consciência” (pg. 126)

Como as dores da vida começam a ser vividas desde quando começamos a viver, e na infância já começam a ser manipuladas, assim, quanto menos forem enfrentadas, mais o corpo de dor cresce e persiste. Eckhart diz que “as sobras de dor deixadas para trás a cada forte emoção negativa que não é enfrentada, aceita e depois abandonada de forma plena, juntam-se formando um campo energético que vive em cada uma das células do corpo. Elas incluem não só os sofrimentos da infância como as emoções dolorosas que se agregam a eles depois, na adolescência e durante a vida adulta”. O corpo de dor se torna, assim, uma entidade semi-autônoma, na definição do autor, e se alimenta de infelicidade.

É importante ler mais sobre isso porque chamar essa situação (?) de “corpo de dor” pode ser um pouco inexato. Esse corpo não é algo assim tão fora, é um campo que se formou e que se mistura energeticamente ao nosso organismo, e sem que continuemos lhe alimentando, se extingue. Como chegou a ser impresso nas células, como diz Eckhart, pode não ser facilmente extinto por decreto. É um fenômeno que se alimenta de inconsciência e que, portanto, precisa ser alvo da luz da consciência, e também da postura de não-identificação.

Esse é um assunto enorme, que envolve praticamente todas as formas de terapia e também, direta ou indiretamente, as sabedorias espirituais de todas as origens. Conhecer a si mesmo envolve, afinal, saber também quem e o que não somos. Em posts posteriores quero continuar desenvolvendo esse tema, inclusive com outros esclarecimentos do próprio Eckhart.

Segue o vídeo (4min) onde Tolle fala sobre “o corpo de dor“, apenas uma das diversas oportunidades onde ele fala sobre o tema, aqui traduzido e dublado pelo usuário “Eu sou”, do YouTube, a quem agradecemos. Abaixo do vídeo está a transcrição, feito por este blog.

TRANSCRIÇÃO:

“Quando o corpo de dor desperta, de repente seu pensamento se torna bastante negativo. Todo pensamento vai dizer alguma coisa negativa sobre vocês mesmo, ou sobre o mundo, ou sobre outras pessoas, ou sobre o local onde você mora, qualquer coisa… mas é sempre negativo, é sempre horrível, minha vida é horrível, as pessoas são todas horríveis, ou talvez foquem em uma pessoa que uma vez esteve em sua vida, que apenas conhecer aquela pessoa estragou o resto da sua vida. Minha ex-mulher, meu ex-marido, quem quer que seja, minha mãe, meu pai, o que eles fizeram comigo… Eu não estou dizendo que as pessoas não fazem coisas horríveis com outros humanos, sim elas fazem, mas o resíduo emocional deixado por algo horrível que alguém fez pra você uma vez e a memória deixada por alguma coisa horrível que alguém alguma vez fez contra você, isso vai determinar quem você sente e acha que você é?

Isso vai se tornar a base da sua identidade? Do seu sentido de eu?

Você quer dar tanto poder para uma pessoa inconsciente que anos atrás estava na sua vida?

Quer dar poder à inconsciência, e transformar a memória da dor, e o sentimento da dor emocional, em parte do que você é?

Isso é horrível. E ainda assim várias pessoas estão tão identificadas com a dor emocional que elas sentem que elas não querem deixar passar. Elas sentem que isso é o que elas são, elas falam sobre isso e dizem até que ‘eu sou um sobrevivente’ disso ou daquilo. É maravilhoso que você tenha sobrevivido a essa coisa horrível que aconteceu na sua infância, mas criar uma identidade pra você a partir disso? Isso limita você enormemente. É uma limitação horrível. Pelo resto da sua vida você é um sobrevivente de um abuso físico? Você se transforma em algo muito pequeno e diz ‘essa é a minha identidade’. E o ressentimento ou a mágoa e a dor fica como uma forma-pensamento na sua cabeça que precisa ser revivida periodicamente, você precisa pensar naquilo que alguém fez contra você uma vez pra você sentir a emoção antiga correspondente. Então algumas pessoas se identificam tanto com algumas formas-pensamento antigas, velhas, e essa forma-pensamento nela mesmo tem um ‘eu’, ‘eu sou aquele pensamento’, ‘eu sou aquela dor’, ‘eu sou aquela mágoa, aquele ressentimento’. E aquele ressentimento é uma parte essencial do ego. Então alguns egos não consistem de várias coisas diferentes com as quais se identificam, alguns egos são 80% de um pedaço de memória ou emoção, uma grande mágoa que se apegou à sua mente, que ficou presa na sua mente e quer ficar lá pro resto da sua vida.

E todos nós conhecemos pessoas desse tipo que… Se você ver isso em você mesmo talvez não seja, alguns de vocês talvez tenham um pouco disso, estou apenas descrevendo as formas mais extremas que também são comuns”.

— ECKHART TOLLE

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Compartilhado por Glenda Dias.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

5 Comentários

  • Bom dia. Recentemente li este livro de Eckhart Tolle, após outros livros do mesmo autor. Achei excelente a abordagem sobre o “corpo de dor” deste post e agradeço também pelo vídeo e sua transcrição. Nela dá para notar o que já suspeitava, referindo-se também como “forma pensamento” que já conhecia e provavelmente seja também o que a apometria da linha psíquica trata como personalidade múltipla e sub-personalidade.

    • Bom dia Yuzo, obrigado.

      Não sei exatamente o que você chama de personalidade múltipla ou sub-personalidade segundo a “apometria da linha psíquica”, mas o que entendo que Eckhart trata não é uma condição rara ou uma psicose, é um estado comum à humanidade, a você e eu, apenas com intensidades diferentes. É quase inerente à formação do ego. Assim, talvez ele esteja falando de uma condição da personalidade em si, e não de personalidade múltipla (embora, novamente, eu não saiba a que tipo de definição você se refere).

      ABS,
      Nando

  • Belo texto. Realmente, construímos uma identidade forte em torno do nosso sofrimento. Torna-se um ente querido, difícil de largar. Me faz refletir, de certa forma estamos construindo esta identidade em cima de um “lixo” emocional. Talvez não seja um conceito novo, mas a forma de Eckhart Tolle colocar o assunto, como um corpo de dor, algo quase palpável, parece bem original e interessante.

  • O livro UM NOVO MUNDO ( O DESPERTA DE UMA NOVA CONSCIÊNCIA) é interessante no ponto de vista psicológico e aborda de uma forma clara os perigos de deixarmos o passando dirigir nossa vida. Muitos fazem do passado uma desculpa para seu desânimo presente e usam isso como fonte de refúgio. Não há refúgio em permanecer no sofrimento e achar que o passado determinará o futuro. Quando permitimos esse tipo de negativismo morar em nosso corpo, alma e coração, estamos condenados ao fracasso. Agora, usar o termo bíblico “UM NOVO CÉU E NOVA TERRA” como algo fictício, é força de mais a barra. Sou cristão e ratifico cada palavra da bíblia como verdade absoluta. O senhor Eckhart Tolle foi infeliz ao tentar tirar a veracidade desse texto bíblico. Portanto, tirando alguns argumentos contraditórios, o livro é bem agradável.

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