Porque acontecem eventos sem sentido? Eckhart Tolle, a interdependência e o panorama maior dos eventos

Acho que não existe um ser humano sobre a Terra que não tenha feito essa pergunta a si mesmo (e/ou a outras pessoas) em algum momento da vida. Que diante de algum evento aparentemente incompreensível não tenha ficado perplexo com uma falta de sentido.

A resposta que Eckhart Tolle (“O Poder do Agora”, “Uma Nova Consciência”) dá a essa pergunta – porque acontecem eventos sem sentido? – neste vídeo abaixo não desfaz exatamente a perplexidade, mas invoca o reconhecimento das limitações da mente humana para descobrir a resposta (leia-se: todo o conjunto de causas participantes de todos os eventos “individuais”), e também afirma a interdependência de todas as coisas, um conceito antigo bastante familiar ao Budismo e que recentemente vem sendo melhor compreendido por parte da ciência moderna, como o próprio Eckhart cita na resposta. Isso tira um pouco o problema da dimensão do “não há resposta” para a dimensão do “há uma resposta, mas não é plenamente acessível”.

Eckhart aborda essa questão usando alguns exemplos, como a guerra do Vietnã e o subsequente – e “não completamente separado” – movimento de despertar espiritual que aconteceu nos Estados Unidos, especialmente na Costa Oeste, na década de 70. Para o reconhecimento dos limites da mente, ele cita o exemplo do fragmento de uma quadro, dizendo que tentar entender o fragmento sozinho seria um equívoco, enquanto olhar a obra inteira traria o entendimento.

Ainda que isso seja verdadeiro – as limitações e a interdependência – vejo que muitas vezes é usado para dar de ombros a alguma investigação e compreensão possível sobre esses eventos (ou uma parte deles). Algumas pessoas dizem, “ah, isso não dá pra entender, deixa pra lá”, quase como uma fuga da reflexão, ou talvez uma negação do próprio sentimento desconfortável que pode ser experimentado quando um evento “ruim” acontece. Por outro lado, também pode não ser frutífero ficar especulando indefinidamente sobre se o universo é eterno ou não, afinal isso pode ser uma resposta completamente inacessível ou que levaria muito tempo para ser desvendada.

Num dos discursos de Buda Gautama contido no cânone budista, especificamente no Culamalunkya Sutta, “O Pequeno Discurso para Malunkypta“, está escrito:

“Portanto, Malunkyaputta, lembre-se daquilo que eu deixei sem declarar como não declarado e lembre-se daquilo que eu declarei como declarado. E o que eu deixei sem declarar? ‘O mundo é eterno’ – eu deixei sem declarar. ‘O mundo não é eterno’– eu deixei sem declarar. ‘O mundo é finito’ – eu deixei sem declarar. ‘O mundo é infinito’– eu deixei sem declarar. ‘a alma e o corpo são a mesma coisa’ – eu deixei sem declarar. ‘A alma é uma coisa e o corpo é outra’– eu deixei sem declarar. ‘Após a morte um Tathagata existe’ – eu deixei sem declarar. ‘Após a morte um Tathagata não existe’ – eu deixei sem declarar. ‘Após a morte um Tathagata tanto existe como não existe’ – eu deixei sem declarar. ‘Após a morte um Tathagata nem existe, nem não existe’– eu deixei sem declarar.

Porque eu não declararei isso? Porque não traz beneficio, não pertence aos fundamentos da vida santa, não conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbana. É por isso que eu não declarei isso.

E o que eu declarei? ‘Isto é sofrimento’ – eu declarei. ‘Esta é a origem do sofrimento’ – eu declarei. ‘Esta é a cessação do sofrimento’ – eu declarei. ‘Este é o caminho que conduz à cessação do sofrimento’ – eu declarei.

 “Porque declarei isso? Porque traz benefício, pertence aos fundamentos da vida santa, conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbana. É por isso que eu declarei isso.

~ Trecho de Culamalunkya Sutta, Majjhima Nikaya 63, tradução: Acesso ao Insight.

Eckhart encerra a resposta com a mensagem de silêncio e espaciosidade que está na maioria da sua obra, uma dimensão não exatamente mental mas que inclui como parte da resposta.

Segue o vídeo (9min52seg) com a resposta de Eckhart Tolle, do DVD “Practicing Presence” (2005), traduzido e legendado por Paulo de Azambuja Rodrigues, com gratidão a ambos.

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Foto: detalhe de um fragmento de “Wheatfield under thunderclouds” (1890), de Vincent Van Gogh, por WLANL/Techdiva 1.0, licença de uso CC BY-SA 2.0

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

3 Comentários

  • Não posso deixar de dizer isto…Sempre fico impressionada com a capacidade que alguns seres humanos têm em nos chamar a atenção para o que se passa à nossa volta…principalmente quando nós, momentaneamente ou por longos períodos de tempo, somos levados nesse “furacão” chamado “inconsciência coletiva”. Hoje, mais uma vez, agradeço por estas palavras terem chegado até mim.

  • Ouvir Eckhart Tolle é sempre uma benção!!!! Já li todos os seus livros e vejo tudo o que posso nos videos… Me faz chegar mais perto de outras dimensões e de uma Consciência Maior… Sinto uma paz esclarecedora apesar do caos e do sofrimento do mundo. Tudo tem uma explicação e me sinto fazendo parte desse coletivo no Universo.

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