“No nível interior, talvez nada realmente nos ataque exceto nossa própria confusão”, Pema Chödron

“Em relação ao nível interior de obstáculos, talvez nada realmente nos ataque exceto nossa própria confusão. Talvez não exista um obstáculo sólido exceto nossa própria necessidade de nos proteger de sermos tocados. Talvez o único inimigo seja que nós não gostamos do jeito que a realidade é agora e então desejar que ela vá embora rápido. Mas o que nós descobrimos como praticantes é que nada jamais vai embora até que tenha nos ensinado o que precisamos saber. Mesmo se corrermos a mil quilômetros por hora até o outro lado do continente, encontraremos o mesmo problema lá nos esperando quando chegarmos. Ele fica retornando com novos nomes, novas formas e novas manifestações até que aprendamos o que ele tem pra nos ensinar: Onde estamos separados da realidade? Como estamos nos retraindo ao invés de nos abrindo? Como estamos nos fechando ao invés de nos permitir experimentar inteiramente o que quer que encontremos?”
~ Pema Chödron, em “Comfortable With Uncertainty: 108 Teachings on Cultivating Fearlessness and Compassion” (2003)

O mesmo sentido desse parágrafo está em vários ensinamentos de vários outros autores e mestres, cada um com sua abordagem. É atribuída ao psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961), por exemplo, a máxima “o que você resiste, persiste“, que traz um significado semelhante ao que transmite a monja budista Pema Chödron nesse trecho do livro “Comfortable With Uncertainty“, traduzido acima.

Nossos problemas interiores, ou o “nível interior de obstáculos”, são como riscos ou distorções na lente de um óculos que usamos pra ver a realidade: buscar consertar os objetos exteriores que parecem “riscados” ou “distorcidos” é inútil. Cada proteção que usamos para não sermos tocados, cada desejo que temos de que a realidade “vá embora rápido”, cada retração ou separação é ou vem de um risco na lente dos óculos. Talvez Pema Chödron se refira à confusão originalmente como o problema de não sabermos que os obstáculos estão nos óculos (na visão, na atitude de resistência ou evitação) e não na realidade, e por isso ela alerta que não adianta corrermos para lá e para cá para evitar esse ou aquele problema – não enquanto nossas lentes estiverem distorcendo a realidade. Mas “lentes” e “óculos” também são apenas metáforas: nossos problemas são nossos próprios (pré-)conceitos e idéias e sensações gravadas sobre a realidade, e nossa identificação repetida com eles.

As perguntas que ela faz no final do parágrafo são ótimas para iniciar esse diagnóstico das nossas próprias lentes. “Como estamos nos retraindo ao invés de nos abrindo?“. Como nos protegemos ao invés de vivermos aberta e livremente? Nossas escolhas no dia-a-dia refletem que tipo de viver? De que temos medo? Planejamos as coisas para que consigamos o que, e evitamos o que mais? Se fôssemos fluir mais livremente e harmonicamente com a vida, o que soltaríamos?

É preciso um olhar profundo e corajoso para ver essas coisas. “Nossa própria confusão” pode ser uma expressão simples, mas aponta para uma investigação profunda, que afeta dimensões cognitivas e culturais de nós mesmos. Por isso é preciso, também, um olhar compassivo para si mesmo.

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Ilustração de Michael Borkowsky (licença de uso BY-NC-ND de Creative Commons) (link).

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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