Ajahn Brahm e a arte de não fazer nada: “essencial para sobrevivermos na vida cotidiana”

É normal que nossa atenção, depois de ler intensamente sobre um determinado assunto, encontre em outras manifestações ao redor algo do mesmo tema, mas foi curioso ter encontrado uma referência aos semáforos e aos sinais vermelhos no meio de um livro de 300 páginas do monge Ajahn Brahm, “Mindfulness, Bliss, and Beyond: A Meditator’s Handbook” (2006), logo depois de ter publicado esta semana o post sobre outro monge, Thich Nhat Hanh, falando sobre a arte de parar usando o mesmo método, os sinais vermelhos (em “Como manter a atenção plena em um ambiente de trabalho movimentado? Thich Nhat Hanh responde“, 15/05/14). Talvez haja muito trânsito pra pouca meditação nos tempos atuais, e a mensagem esteja precisando aparecer.

Traduzi o trecho e segue abaixo. Ele faz parte da última parte do livro (“Conclusion”), sob o título “Learning How To Do Nothing“, pgs 263-264. Boa leitura e boas paradas nos próximos sinais vermelhos.

“Soltar, diminuir o ritmo e parar não são apenas essenciais para chegar à iluminação, mas também cruciais para sobrevivermos na vida cotidiana. O estresse, que é causado por não saber como não fazer nada, é a mais essencial arma de destruição em massa. Tantas doenças, mentais e físicas, são causadas por estresse. Há três séculos e meio, o filósofo francês Blaise Pascal reconheceu isso quando disse, “Todos os problemas do homem vem de não saber sentar e parar”.

 

Em uma parte do tempo não há nada a fazer. Mesmo assim nessas horas você é incapaz de não fazer nada. Você esqueceu como é isso. Por isso você se debate inutilmente. Se você fosse sábio, quando não houvesse nada para fazer então você não faria nada! Faz tanto sentido.

 

Todos nós precisamos aprender a não fazer nada para que nas horas certas possamos descansar e relaxar. Felizmente, para aqueles que não tem a oportunidade de ir aos mosteiros, professores estão disponíveis em bom número na maioria das cidades modernas. Eles podem ser encontrados nos grandes cruzamentos. Eles são os semáforos. Quando a luz vermelha aparecer, ela diz “Pare!”. Essa é a prática de soltar. Você já aprendeu a não fazer nada quando o sinal fica vermelho? Ou somente o carro para enquanto você continua correndo? Se é assim, então uma oportunidade está sendo perdida. No sinal vermelho, você pode abrir sua mente ao presente e permitir a paz e a beleza inesperadas aparecerem ao seu redor. Já ouvi, mas ainda não vi, que na capital da espiritual Índia, Nova Delhi, quando o sinal vermelho se ativa aparecem cinco letras, r, e, l, a, x: relax (relaxe). Não são sinais de pare, são sinais de relaxe. Que ótima idéia. Se não é verdade, deveria ser!

 

Se você não reservar um tempo para aprender a não fazer nada, se você não é capaz de relaxar num sinal vermelho da vida, então brevemente você será forçado a parar num túmulo precoce. Como diz aquele ditado antigo, “A morte é o jeito da natureza forçá-lo a diminuir o ritmo”. Recomendo a meditação no lugar da morte prematura.”

 

~ Ajahn Brahm, em “Mindfulness, Bliss, and Beyond: A Meditator’s Handbook”

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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