Agora o que tem a ver o trabalho sobre si mesmo com o fato de você protestar, abandonar ou se engajar? Ram Dass responde

Aumentar a consciência de si mesmo é aumentar a consciência do universo e ajudar a todas as pessoas, dentro ou fora desta ou daquela ação social. Ram Dass viveu a contracultura dos Anos 60 nos Estados Unidos e entende disso, como bem escreve neste trecho do livro “The Only Dance There Is” (A Única Dança Que Há), parte de discursos de 1970 e 1972 que ele deu nos Estados Unidos, apenas alguns anos depois de encontrar seu mestre Neem Karoli Baba (?-1973), que viraria livro em 1974. Hoje Ram Dass mantém diversas instituições sociais, como a Seva Foundation, e trabalha no Hawaii com instruções e palestras.

O texto original tem o título “Increasing The Amount of Consciousness” (Aumentando a Quantia de Consciência) e foi publicado em janeiro desse ano no site oficial de Ram Dass, em ramdass.org, e segue traduzido abaixo.

“Agora o que tem a ver o trabalho sobre si mesmo com o fato de você protestar, marchar, abandonar ou se engajar? Nada, não tem nada a ver uma coisa com a outra, porque a todo momento você é a consciência envolta num pacote da natureza. Esse pacote da natureza inclui sua hereditariedade, seu ambiente, todas as suas características de personalidade,  todas as oportunidades que existem neste momento, todas as suas atitudes, todas as suas predisposições – o pacote inteiro. Esse pacote está funcionando sobre todas as leis do karma e as leis do universo. Em outras palavras, esse pacote está desabrochando. Está apenas se abrindo e se desenvolvendo de acordo com as leis existentes. Conforme você vai ficando mais consciente, entretanto, cada ato que você realiza aumenta a quantidade de consciência no universo, porque o ato em si mesmo transmite a consciência. Em outras palavras, eu poderia lhe dizer as maiores verdades do mundo, mas se você não entendê-las por dentro, esqueça, porque tudo que estou fazendo é tirando de um lugar e colocando em outro e não estou lhe dando a chave que lhe permite usá-la, que é a “crença” nela, que só posso transmitir através do meu próprio sucesso no que quer que eu esteja fazendo.

Então, com isso tudo dito, é bastante visível que conforme você trabalha em si mesmo, sobre sua consciência, você continua a fazer a dança que está fazendo ou a dança evolui. Quando você está consciente, você começa a ver como os atos que você realiza podem se tornar mais e mais adequados e melhores para as condições. Isto é, quando você está prestes a mudar uma lei no país você começa a entender a maneira que o sistema inteiro funciona conforme você se afasta um pouco, e vê o melhor ato que você pode fazer, e você vai e faz, e faz de maneira completa sem o apego emocional àquela ato, mas com a atenção de como aquele ato opera no sistema inteiro. Você ouve o que estou dizendo? Em outras palavras, é a habilidade de algumas vezes adiar a gratificação, se você puder, a habilidade de dar um passo atrás, para dar a resposta mais adequada. Algumas vezes é a coisa mais imediata a fazer. Em outras palavras, um pai pode ou pode não bater na criança. O pai pode ou não estar emocionalmente envolvido em bater na criança. O pai pode ou pode não entender totalmente quantas ramificações estão envolvidas em bater numa criança. Estes são todos lugares diferentes de onde eles podem agir.

Por isso, finalmente, a regra geral se aplica a toda ação, não importa se você me diz que o mundo vai acabar amanhã ou daqui a cinco anos ou dez anos ou que os bandidos vão vencer ou que os mocinhos vão vencer, ou que tudo depende de mim, ou que temos que nos unir e fazer algo. Tudo isso me leva à mesma resposta: Vou trabalhar sobre eu mesmo, já que o trabalho sobre si mesmo vai ser a coisa mais elevada que posso fazer por todos, pois entendo que conforme o homem eleva sua própria consciência, ele vê mais soluções criativas para os problemas que está enfrentando. Portanto, sempre alimenta de volta o mesmo lugar. Mas trabalhar sobre eu mesmo é como isso. Esta é a ação social do momento. E ainda assim, essa ação social é totalmente sem apego. Não posso estar preocupado se você pode saber isso ou não. Posso apenas fazer o que eu faço porque no momento que me preocupo, sou pego. No momento que sou pego eu posso pegar você também.”

~ Ram Dass, em “The Only Dance There Is” (1974)

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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