Interdependência: mais uma rica visão do Dalai Lama sobre o cerne dos ensinamentos do Buda

Há duas semanas foi publicado aqui uma abordagem de S.S. o XIV Dalai Lama, Tenzin Gyatso, sobre a lei da interdependência: “Uma visão da lei natural da interdependência, ensinamento central do Buda, nas palavras do Dalai Lama“. Nas palavras do Buda, a interdependência “está no cerne dos ensinamentos“, e consequentemente por isso há vários discursos do Dalai Lama sobre esse assunto, como mais este importante abaixo, do livro “Uma Ética Para o Novo Milênio” (Sextante, 1999) — milênio que é este em que estamos vivendo.  O trecho está no capítulo 3, cujo enunciando é nada menos que “A Origem Dependente e a Natureza da Realidade“, e neste pedaço, diferentemente do anterior, o Dalai Lama se aprofunda um pouco em alguns aspectos da interdependência, como os cognitivas e físicos, além dos culturais, e as conexão com o problema da percepção humana da realidade e a felicidade.

A escola budista Madhayamika, que o Dalai Lama cita como inspiração para essa abordagem da interdependência, traduzida como a escola do “Caminho do Meio”, foi criada pelo célebro filósofo e mestre Nagarjuna (aprox 150 – aprox 250). De acordo com ela, todos os fenômenos são desprovidos de essência ou substância, ou seja, são inerentemente vazios. Não é que não existem, mas que existem diferentemente do que imaginamos, existem todos juntos e impermanentemente. Na apresentação de Dalai Lama abaixo (obviamente) isso fica mais claro.

Eis o texto:

“(…) A lacuna que costuma haver entre o modo como percebemos os fenômenos e a realidade de uma determinada situação – é origem de muita infelicidade. Isso acontece principalmente quando, como no exemplo que dei, fazemos julgamentos com base em uma compreensão parcial que acaba por não se justificar por completo. Antes de considerar em que deve consistir uma revolução espiritual e ética, vamos refletir um pouco sobre a natureza da realidade. A estreita ligação entre a percepção que temos de nós mesmos em relação ao mundo que habitamos e o nosso comportamento em função disso mostra que a nossa compreensão dos fenômenos tem um significado decisivo.

 

Se não compreendemos os fenômenos, nos arriscamos a fazer coisas que não só nos prejudicam como os outros. Quando se examina o assunto verifica-se que não é possível separar qualquer fenômeno do contexto de outros fenômenos. Podemos apenas falar de relacionamentos. Durante a nossa vida diária, nos envolvemos em inúmeras atividades diferentes e recebemos um enorme estímulo sensorial vindo de tudo com que nos deparamos. O problema dos erros de percepção, que, é claro, tem graus variados, costuma surgir por causa da nossa tendência de isolar aspectos particulares de um acontecimento ou experiência e vê-los como se constituíssem uma totalidade. Isso leva a um estreitamento da perspectiva e daí a falsas expectativas. Se, porém, consideramos a realidade, logo nos conscientizamos de sua infinita complexidade e nos damos conta de que a maneira como a percebemos habitualmente é muitas vezes incorreta. Se não fosse assim, a noção de engano não existiria. Se as coisas e acontecimentos sempre evoluíssem de acordo com as nossas expectativas, não teríamos o conceito de ilusão ou de equívoco.

 

Como um recurso para compreender essa complexidade, considero particularmente útil o conceito de origem dependente formulado pela escola de filosofia buddhista Madhyamika. De acordo com esse conceito, podemos compreender como as coisas ocorrem de três maneiras diferentes.

 

Num primeiro nível, recorre-se ao princípio de causa e efeito, pelo qual todas as coisas e acontecimentos surgem dependendo de uma complexa rede de causas e condições relacionadas entre si. Sendo assim, nada nem nenhum acontecimento pode vir a existir ou permanecer existindo por si só. Por exemplo, se eu pegar um punhado de barro e moldá-lo, posso fazer um vaso vir a existir. O vaso existe como resultado de meus atos. Ao mesmo tempo, é também o resultado de uma miríade de outras causas e condições. Estas abrangem a combinação de barro e água que forma a matéria-prima do vaso. Em acréscimo, há o agrupamento das moléculas, dos átomos e outras diminutas partículas que formam esses componentes. Em seguida, é preciso levar em conta as circunstâncias que levavam à minha decisão de fazer um vaso. E existem ainda as condições que cooperam ou interferem nas minhas ações à medida que dou forma ao barro. Todos esses diferentes fatores deixam claro que meu vaso não pode vir a existir independentemente de suas causas e condições. Ou seja, ele tem uma origem dependente, sua criação está subordinada a essas causas e condições.

 

Num segundo nível, a interdependência pode ser compreendida em termos da mútua dependência que existe entre as partes e o todo. Sem as partes, não pode haver o todo e, sem o todo, o conceito de parte não tem sentido. A idéia de todo implica partes, mas cada uma dessas partes precisa ser considerada como um todo composto de suas próprias partes.

 

No terceiro nível, pode-se dizer que todos os fenômenos têm uma origem dependente porque, quando os analisamos, verificamos que, em essência, eles não possuem uma identidade. Isto pode ser compreendido melhor se pensarmos na maneira como nos referimos a certos fenômenos. Por exemplo, as palavras “ação” e “agente”: uma pressupõe a existência da outra. Assim como “pai” e “filho”. A pessoa só pode ser um pai se tiver filhos. E um filho ou uma filha são assim chamados apenas como referência ao fato de terem pais. A mesma relação de mútua dependência é vista na linguagem que utilizamos para definir ramos de atividade ou profissões. Determinados indivíduos são chamados de fazendeiros em função de seu trabalho no campo. Os médicos são assim chamados por causa de seu trabalho na área de medicina.

 

De maneira mais sutil, as coisas e acontecimentos podem ser compreendidos em termos de origem dependente quando, por exemplo perguntamos: o que é exatamente um vaso de barro? Quando procuramos algo que possa ser definido como sua identidade final, verificamos que a própria existência do vaso de barro — e, implicitamente, a de todos os outros fenômenos — é, até certo ponto, provisória e determinada pelas convenções. Quando indagamos se sua identidade é determinada por sua forma, sua função, suas partes específicas (ou seja, ser composto de barro, água, etc.), constatamos que a palavra “vaso” não passa de uma designação verbal. Não há uma única característica que se possa dizer que o identifica. Muito menos a totalidade de suas características. Podemos imaginar vasos de formas diferentes que não deixam de ser vasos. E porque só podemos realmente falar de sua existência em relação a uma rede complexa de causas e condições, se o encararmos segundo esta perspectiva, o vaso não tem de fato nenhuma propriedade que o defina. Em outras palavras, não existe em si ou por si, mas é antes de tudo originariamente dependente.

 

No que se refere aos fenômenos mentais, verificamos que mais uma vez existe uma dependência. Neste caso, entre aquele que percebe e aquilo que é percebido. Tomemos como exemplo a percepção de uma flor. Em primeiro lugar, para que se possa perceber uma flor é preciso haver um órgão sensível. Segundo, precisa haver uma condição — neste caso, a própria flor. Em terceiro, para que ocorra a percepção é preciso haver algo que direcione a atenção daquele que percebe para o objeto. Então, através da interação causal dessas condições, ocorre um acontecimento cognitivo a que chamamos de percepção de uma flor.

 

Agora vamos examinar em que consiste exatamente esse acontecimento. Seria apenas o funcionamento da faculdade sensorial? Seria apenas a interação entre essa faculdade sensorial e a própria flor? Ou seria outra coisa? Vemos que, no final, não conseguimos compreender o conceito de percepção a não ser dentro do contexto de uma intricada e imprecisa série de causas e condições.

 

Uma outra maneira de compreender o conceito de origem dependente é considerar o fenômeno do tempo. Em geral, presumimos que há uma entidade com existência independente a que chamamos de tempo. Falamos de tempo passado, presente e futuro. Entretanto, quando examinamos melhor o assunto, vemos que esse conceito também é uma convenção. Verificamos que a expressão “momento presente” é apenas um rótulo que indica a interface entre os tempos “passado” e “futuro”. Não podemos na realidade localizar com precisão o presente. O passado está apenas uma fração de segundo antes do suposto momento presente; apenas uma fração de segundo depois está o futuro. No entanto, se dissermos que o momento presente é “agora”, assim que acabarmos de pronunciar esta palavra ele já estará no passado. Se sustentássemos que, mesmo assim, deve haver um único momento indivisível pelo passado ou pelo futuro, não haveria nenhuma razão pra separarmos presente, passado e futuro. Se houvesse um único momento indivisível, só teríamos o presente. Sem o conceito de presente, porém, fica difícil falar de passado e futuro já que ambos sem dúvida dependem do presente. Além do mais, se nossa análise nos fizesse concluir que então o presente não existe, teríamos de negar não só uma convenção mundial, como também a nossa própria existência. De fato, quando começamos a analisar nossa experiência com relação ao tempo, vemos que o passado desaparece e o futuro ainda está para chegar. Experimentamos apenas o presente. E o presente só toma forma como dependente do passado e do futuro.

~ S.S. o XIV Dalai Lama, Tensin Gyatso, em “Uma Ética Para o Novo Milênio”, pgs 47 a 51 (Sextante, 1999)

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

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