Do vivo Bukowski: “Todos vamos morrer, só isso já deveria nos fazer amarmos uns aos outros, mas não faz”

Os dois trechos são do livro “O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio” (The Captain is Out to Lunch and the Sailors have taken over the Ship“, 1998), coleção de anotações do escrito germano-americano Henry Charles Bukowski Jr (1920-1994) de 1991 a 1993 e selecionadas pelo próprio poucos dias antes de morrer. Antes que algum apressado grande juiz dos critérios alheios apareça com condenações sobre os temas e a vida de Bukowski, e o que estaria porventura fazendo aqui (num “site de auto-conhecimento”), basta ler os trechos. Não há qualquer apologia ao alcoolismo ou à obscenidade, há a apologia à capacidade de pensar e entender, ao amor, ao viver. A vida de Bukowski cabe somente a ele, e, quem sabe até, tenha alguma coisa a ver justamente com isso que ele escreve.

[1]

“Não há nada mais para se lamentar a respeito da morte do que se lamenta o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas vivem ou não vivem até suas mortes. Elas não honram suas próprias vidas, elas mijam em suas próprias vidas. Elas a jogam fora. Idiotas de merda. Se concentram demais em sexo, filmes, dinheiro, família e sexo. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Logo esquecem como se pensa, deixam os outros pensarem por elas. Seus cérebros estão entulhados de algodão. São feias, falam feio, andam feio. Toque as grandes músicas do século para eles e eles não vão ouvir. A maioria das mortes das pessoas é um engano. Não sobrou nada para morrer”.
~ Charles Bukowski, em “O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio”

[2]

Todos vamos morrer, todos nós, que circo! Isso sozinho deveriam nos fazer amarmo-nos uns aos outros, mas não faz. Somos atterrorizados e achatados por trivialidades, somos comidos por nada.
~ Charles Bukowski, em “O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio”

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Foto: LP&M Blog.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

15 Comentários

  • Sensacional! Realmente, uma surpresa: não esperava encontrar meu escritor preferido citado neste site… O que ocorre com Bukowski é o mesmo que com artistas como Jim Morrison e outros: são incensados e conhecidos pelo lado “negativo” de suas vidas, e não pela beleza que sua arte trouxe ao mundo. Parabéns e obrigado, Nando!

    • Amigos, pelo que conheço de sua obra, creio ser pouco provável esta atribuição. O Bukowski não era afeito à nenhuma religião, pelo contrário, geralmente as atacava, apesar de ter esse lado terno e lírico, que é o que fez sua grande literatura. Acredito que ele se referia aqui mais à falta de ordem e organização no mundo, e ao egoísmo que rege a busca pelo poder, algo mais do tipo “quando o gato sai, os ratos fazem a festa…”. Mas, de qualquer forma, é uma metáfora muito interessante a sua, e uma boa sacada mesmo, GPC.

      Abraços,

      Richard.

  • Não gosto desta palavra “morte” porque dá idéia de finitude e é evidente que tal expressão só pode conceituar ao que se refere à materialidade.O espírito jamais ira morrer, pois é, em si mesmo, imortal e eterno apenas encarna e desencarna na matéria dando-lhe forma e vida. Temos que saber distinguir vida material de vida espiritual porque a vida da materialidade, manifesta através de um corpo biofísico, é cíclica e efêmera e por conseguinte limitada na sua dimensão de tempo, espaço e movimento. Quem dá vida ao corpo é o espírito com sua energia primordial, assim um corpo sem espírito é cadáver que se decompões e retorna ao seu estado primitivo atômico e o espírito retorna a sua verdadeira origem em outras dimensões. A questão do amor nada tem a ver com a morte do corpo que é um fenômeno natural, pois com ele morrem apenas as paixões que são predicados da materialidade biopsíquica do corpo humano. O amor é pura e simplesmente uma virtude de manifestação espiritual embora na vivência humana seja maculado pelas paixões. Os espíritos mais rudes possuem o potencial de amor, mas em estado latente é que precisa ser desenvolvido, através das reencarnações sucessivas. Todos possuimos a potencialidade de amor, porém os mais evoluidos amam e os menos evoluidos se apaixonam.

    • Acho que entendo, Antonio, mas já há evitação demais da morte, seja da palavra ou da realidade, não precisamos de mais. Mesmo que entendida como a finitude de uma dimensão, é preciso que seja parte visível da realidade. Da nossa realidade, espírito + corpo + o que vc quiser colocar nessa existência una. Se o espírito é imortal e eterno, não há porque temer nada. Mas se ele precisa vir ao homem, se precisa da vida, há que se enaltecer o homem, a vida, o amor e a morte. Há muita coisa que se perceber e aprender na finitude dos corpos e no amor entre os seres.

      Namastê.

    • Onde está seu espírito, besta selvagem
      Que foi desviada das florestas primevas?
      Que forma tem, que local habita, que papel desempenha no plano da natureza?
      Este espírito [aqui está] para decifrar um mistério
      Quem deseja a vã dualidade?
      Não serei eu suficiente a mim mesmo?
      Que tipo de coisa necessita de um eu no interior do próprio eu?

      Haji Abdu El-Yezdi

  • Alguns palavras são tão difíceis de serem explicadas que seria melhor que nem fôssem verbalizados algumas vezes, sob pena de serem atribuídos à algo ou alguém de modo equivocado… Uma palavra que tenho muito medo de usar é essa: “evoluído”. Que características tornam uma pessoa mais ou menos evoluída? Sob que ponto de vista? Contexto? Em quais nuances? E quem teria essa capacidade de fazer o julgamento: Você é mais? Você é menos? Em que e como isso poderia ser útil? As palavras são tão difíceis de ser usadas, que chegará o dia em que ficarei mudo. =) E ainda assim correrei o risco de machucar alguém…

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