“Caixas de mudança e o propósito da vida”: questões existenciais do dia-a-dia no texto intimista de Brian Jay Stanley

Embalando meus pertences quando me mudo sempre me dá uma pequena crise existencial. De repente, as paredes estão vazias. Buracos na parede ao invés de fotos alinhadas nos corredores. Meus pés, acostumados a um macio e colorido tapete Oriental agora sentem o chão duro e frio. Minhas estantes vazias não me cobrem mais com uma aura de cultura e história. Meus alto-falantes estão embalados, e a quietude me inquieta. Na preparação para a mudança, já me mudei para uma casa sem cor, sem calor e sem ressonância. Esse é o mesmo lugar que vivi todo esse tempo? Vendo meu lar tão familiar ser despojado e esvaziado é como ver a figura esquelética de um amigo no leito da morte. As paredes vazias e insignificantes parecem uma verdade escondida que forrei com meus pertences. Fico preocupado, a velha vida e a velha cor eram uma mentira? O significado humano é um poster na parede de gesso branco da natureza?
~ Brian Jay Stanley, em “Moving Boxes and The Meaning of Life

Uma pergunta e tanto. O peso psicológico do vazio físico e dos objetos inanimados numa mudança de “lar” às vezes é realmente penetrante e escurecedora. Nas palavras de Brian Jay Stanley, quase um ensaio do próprio enterro. Mas o que está acontecendo?

O “morador” que escreve o texto está consciente enquanto está se mudando, está percebendo que é um momento de transformação de uma circunstância física para outra circunstância física, e questiona a aparente ausência de significado que um ambiente inanimado parece induzir. A pergunta que ele se faz é espinhosa: seríamos apenas uma membro temporário da existência num ambiente neutro (universo)? Seria o significado da vida apenas um passatempo mental?

O que Brian está vendo exatamente nas caixas e nas paredes vazias? O significado que ele busca e parece sentir ausente estaria nas paredes e caixas? Ou nele mesmo? Nossa vida é apenas um espaço sem significado entre dois momentos? Naquele apartamento vazio, a percepção da morte é real ou uma vertigem psicológica causada pelo predomínio de coisas inanimadas? Seriam essas coisas inanimadas de fato inanimadas, ou, em algum nível, parte das infinitas redes criadas pela vida? Indo além, o que é a busca do significado? O que a vida muda se houver ou não significado? Seria o significado um indicador que buscamos para saber se nossa vida não se resume a ela mesma?

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Foto de Brad Smith (licença de uso BY-NC-ND Creative Commons)

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

4 Comentários

  • São questões intrigantes e até interessantes. Mas penso que se nos apegamos a tantos questionamentos a respeito da vida acabamos esquecendo do que é mais importante (e simples): o estar vivo.

  • Mesmo se nós formos apenas um membro temporário da existência num ambiente neutro, se considerado o fato de que antes de nascer não existimos por um período de tempo infinitamente longo, e que nosso tempo de vida comparado a isso é insignificante. Podemos concluir que nossa condição principal é de não-existência do que de existência. Isso de certa forma me conforta quando penso no sentido da vida e na morte.

  • Para mim somos eternos viajantes no tempo e no espaço,na vida e na morte.O espírito se prepara para a viagem da vida e na vida se prepara para a viagem da morte.A partir do momento que temos a consciência de que somos uma energia em movimento,no tempo e no espaço,podemos iniciar a reflexão de como queremos que seja essa energia,para que a próxima viagem seja melhor do que a anterior.
    O que devemos praticar? O que devemos cultivar?
    Penso que é uma boa reflexão para que uma viagem após a outra sejamos cada vez melhor.

  • É preciso saber valorizar o agora, porque literalmente é o único momento que existe; lembrar do passado pode fazer sentir apego; e o futuro ainda não chegou, libertando nosso agora, nos libertamos e o futuro chega por si só.

    Grande abraço,
    Cheferson Amaro

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