5 notas sobre o estado da civilização moderna e suas metas de vida, pelo sábio yogue Swami Sivananda

Ele não está mais vivendo e vendo a “civilização moderna” desde 1963, quando morreu às margens do Rio Ganges, na Índia, mas a visão é tão contemporânea que faz as palavras de Sri Swami Sivananda (1887-1963), um dos maiores mestres de Yoga da Índia, ser tão ou mais úteis hoje do que foi à sua época. Apesar de que, na linguagem e em alguns aconselhamentos deste texto, fique um tanto evidente a presença de um viés mais datada e rigoroso (como a sugestão de abandonar algumas opções de entretenimento comuns). Chama a atenção que essas sentenças pareçam um retrato “negativo” da sociedade, mas também chama a atenção como o “homem moderno” andou em direção a uma certa decadência de princípios e atitudes – “Ninguém cumpre promessas”, “O pai não tem confiança no filho”, “A paixão domina o mundo todo”, etc.

Fundador da Divine Life Society e autor de quase 300 livros sobre a vida espiritual, Swami Sivananda é uma grande e respeitada referência por seu trabalho de Yoga e Vedanta e suas instruções são reverenciadas e seguidas por vários estudantes do mundo atual, inclusive no Brasil (1, 2 e 3). As cinco anotações abaixo foram traduzidas pelo blog Yoga Ensinamentos e falam todas do estado da civilização moderna e da degeneração dos valores e da sabedoria espiritual em detrimento do dinheiro, do prazer e do egoísmo.

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O QUE É A CIVILIZAÇÃO
Por Swami Sivananda

1 – Na chamada civilização moderna, o homem não deseja mais que dinheiro. Morre por dinheiro. A maioria das pessoas toma seu desjejum às oito da manhã e imediatamente pegam o primeiro trem para chegar a suas oficinas e escritórios antes das nove. Não há descanso. O estômago e os intestinos se agitam violentamente, pelo que acabam padecendo de dispepsia e diversos problemas estomacais.

2 – Nesta chamada civilização moderna, a avareza, a paixão e o egoísmo aumentam dia a dia. O homem perdeu sua masculinidade. O filho leva o pai ao tribunal para conseguir sua parte da propriedade. A esposa se divorcia do esposo, casando-se com outro mais rico, mais belo e jovem. O irmão envenena o mais velho para ficar com suas propriedades. Há crueldade, desonestidade, injustiça e atrocidade em toda parte. Ninguém cumpre suas promessas. O pai não tem confiança no filho. A esposa não tem confiança em seu esposo, nem o marido a tem em sua esposa.

3 – O dever não é mais cumprido. As pessoas atuam segundo suas próprias ilusões e fantasias. Não existem obstáculos. Ao homem não lhe importa a instrução religiosa. A paixão domina o mundo todo. A discriminação, o pensar reto e a Vichara (indagação do Eu) desapareceram. Comer, beber e procriar são as metas da vida.

4 – Viajar num carro de luxo não é verdadeira civilização. Ter radares e helicópteros não é verdadeira civilização. Ter riquezas não é civilização. Possuir títulos e honras não é civilização. Ser honesto, humilde e devoto é civilização. Ser santo e compassivo é civilização. Estar provido de devoção e sabedoria é civilização. Possuir um espírito de serviço e sacrifício é civilização.

5 – Teremos que retornar à natureza e à vida natural. Teremos que adotar o viver simples e o pensamento elevado de nossos antepassados. Leve uma vida simples e natural. Vista-se com simplicidade. Caminhe diariamente. Abandone a leitura de romances e o cinema. Tome alimentos simples. Leve uma vida dura e trabalhadora. Seja autossuficiente. Não tenha serviçais. Reduza tuas necessidades. Seja honesto em teus relacionamentos. Ganhe o pão com o suor de teu rosto. Controla os sentidos e a mente. Pense em Deus. Cante Seu nome. Sinta Sua presença. Diga sempre a verdade. Aprende a discriminar. Aprende a levar uma vida divina imerso no mundo. Sirva a sociedade com o sentimento de estar servindo a Deus nela. Assim terás reconquistado tua Divindade e teu paraíso perdido.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

6 Comentários

  • Oi Nando! É de muita sabedoria mesmo. Não vivemos mais “explorando” as potencialidades de Ser humanos, no sentido de melhorar, engrandecer de forma plena e saudável. Hoje (e também ontem, no tempo do Swami Sivananda)vivemos como asnos, sem nenhuma qualidade de vida,priorizando atividades que não contribuem para nos fazer Seres melhores.

    O mais engraçado é que o padrão dito normal é esse mesmo, de viver alienado dentro da sociedade. E quando você tenta não reproduzir o mesmo padrão de comportamento você é esquisito, é fantasioso, é infantil e por ai vai.

    Esta questão do entretenimento vejo mais como isso mesmo, uma forma de estamos somente com alguns sentidos ‘alerta’ e nos afogarmos como zumbis em certas atividades. Por exemplo, assistir televisão. Podemos escolher maneiras mais valorosas de preencher essa necessidade de entretenimento, de diversão.

    Enfim…
    O texto é incrível e muito atual.
    Abraços,
    Paz,
    Flor

  • Gostei muito do texto nando…lembro claramente do dia que conversei com 1 amigo evangélico a respeito de algumas máximas de alguns escritores que achava bacana e o mesmo advertiu que aquilo nao era verdade etc…. e era mensagens positivas, textos que diziam muito sobre o ser humano. Bem, fiquei quieto e no dia seguinte o mesmo comentou sobre steve jobs alegando que o cara era brilhante etc… fiquei pensando a respeito do papo que tive com ele anteriormente. Vivemos uma época muito estranha, alguns sociólogos comentam sobre esta tal de pós-modernidade que é esta era do espetáculo… onde a imagem fala mais que os atos… Tem 1 palestra no café filosófico nao lembro qual onde 1 historiador da 1 exemplo sarcástico perfeito desta época: uma mae passeando com seu filho no carrinho encontra uma amiga e a mesma disse: que linda sua filha beltrana! e a mae responde: linda? você ainda nao a viu no instagram!!! esta e outras esquizofrenias sociais de nossa época.

    • Realmente estranho, Alexandre. Boas reflexões.

      Mas, no fundo, é um texto para sabermos onde estão os nossos valores. Qual é o nosso tipo (particular) de civilização, a do carro novo e da última tecnologia, ou da honestidade e do serviço à sociedade? Deveres, metas de vida, etc?

      Pra pensarmos.

      ABS,
      Nando

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