Se você quer um título universitário para compensar um complexo de inferioridade, abra mão do complexo: Joseph Campbell

Dois parágrafos desse texto do estudioso de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), do livro “Reflexões sobre a Arte de Viver” (Reflections on the Art of Living, 1991), já foram publicados aqui no ano passado, mas o trecho completo e mais forte segue abaixo, contendo a parte em que Campbell relata sua própria experiência de desistir da embalada carreira universitária para fazer o que realmente queria. “Não me deixavam ir para outro lugar e dar prosseguimento aos estudos, e por isto eu disse, vão para o inferno. Mudei-me para o campo e passei cinco anos lendo“, diz ele. “Nunca tirei meu Ph.D. Aprendi a viver com absolutamente nada. Estava livre e não tinha responsabilidades. Foi maravilhoso”.

Com edição esgotada nas livrarias, esse trecho do livro em português foi publicado pelo site Terra Mística, a quem agradeço pela disponibilização. O título original em inglês está disponível em livrarias americanas como a Amazon (com Kindle Edition, por U$6) aqui.

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REFLEXÕES SOBRE A ARTE DE VIVER” [TRECHO]
Por Joseph Campbell

Se você quer um título universitário para compensar um complexo de inferioridade, abra mão do complexo, pois ele é algo artificial.

Quando você cursa uma universidade, não faz aquilo que você quer fazer. Você descobre o que o professor quer que você faça para receber o diploma e faz isto. Se você quer o título para dar aulas, o ideal é fazer o curso da maneira mais rápida e fácil. Tendo recebido o diploma, aí você expande a sua educação.

Recebi uma bolsa de estudos na Europa, e fui cursar a Universidade de Paris. Estava dedicando-me ao francês e ao provençal medievais e à poesia dos trovadores. Quando cheguei à Europa, descobri a Arte Moderna: James Joyce, Picasso, Mondrian – toda aquela turma. Paris, em 1927-1928, era outra coisa. Depois, fui à Alemanha, comecei a estudar Sânscrito e me envolvi com o hinduismo. Depois Jung enquanto estudava na Alemanha. Tudo estava se abrindo – deste lado, daquele lado. Bem, a minha dúvida na época foi: “Devo voltar para aquela garrafa?” Meu interesse pelo romance celta se fora.

Fui à universidade e disse: “Olha, não quero voltar para aquela garrafa”. Tinha feito todas as matérias necessárias para o título; só precisava redigir a maldita tese. Não me deixavam ir para outro lugar e dar prosseguimento aos estudos, e por isto eu disse, vão para o inferno. Mudei-me para o campo e passei cinco anos lendo. Nunca tirei meu Ph.D. Aprendi a viver com absolutamente nada. Estava livre e não tinha responsabilidades. Foi maravilhoso.

É preciso coragem para fazer aquilo que você deseja.

Outras pessoas têm um monte de planos para você.

Ninguém quer que você faça o que você quer fazer.

Eles querem que você embarque na viagem deles, mas você pode fazer o que quiser.

Eu fiz isto. Fui para o mato e li durante cinco anos.

Foi entre 1929 e 1934, cinco anos. Fui para uma pequena cabana em Woodstock, Nova York, e mergulhei. Tudo que fazia era ler, ler, ler, e tomar notas. Foi na época da Grande Depressão. Eu não tinha dinheiro, mas havia uma importante distribuidora de livros em Nova York chamada Stechert – Hafner, e eu escrevia e pedia livros para eles – os livros de Frobenius eram caros – e eles me mandavam alguns exemplares, e eu não pagava. Era assim que as pessoas agiam durante a Depressão. Eles esperaram até eu conseguir um emprego, e então eu os paguei. Foi um gesto muito nobre. Fiquei realmente grato por eles.

Li Joyce, e Mann e Spengler. Spengler fala de Nietzsche. Vou a Nietzsche. Então, descubro que não se pode ler Nietzche sem ter lido Schopenhauer, e por isso vou a Schopenhauer. Descubro que não se pode ler Schopenhauer sem ter lido Kant. Então, vou a Kant.- bem, concordo, você pode começar daqui, mas é bem difícil. Depois Goethe.

Era excitante ver que Joyce estava na verdade, lidando com o mesmo material. Ele nunca menciona o nome de Schopenhauer, mas posso provar que esse foi uma figura importante na forma como Joyce construiu seu sistema.

Depois leio Jung e vejo que a estrutura de seu pensamento é basicamente a mesma de Spengler, e fico reunindo todo este material.

Não sei como passei esses cinco anos, mas estava convencido de que ainda sobreviveria a mais alguns. Lembro-me de uma ocasião em que tinha uma nota de um dólar na gaveta de uma cômoda, e eu sabia que enquanto ela estivesse ali, eu ainda contaria com meus recursos. Foi bárbaro. Eu não tinha responsabilidade, nenhuma. Era excitante – escrever meus comentários no diário, tentar descobrir o que eu queria. Ainda tenho tudo isto. Quando leio esse material hoje, não consigo acreditar. Na verdade, houve momentos em que quase pensei – quase pensei – “Caramba, gostaria que alguém me dissesse o que eu tenho de fazer”, algo assim Ser livre, implica tomar decisões, e cada decisão é uma decisão que altera o destino. É muito difícil encontrar alguma coisa no mundo exterior que se ajuste ao que o sistema dentro de você tanto anseia. Hoje, sinto que tive uma vida perfeita: aquilo de que precisava apareceu justamente quando eu precisava. Na época, eu precisava viver sem emprego durante cinco anos. Isso foi fundamental.

Como diz Schopenhauer, quando você analisa sua vida em retrospecto, tem a impressão de que seguiu um enredo, mas, no momento da ação, parece o caos: uma surpresa atrás da outra. Depois, mais tarde, você vê que foi perfeito. E tem uma teoria: se você estiver seguindo seu próprio caminho, as coisas virão até você. Como é seu próprio caminho, e ninguém o percorreu antes, não existe um precedente; logo, tudo que acontece é uma surpresa, e na hora certa.

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Foto do lago Yankeetowne, Woodstock, NY, por waywuwei (licença de uso BY-ND Creative Commons)

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

21 Comentários

    • Carradas, né Duarte. E o texto tem um “crescendo” interessante. A frase “Caramba, gostaria que alguém me dissesse o que eu tenho de fazer” é uma astronomicamente recorrente em nossos tempos.

    • É Nando. Mas eu acho que voçê é muito mais interessante do que pensa. Estes posts reflectem uma intenção que me fala fundo, sabe. Por isso quero acalentar seu trabalho – seja qual for a área da sua preferência – por ser altamente estimulante.
      Não é a toa que dei com seu blog!
      Olha, eu vou pular fora, vui. Sou suscetível a todo o tipo de comentários e opso entendê-los mal, pelo que vou desactivar comentários nos meus blogs por causa de todo o tipo de elitismo pró ou a favor, que ferem pra caramba! – mas vou reiterar meu encorajamento a você, cara. Tem muito para oferecer mesmo!
      Obrigado!

    • Ô, Amadeu, quanta generosidade. Obrigado por ter escrito tão boas coisas.
      Vc vai me deixar aqui pra me ferir sozinho? :)
      PS: Acabei de visitar teu site e passarei a frequentar, muito rico, me interessou bastante.
      Um abraço grande e volte (sempre),
      Nando

    • Flor,

      Definitivamente, andei três casas para trás e perdi uma rodada. (???)

      Você no seu Blog “PÁPRICA DOCE”, em 02/02/2013 – postou a mesmíssima matéria:
      “REFLEXÕES SOBRE A ARTE DE VIVER” [TRECHO] Por Joseph Campbell

      Na qual, há 12/13 dias atrás, eu ‘curti’, esperando passar os feriados para então te repassar 2 ou 3 contatos (maravilhosos ‘sebos’ no RJ), onde vc poderia verificar à disponibilidade de um exemplar, tão desejado, como explicitado lá, falando em meu nome- Pisc*.

      Quote:
      “Quem tiver este livro e quiser doar, vender, trocar ou emprestar por favor, entre em contato! ” Flor Baez (2/02/13)
      Unquote

      Agora já não sei!
      Ainda tens interesse em adquiri-lo?
      __/\__ (gasshô) Norma

  • Oi Nando,obrigada por partilhar textos tão provocadores.Vejo, pelos comentários, que somos muitos, os que se interessam por aprender mais sobre si e sobre o correto viver.
    Campbell foi realmente muito ousado!Mas convenhamos,largar toda uuma trilha que você já construiu,é um privilégio para poucos.Pode se dar ao luxo quem tem uma estrutura financeira sólida.Caso contrário seria uma tremenda irresponsabilidade em relação ao futuro e á família.
    Trabalhei mais de 30 anos com jovens adolescentes e pós adolescentes e posso afirmar, com certeza, que a maioria deles, incluindo a mim, quando naquela idade, não sabia bem o que queria fazer da vida.E a quilo que fazemos, acaba sendo resultado de condicionamentos anteriores,POSSIBILIDADES E OPORTUNIDADES, que ocorrem ao longo do tempo.Isto é regra geral mas, sem dúvidas, existem exceções.Raras, mas existem!
    Nando,é sempre uma alegria abrir o Dhamalog e conferir os textos da semana.
    Mais uma vez, obrigada.
    Abraços.

    • Graça,

      Que coisa boa ler o teu coment. e usufruir da tua ‘temperança’ no meu inbox!

      Já que justificastes (plenamente) o teu nome, eu escolho das três, a Aglaia = a claridade ( ‘a resplandecente’, ‘a que brilha’, ‘a esplendorosa’, ‘a esplêndida’) e que simbolizava a inteligência, o poder criativo e a intuição do intelecto, para reconhecer o mérito do J.Campbell, como mitólogo e para te agradecer o bem, que equilíbrio da tua abalizada opinião me fez.

      Boa sorte,
      __/\__ Norma

      ++++++++

      Dica para os que buscam a obra (raros) de J.Campbell – tentem um “rapport”* com à Astrologia (Astrólogos/estudantes vitalícios = a Astrologia/o ‘Caminho do Heroi’ é assim: todos os dias/pra toda vida/Sebos com bom acervo na área). Costumam funcionar – Pisc*.

      (*) – Desculpe-me( :\ ) mas ñ achei outra: “Rapport” é a capacidade de entrar no mundo de alguém, fazê-lo sentir que você o entende e que vocês têm um forte laço em comum. Bjo, Nac♥

  • Norma,
    Não fora a intensa consciência de minha ignorância, ficaria tentada pela vaidade, em decorrência de seus comentários gentis e elogiosos.Mas, contudo, agradeço!
    Abraços.
    Graça

  • Após a leitura do texto e, depois, dos comentários – com particular interesse na frase de Leminski, relembrada pelo Nando (“isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além…”) – posso compartilhar: caramba, acho que dá pra fazer o que eu realmente quero, sem ter que seguir a cartilha (e as loucas vaidades) da academia.

    Bom! :-)

    Muito agradecido.

  • Já fiz isso várias vezes. Uma época eu era casada, morava em Ipanema, ainda ia a UniverCidade, mas passava mesmo era o dia todinho na areia, no mar e lendo livros.

    Depois fui 5 anos seguidos a um lugar, veja você, há apenas uns poucos kilômetros de distância dessa Woodstock aí, em Nova York. Estava em Catskills Mountains e passava os dias inteiros lendo, meditando e curtindo a natureza.

    Depois em outra época passava os dias nas praias de Florianópolis, lendo, lendo e na época dava aulas de meditação.

    Agora, descobri uma biblioteca que tem muito mais do que eu jamais imaginei que vou poder ler, e já “envision” que passarei mais alguns anos entregue àqueles tesouros. Que maravilha.

    Acho que achei esse post aqui, porque hoje mesmo na biblioteca eu estava pensando nisso, que devia sacrificar algumas atividades atuais e cair matando nos estudos daqueles livros.

    Parece que o post veio só para me dizer: YES!!!

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