Já não tenho tempo para discutir assuntos inúteis de vidas alheias: o tempo do pastor “herege” Ricardo Gondim

“Contei meus anos
e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente
do que já vivi até agora.

 

Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas
percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

 

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.

 

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário-geral do coral.
“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.”
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…

 

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade.

 

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
o essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!”

~ Ricardo Gondim, “O Tempo que Foge” (do livro “Creio, Mas Tenho Dúvidas”)

O brasileiro Ricardo Gondim é teólogo e pastor evangélico, e essa é a primeira vez (que eu me lembre) de ter colocado alguma literatura de um pastor evangélico neste blog, embora do cânone cristão mais essencial já tenham passado alguns. Apesar da associação com o forte dogmatismo e com o fundamentalismo americano, o Evangelismo que Gondim profere parece ser outro, um mais franco, menos doutrinário e desprovido de interesses políticos — que o levou a dizer a frase já famosa “que Deus nos livre de um Brasil evangélico” (e que lhe rendeu o adjetivo de “herege da vez”) — que aceita a união gay e que condena noções de um Deus bíblico interventor. “É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana”, disse ele em uma entrevista à Carta Capital em 2011. De fato, não conheço Ricardo Gondim, mas este é um poema em que há realidade e sintonia com nossos tempos, e com nossa percepção de tempo nesses dias de escassez e pouca contemplação de si mesmo.

O texto acima é um desabafo poético e existencialista, de alguém que, como ele mesmo diz, “reflete muito sobre a banalidade da vida“; é uma visão pessoal de um brasileiro comum, mas também a síntese da voz de um líder religioso culto e destacado no Brasil.

PS: O texto acima é atribuido erroneamente ao escritor Rubem Alves (que é também um entusiasta da Teologia da Libertação) e também a Mário de Andrade (1893-1945), o saudoso escritor paulista e fundador do Modernismo brasileiro, em um equívoco duplo devido a um encurtamento do nome do filósofo angolano Mário Coelho Pinto de Andrade (1928-1990), cuja autoria também é atribuída. O próprio Gondim afirma ser o autor do texto.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

22 Comentários

    • (Antes de tudo: Texto precioso. Há muito rola na WEB um PPS ora com uma autoria ora com outra. Porém msg sempre válida) Nac

      Oi amigo,

      Você vai me desculpar, porque estou aqui também para aprender (sobre mim e sobre o que me cerca), mas não tenho vocação para ‘carneiro negro’ ou para fingir que não estou vendo (não acho ‘espiritual – rs). Se for o caso, corrija-me, me ensine, por favor.

      Mas esperei … quase 1.600 pares de olhos lerem … :)

      É que me preocupo muito com o que IMPORTO para minha vida, ou seja, a mim não basta que a ‘palavra’ seja bonita, faça sentido ou se foi matéria de ‘iluminação’ de terceiros. Afinal, nem tudo que reluz é ouro. Isso não é o mais importante, p/mim. Às vezes, uma simples frase de um estranho, atirada ao léu me atinge de maneira visceral e a levarei para toda a vida, quase convertida em dogma. Tem que funcionar na minha vida para ser . Não é didático. É sentido-vivido. Comigo não funcionam os exercícios copy & paste mentais, por mais inspirados que sejam. Ficam na superfície, rasos, logo esquecidos. É a melhor sistemática de aprendizado/expansão que eu defini para me bancar/estar ao meu lado, nas minhas buscas.

      Assim sendo , por favor me esclareça:

      ” O essencial é invisível aos olhos” Shaupenhaiser.

      (Não será Schopenhauer ? – )

      Bem, de qq forma a frase citada (apesar de ciente que muitos defendem o ‘domínio público’ para as ‘coisas boas’ – E a ruins? Ficam sem autoria? – Pisc*) sempre foi apontada como:

      L’essentiel est invisible pour les yeux (Cf. Saint-Exupéry, Le Petit Prince).

      “Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
      Antoine de Saint-Exupéry
      Le Petit Prince chapitres 20, 21 : rencontre avec le renard

      http://youtu.be/QwFn3kKFJ-c
      ” – Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il est très simple : on ne voit bien qu’avec le coeur. L’essentiel est invisible pour les yeux.
      – L’essentiel est invisible pour les yeux, répéta le petit prince, afin de se souvenir.
      – C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui fait ta rose si importante.
      – C’est le temps que j’ai perdu pour ma rose… fit le petit prince, afin de se souvenir. ”

      Obrigada e boa sorte, Norma

      P.S.: Fiquei triste : ADM outro Blog ativamente AKI e no seu, nem 1 ‘oi’. nos coments. de seus pp seguidores. :\ Nac♥

  • *** – O AUTOR TOCA NO PONTO FUNDAMENTAL DA EXISTÊNCIA HUMANO PRINCIPALMENTE EM NOSSOS DIAS. O CUIDAR DA VIDA ALHEIA EM DETRIMENTO DA SUA VIDA PRÓPRIA; É DE VITAL IMPORTÂNCIA DARMOS MAIS VALORES AS COISAS DE MAIS IMPORTÂNCIA QUE É A NOSSA VIDA; COISAS MAIS IMPORTANTES DO QUE O TRIVIAL; PENSEM NISSO? * – NAMASTE.

  • Nando:

    Sim, o Rubem Alves já publicou esse texto em forma de crônica, como sendo de sua autoria, assim como fez (e também Roberto Shiniashiky) com uma publicação O MORANGO, estória que deve ter origem no Zen ou outra tradição antiga. É comum alguns autores extrairem textos breves com profundo conteudo e publicarem livros, sem mencionar a fonte original do texto que ampliaram.
    Não interpretem os leitores do blog, este comentário, como mediocridade ou desfile de ego inflamado, é só uma opinião.
    Mas, independentemente disso, é bom que textos assim circulem de forma ampla, para que o seu conteudo, o ensinamento ali contido, seja conhecido e assimilado por muitos leitores.
    O poema INSTANTES, por exemplo, atribuido a Jorge Luiz Borges, e divulgado amplamente há muitos sóis e muitas luas, não é de autoria dele, assim como outro poema similar atribuido erroneamente a Gabriel Garcia Marques.
    Espero que os leitores me compreendam.

    • Oi Paulo, entendo teu ponto sim.

      Seria sensato e respeitoso se cada pessoa que se apoderasse de um texto, mesmo se for modificá-lo, que citasse a fonte original, em respeito, em gratidão, em retribuição e em referência, até para quem quiser ler mais ou saber de onde surgiu. Se é replicado ipsis literis, acho fundamental ter a referência do autor verdadeiro (embora na Internet nem sempre seja fácil encontrar, pelo contrário).

      Mas, de tudo, o conteúdo é sempre mais importante, isso está claro. É o que justifica estar aqui, ali e acolá. Se esse texto levou alguém a algum lugar, isso é mais importante do que o nome do piloto do barco.

      Grande abraço,
      Nando

    • “As mensagens do poema “Instantes” são belíssimas, mas foi escrito por Nadine Stair. Outros afirmam que existe uma publicação desse poema na Seleções Reader’s Digest de outubro de 1953, do escritor e humorista Don Herold (1889-1966). Acho que, como humorista, ele deve estar rindo no céu, vendo a confusão que seu poema foi capaz de causar nesta Terra.”

      http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=3121&titulo=Instantes:_a_historia_do_poema_que_nao_e_de_Borges

      Aki, Elisa Cunha, você pode lê-lo
      Fique bem, Norma
      acusando o recebimento de Newsletters antigas – rs)

  • Obrigado! Ainda não conhecia! Aproveitei a oportunidade para passear por alguns textos do site dele. Verifico que apesar de ter enveredado pela profissão de pastor religioso, o seu pensamento não pôde ficar confinado às margens castrantes e controladoras de um catolicismo dogmático e opressivo. Isso sempre acontece quando nos libertamos de preconceitos e autoridades e nos permitimos descobrir e viver plenamente a nossa natureza livre e criadora!

  • Considero completamente absurda e destituída de importância a questão sobre a autoria de textos ou palavras que enunciam verdades profundas referentes à nossa condição e natureza humana. Acho que elas não pertencem a ninguém! Se são verdades essenciais, qualquer ser humano as pode descobrir diretamente em si mesmo. E tem direito a expressá-las sem ter que fazer uma investigação literária para ver se alguém as terá mencionado anteriormente. Não há palavras originais. Todas as palavras são repetição. Não as criamos, apenas as utilizamos. Se a água é pura e fresca bebe-a e não te importes com o rótulo no cantil!
    “Homo sum; humani nil a me alienum puto.”! (“Sou homem; nada de humano me é estranho.”

    • Em princípío, sim, Pedro, absurda e destituída de importância. Num mundo onde todo mundo se respeita e zela por tudo, talvez não houvesse sequer a necessidade de assinar ou mostrar “autor” das coisas (embora seja difícil até mesmo definir autor como algo isolado). Na essência, não há.

      Mas na nossa fase de “transição”, onde pessoas vendem livros com textos inteiros de outros como se fossem seus, suas sabedorias, seus raciocínios, suas poesias, ou distorcem a palavra deste ou daquele em seu próprio benefício, da sua seita, e prejudicam esse outro com isso, pode haver na autoria correta um ato de formalidade de respeito, zelo e informação. Ao invés de confundir as pessoas na busca pelas verdades profundas, colocar pingos nos is pode ser um serviço de utilidade e direção. E de aprendizado necessário.

      Mas, concordo plenamente, o conteúdo é absoluto e o que importa. Como falei ali acima, se o barco levou a algum lugar, qual a diferença no nome do piloto?

      Abraço,
      Nando

  • Brilhante texto! Alio-me a este desabafo, que é por demais oportuno, em tempos de banalidades e perdas de tempos circundando tragédias e besteiróis nas mídias sociais. Que bom também que existe entre os evangélicos alguém com esse perfil conforme descrito mais acima.
    Grato por disponibilizar, sempre neste site, tão proveitosos e enriquecedores conteúdos.

  • Que texto maravilhoso, onde o autor coloca a alma em cada palavra, e assim podemos perceber a sua essência, e o melhor; conseguirmos nos identificar com ela. Claro, que tal sabedoria, foi adquirida com o tempo, pois é justamente quando começamos a perceber que já não nos resta ainda, muito mais tempo; é que passamos a deixar de desperdiçá-lo com coisas fúteis e de importância pequena. Perfeito. Colocações ótimas, analisando cada aspecto da vida humana, desde o desgaste com a busca da autoafirmação, indo para a necessidade da aceitação social, a busca em sobressair-se melhor que os demais, a vivência da hipocrisia e da tolerância com os erros e injustiças do mundo, para adaptar-se e poder fazer parte dele. Maravilhoso o modo como o autor conduz as palavras, demonstrando sua impaciência e intolerância com as mesquinhezas humanas. O autor acordou para a vida, ao perceber que não pode mais perder tempo com futilidades, quando o que realmente importa está se descortinando sob seus olhos: a vida, o grande espetáculo da vida, que se torna grandioso justamente pela simplicidade. A essência da vida, é vivê-la. A vida em si é muito mais fascinante quando nos revela o seu verdadeiro sentido. O de ser e apenas usufruir dessa magia diária, desse cenário deslumbrante e dessas descobertas tão óbvias. Viver é tão extasiante, que todo o resto, se torna enfadonho, desnecessário e até mesmo ridículo. A vida se basta!!

  • Polêmicas de autoria à parte, o texto é excelente e, induz sim, a uma profunda meditação.
    Já é tempo de mergulharmos nossas vidas em coisas e fatos essenciais. Banalidades são totalmente dispensáveis. A vulgaridade e a frivolidade, já estão fora de moda, para quem busca uma vida plena de humanismo.
    Namastê!

  • O site propõe-se à polêmica meta do “conhece-te a ti mesmo”. Assim o seu conteúdo desdobra-se em diversas vertentes estimulando reflexões que buscam abrir caminhos para se chegar a essencialidade da vida(no sentido de uma vida sábia, ou iluminada, talvez), ou no sentido pragmático, concentrar-se apenas em assuntos altamente relevantes para a função ou cargo que se ocupa na vida buscando os bons frutos que uma vida assim pode gerar.Bem, conhecer profundamente a natureza humana…quase sempre fugidia, sem uma referencia fixa, sempre em constante mudança, num projetar-se no tempo é um tanto difícil.Nesse sentido, o texto de Gondim (citado como profeta evangélico), pode refletir também a noção de desespero de ver o estoque das cerejas acabarem, sem ter tocado a tão desejada essência…ou pode refletir também o ensinamento do profeta do cristianismo, Jesus, que segundo a história não tolerava os fúteis, os enganadores, os maledicentes mas detinha-se com aqueles que demonstravam um coração puro…

  • Obrigada por esclarecer! A versão original faz mais sentido que a cópia que circula, por isso é fundamental conhecer o autor do texto e a que contexto ele se refere.

  • Eu concordo plenamente com este poema às vésperas de fazer 60 anos.
    Porém fico pensando: devemos segui-lo ou praticarmos a tolerância, o bem de colocarmos nossos sentimentos e idéias para crescermos como ser humano junto ou numa reunião ! ?
    Foi um ato de coragem Ricardo Gondim colocar no papel o que queremos ser.
    Não sei onde fica o sentimento fraternidade … espero
    que com o passar do tempo os valores mudem .
    Não estarei mais aqui mas meus netos sim, desejo um coração amoroso e livre à esta nova geração ?
    No momento estou também Ricardo Gondim . Seletiva.

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