Não queiras ter Pátria / Não dividas a Terra / Não dividas o Céu: 4 cânticos sublimes de Cecília Meireles

Não se engane pelo nome aparentemente religioso católico (“cântico”), porque esses poemas são muito mais: “Os Cânticos são uma oracão ao Eterno, ao Permanente, ao Mais Alto, ao Imaterial, numa ânsia perene de Absoluto. Obra “sui generis”, uma vez que não se percebem mais o sentimento de Angústia do Ser dividido entre o Material e o Espiritual, o Desespero provocado pela Fugacidade do Tempo e a Brevidade da Vida”, diz Miquelina Barra, professora de Italiano da UFMG e tradutora dos Cânticos, obra lírica e espiritual da poetisa, professora e jornalista carioca Cecilia Meireles (1901-1964). A coletânea de 26 poemas, dos quais quatro seguem abaixo, foi publicada em 1982 e inspiram pela profundidade e pela semelhança com ensinamentos de aceitação, entrega, ausência de medo, perda da identificação com o ego, confiança e fusão com o todo.

Seguem os quatro Cânticos:

CÂNTICO IV

I
Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar .
Não queiras ter .
Nasce bem alto.
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,
Como Deus.

II
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens – . .
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade. . .
É a eternidade.
És tu.

III
Não digas onde acaba o dia-
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso. Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

IV
Adormece o teu corpo com a música da vida. Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Queira ser a alma infinita de tudo.
T roca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

~ Cecília Meireles, em “Cânticos”

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

9 Comentários

  • Bom dia, Nando!
    Obrigada por mais esta ”pérola”. Amo a Cecília. Aliás, foi através da obra dela que me encantei com a Literatura.
    Li e reli esses cânticos com amor e agora comovida,permanecerei em silêncio…
    Um abraço afetuoso.

    • Eu também Clície. Fiquei maravilhado (“encantei-me”, “esqueci-me”) com esses cânticos.

      Mestre Dogen, que é um dos maiores mestres Zen que já apareceram, disse uma vez: “Estudar o Zen é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é se esquecer de si mesmo. Esquecer de si mesmo é estar uno com todas as coisas.”

  • Clarice é surpreendente sempre. Esses Cânticos são de um enlevo completo e muitas vezes necessário; percebê-los já é maravilhoso porque vivê-los é desejo que vem e que se vai a exigir de nós atenção e cuidado para não nos perdermos no pequeno da vida que insistimos em parar.
    Muito bom termos o _Dharmalog Nando Pereira!

  • Procuro sempre um sentido para tudo. Hoje uma garoa fina lá fora me torna melancólica. Li e tornei a ler esta maravilha e pensei que realmente pensamos mais em momentos como este. Agradeçi a Deus por isso. e agradeço a voce q deve ser Iluminado.

  • Faço o meu silêncio quieto, me arrepio, reverencio àqueles que me proporcionam ler esses “Cânticos”; pensei que eu tivese a obra completa de Cecília… mas creio, também, que uma verdadeira obra não se conclui em si mesma…Obrigado pela oportunidade de me desconhecer, por tudo, enfim! Carinhosamente.

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