E onde está Deus para que preciseis gritar nos seus ouvidos as vossas queixas e louvores? Do Livro de Mirdad [TRECHO]

Trecho de O Livro de Mirdad, do escritor e poeta libenês Mikkhail Naimy (1889-1988), um dos famosos livros que não fazem parte de nenhuma escola de sabedoria ou filosofia em particular mas que tem o teor de cânone por sua inspiração dita divina. Muito sinteticamente, narra a história da chegada de um estranho ao mosteiro A Arca, localizada no mais alto ponto das Montanhas Alvas, no Pico do Altar, que teria sido construído por ordem do lendário Noé. Em princípio rejeitado pelo Superior do mosteiro, foi aceito como servo, ficou em silêncio durante sete anos, mas no oitavo resolveu falar, e o que tinha para falar é a sabedoria e a essência do Livro de Mirdad. Ele próprio, o estranho, o servo, o protagonista: Mirdad.

O trecho abaixo traz as palavras de Mirdad sobre Deus e a postura do homem em relação a ele, até então predominantemente separatista, inferiorizada, pobre, ritualística e, nas palavras do próprio Mirdad, “cega a ingrata“. Pelo verbo feroz e direto, mas principalmente pelo teor anti-dogmático, O Livro de Mirdad é considerado por muitos uma quebra de paradigma e um daqueles livros capaz de mudar a direção de muitos caminhos pessoais.

O místico indiano Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho (1931-1990), dizia ser este seu “mais estimado livro“.

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“ORAÇÃO”, DO LIVRO DE MIRDAD [TRECHO, PAGS 124-125] Por Mikkhail Naimy

Deus não vos dotou de nenhuma fração de Si – pois ele é indivisível; – mas de toda sua divindade, indivisível, impronunciável Ele vos dotou a vós todos. Que maior herança podeis vós aspirar? E quem ou o que vos impede de vos apossardes dela senão a vossa própria timidez e cegueira?

E em vez de serem gratos por essa herança e em vez de procurarem os meios de tomarem posse dela, alguns homens – cegos e ingratos! – fazem de Deus uma espécie de quarto de despejo ao qual levam suas dores de dentes e de barriga, seus prejuízos nos negócios, suas brigas, suas vinganças e suas noites de insônia.

Enquanto outros fazem de Deus sua casa do tesouro onde esperam encontrar o que desejam, toda vez que cobiçam a posse de todos os pechisbeques deste mundo.

Há ainda outros que fazem de Deus uma espécie de seu guarda-livros particular. Pretendem que Deus deva não só manter em dia as contas de suas dívidas, mas também cobre o que lhes é devido, conseguindo sempre um grande saldo em favor deles.

Sim, são muitas e diversas as tarefas que os homens exigem de Deus. No entanto, poucos se lembram de que se isso estivesse a cargo de Deus, ele as executaria sozinho e não precisaria de homem algum para incitá-Lo a fazê-las ou Lhas recordar.

Por acaso relembrais a Deus das horas em que deve nascer o sol ou pôr-se a lua?

Lembrais a Deus de fazer brotar da terra o grão de milho naquele campo?

Tendes que lembrá-Lo para que aquela aranha acolá teça a sua teia?

Precisais lembrá-Lo dos filhotes do pardal naquele ninho ali?

Por acaso tendes de lembrá-Lo das inúmeras coisas que enchem este infinito universo?

Por que fazeis pressão, com vossos insignificantes seres, em Sua memória? Sois menos favorecidos em Sua vista do que os pardais, o milho e as aranhas? Por que, como eles, não recebeis os vossos presentes e não vos ocupais com vossas tarefas sem muito alarido, sem dobramentos de joelhos, e extensão de braços e sem ficardes ansiosos a espiar o amanhã?

E onde está Deus para que preciseis gritar nos seus ouvidos os vossos caprichos e as vossas vaidades, vossos louvores, vossas queixas? Não está ele em vós e em tudo ao redor de vós?

Não está o Seu ouvido muito mais próximo de vossa boca do que o está vossa língua do vosso céu da boca?

Basta a Deus sua divindade, da qual tendes a semente.

Se Deus, tendo-vos dado a semente de Sua divindade, tivesse que cuidar dela ao invés de vós, qual seria a vossa virtude? E qual será o trabalho de vossa vida? E se vós não tiverdes trabalha algum a executar, mas Deus precisar executá-lo para vós, que sentido terá, então, a vossa vida? E de que valerão todas as vossas preces?

Não leveis a Deus as vossas inúmeras preocupações e esperanças. Não Lhe peçais para abrir as portas das quais Ele vos deu as chaves. Mas buscai-as na vastidão de vossos corações, pois na vastidão do coração se encontra a chave de todas as portas. E na vastidão do coração estão todas as coisas pelas quais tendes sede e fome, sejam do bem ou do mal!.

Um poderoso exército aguarda o vosso chamado e atenderá imediatamente ao vosso mais leve apelo. Quando devidamente equipado, sabiamente disciplinado e corajosamente comandado, poderá saltar eternidades e destruir todas as barreiras que se opuserem ao seu ideal. Quando mal equipado, indisciplinado e timidamente comandado, ele ficará vagando inutilmente ou se retirará com rapidez diante do menor obstáculo, arrastando atrás de si a mais negra derrota.

E não é outro, esse exército, ó monges que aqueles diminutos corpúsculos vermelhos que estão agora, silenciosamente, a circular em vossas veias; cada um deles um milagre de força, cada um deles um registro completo e exato de toda vossa vida e de toda Vida, nos seus mais ínfimos pormenores.

É no coração que este exército se reúne, pois o coração é que faz o seu treinamento. Eis porque é o coração tão famoso e tão reverenciado. Dele brotam as vossas lágrimas de alegria e de tristeza. A ele acorrem os vossos temores da Vida e da Morte. Vossos anseios e vossos desejos são o equipamento deste exército. Vossa Mente é que o disciplina. Vossa Vontade, seu instrutor e comandante.”

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

7 Comentários

  • Este é, sem dúvida, o discurso que eu não teria capacidade de fazer com essa dimensão de grandeza e realidade.
    Por isso a minha frustração.
    Arranca todas as fantasias e cala todas as ladainhas.
    Magnífico.
    Ainda bem que existe lucidez intelectual no mundo!

    • Tenho pra mim que a filosofia e religião são como a escola e o colegial, sendo que “O livro de Mirdad” é a faculdade e o “Caibalion” a pós-graduação. (Acid)
      Boa Sorte, Nac

  • O estado de consciência desperta é uma senda,uma trilha árdua a se conquistar.
    Esse processo só é vivenciado em uma
    verdadeira posição e colocação na vida
    que passa por um verdadeiro desapego,
    é o casamento espiritual segundo Tereza
    D`avila

    • Toni,

      Se depender de mim, acabastes de ganhar o Céu em vida, ao trazeres Tereza D’Avila.

      Ando ‘à cata’ de um texto dela (parecido com o Post da semana passada sobre Plena Presença – Lavando Pratos), onde ela diz: ‘Quanto estou a descascar batatas, estou a descascar batatas’. Conheces? Sabes algo a respeito?

      De qq forma te agradeço e esse ‘processo’, citado por ela, ‘suspeito’ que leva a uma trilha, onde as ‘bifurcações’ vão desaparecendo à medida que aumenta a consciência.

      Desconfio que o livre arbítrio some. Acabam~se as opções. Há um Só agir.
      O Umiverso só ‘protege’ enquanto se desconhece, enquanto se ignora. Adquiriu consciência…
      __/\__ gasshô Norma

  • Já se disse que todo ensinamento, livro, palestra ou conselho, é “um dedo apontando a lua” e que pouco adiantará ficar olhando o dedo. Para ver a lua, é preciso olhar em sua direção. Por mais belas que sejam as palavras, por mais verdadeira que seja a mensagem, de nada valerá se não for vivida. Tenho percebido que todos nós buscadores da verdade nos deparamos com um problema: precisamos de novas mensagens para alimentar uma ascensão idealizada. Entretanto, de tudo que li e vivi até hoje, ocorre-me que já somo um com o Criador, não podemos existir fora Dele. Neste sentido, sendo um com o Pai, temos tudo e somos tudo, apenas, ainda, não aceitamos isto. Esta verdade, se assim for, não pode ser conscientizada pelo processo ordinário do conhecimento intelectual ela se faz presente em vc quando as condições para isto estiverem prontas. Tudo em nós tem origem no Criador, todas as nossas potencialidades se originam Nele. Contudo, as vicissitudes da vida material nos fazem acreditar que somos separados da Fonte, que estamos sós e desamparados neste mundo. De fato, pouco sabemos sobre a Verdade, o que somos, o que é a vida e, por isto, tentamos dar significado àquilo que não entendemos e, assim, surge em nós uma consciência separada da Verdade. A Verdade já está em nós, assim com a árvore já está contida na semente, e, um dia, se manifestará. Para tanto, é preciso abrir mão da consciência própria, da nossa verdade, e, como um simples observador, deixar que a Verdade se faça presente em nós.
    É o que me ocorre no momento.
    Araújo.

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