“Isso é água”: o discurso completo de “anti-formatura” de David F. Wallace, por um viver mais compassivo [VÍDEO]

Um dos discursos do escritor David Foster Wallace (1962-2008) que teve um pequeno trecho publicado aqui semana passada (“Corrida de hamsters versus liberdade real: as consequências de venerar padrões, pelo o escritor David Foster Wallace“, 11/12/2012) é famoso e inspirador demais pra ficar apenas num trecho. O áudio está disponível na íntegra na Internet e o discurso virou livro em 2009, sob o título “This Is Water: Some Thoughts, Delivered on a Significant Occasion, about Living a Compassionate Life“. Com a generosa tradução e colaboração do amigo Andre Resende, que legendou o discurso completo de formatura que Foster Wallace deu na Kenyon College (Ohio, EUA), em 2005, e que publicou no YouTube, o vídeo está legendado em português e publicado no fim desse post, na íntegra.

Uma das características mais interessantes da mensagem vem da explicação de Wallace de que o que está fazendo não é um sermão nem um elogio às importantes virtudes para a vida, e sim uma necessidade óbvia de se libertar da hipnose do “constante monólogo dentro da sua cabeça”. Usando comparações, historinhas didáticas e explicações incisivas, como a passagem em que explica como pensamos arrogante e inconscientemente num dia comum de nossa vida urbana, Wallace começa a “des-formaturizar” o evento já na abertura do seu discurso, quando endereça sua mensagem de liberdade mental que faz questão de desejar aos formandos. Eis um trecho do início:

“É claro que o principal requerimento de discursos como esse é que eu devo falar sobre o significado da sua educação em artes liberais, devo tentar explicar por que o diploma que vocês estão prestes a receber tem um valor humano real ao invés de somente retorno material. Então vamos falar sobre o cliché mais difundido nos discursos de colação de grau, que diz que uma educação em artes liberais não se trata apenas de te encher de conhecimento mas sim serve para te “ensinar a pensar”. Se você é como eu era quando estudante, você nunca gostou de escutar isso, e você tende a se sentir um pouco insultado pela afirmação de que você precisou que alguém te ensinasse a pensar, já que o fato de você ter entrado numa faculdade tão boa como essa parece uma prova de que você já sabe como pensar. Mas eu vou mostrar para você que o cliché das artes liberais acaba não sendo ofensivo, porque a parte significante da educação em pensar que nós devemos receber num lugar como esse, não diz respeito à capacidade de pensar, mas sim àescolha sobre o que pensar. (…)”
~ David Foster Wallace, discurso de formatura Kenyon College 2005

Numa versão curta, o que David Foster aponta é a necessidade vital de estarmos “conscientes o suficiente”. Porque não estar significa não ter liberdade verdadeira.

A tradução une trechos publicados pela Revista Piauí e pela designer paranaense Lygya, do blog Life On A Plate. Com os agradecimentos ao Andre, à Lygia e à Piauí, segue o vídeo abaixo (clique no ícone de caption na base do vídeo para ativar as legendas):

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

12 Comentários

    • Germano, impossível responder a essas perguntas. A história dele é a história dele e só ele sabe. De fora, o que se sabe, por exemplo, via verbete dele na Wikipedia, é que ele sofria há 20 anos de depressão profunda (o que provavelmente o ajudou a chegar às conclusões que ele usa nesse discurso), que tentou se livrar da dependência de uma das drogas antidepressivas que tomava e que chegou a passar por eletrochoque, o que deve ter sido um trajeto bastante difícil e sofrível.

      Cabe a cada um de nós ver lucidez (ou não) no que ele fala, porque a luta pessoal dele não o impede de ter momentos de lucidez, de grande lucidez até, ao ponto de ser convidado para palestra numa formatura e fazer um discurso como este. O motivo dele estar aqui é que esse discurso tem muita semelhança com um tipo de escravidão que ainda é mito no Ocidente, que é invisível e que não se fala muito na academia, mas que é um passo fundamental para o auto-conhecimento e qualquer coisa que chamemos de “espiritual”. E ele fez isso num momento corajoso, numa formatura. E é um discurso de liberdade.

      Mas, mesmo que houvesse uma contradição entre as palavras e uma ação (porque você está questionando apenas uma, certo?), você acha que não deveria ou não poderia levar a sério o discurso que ele fez 3 anos antes?

      PS: Outras pessoas que hoje se dedicam à tarefas espirituais já passaram por períodos de depressão, como Echkart Tolle (“O Poder do Agora”) e Gary Renard (“The Disappearence of the Universe”), entre outros.

      Um abraço,

      Nando

    • Não vejo como contradição, porque no momento do discurso vemos uma incrível lucidez, mas isso não significa que ele não tivesse momentos de escuridão, de confusão e ilusões, como todo ser humano. É algo que ele repete no discurso: em como é difícil ver o óbvio.

      Recomendo o texto publicado na Folha de S.Paulo sobre a biografia lançada sobre o Wallace, para entender melhor os “demônios” que o atormentaram:

      http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1159010-david-foster-wallace-era-nerd-e-dandi-diz-biografo.shtml

  • Já conhecia e tinha como referência este discurso de David Foster Wallace. Também me identifico bastante com a maioria dos posts deste site. Engraçado nunca ter associado as duas coisas… Mas agora faz muito sentido!

  • Nando,

    Foi muito proveitoso o retorno à sabedoria do Discurso do DFW. (Deu tempo para pensar).
    Há uma espécie de reverência aos que desceram ao “Hades” e dele retornaram.
    Porém, aqueles que sucumbiram (olharam para trás, comeram a romã ou simplesmente desistiram) ficam, mesmo que veladamente, assinalados/estigmatizados como os que não conseguiram voltar. É possível que a nossa falta de maturidade não nos facilite ver que os momentos de luz desses, são tão grandiosos quanto enormes são suas trevas.

    Só para citar alguns: Florbela Espanca, Alfonsina Storni, Silvia Plath, Pedro Nava,Tchaikovski e E. Hemingway (este um ‘hors concours‎’ em “saída estratégica pela direita”( teve o pai, irmã, irmão e uma sobrinha que se mataram, enquanto ele tentou cinco vezes o próprio suicídio. Numa delas, tentou se jogar nas hélices de um avião. Por fim, matou-se dando um tiro de espingarda na boca, puxando o gatilho com os pés), só para citar alguns.

    O brilho, a beleza, a sabedoria de suas obras foram embaçadas, desacreditadas por suas escolhas a um desfecho fatal, colocar um ponto final ao sofrimento de viver uma vida que estava aquém do sonhado por suas almas, já que habitavam um corpo cujo metabolismo não funciona à contento e as suas células nervosas não se comunicam (reação química) ?
    Não aguentaram. Pararam o mundo e desceram. Mas deixaram para os que ficaram: bússola, compasso e… mapas!

    Lembrei de Mário Quintana, pela 2 vez essa semana:

    “Da vez primeira em que me assassinaram,
    Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
    Depois, a cada vez que me mataram,
    Foram levando qualquer coisa minha”.

    Grata pelo fluxo contínuo de material de suporte para à busca por respostas e de motivação para o aprendizado, muito além das ‘orelhas’.
    Boa Sorte. Norma

    (E Jung, e Osho e… ?)

    • Belas adições, Norma. Pra ver quanta gente já passou por algo parecido.

      Ainda que pese a história e a vida dos outros, nossa vida e nossa decisão sempre são nossas. De que adiante eu aqui dizer se há ou não contradição entre uma coisa e outra? Cada um que pense o que quiser — ou puder, ou quiser escolher pensar, fazendo um link com o próprio discurso.

      Um abraço grande e obrigado,
      Nando

  • É muito importante, não perdermos a consciência,quando lemos, vemos ou ouvimos mensagens profundas, inspiradoras e tão cheias de luz, concebidas em momentos de puro êxtase,de que essas pessoas são seres humanos iguais ao resto de nós, portanto, lutam, choram, buscam significado em suas vidas, acertam e erram muitas e muitas vezes. Até vejo uma certa coerência entre suas palavras e seu ato. Foi da sua dor interior que nasceu tão belos pensamentos. Não lhe traz a lembrança a flor de lótus que nasce do pântano?

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