O paradoxo da oração na visão do jornalista anti-teísta (e irônico) Christopher Hitchens: rezar para quem e por que?

Esse trecho do livro “Últimas Palavras” (Mortality, 2011, GloboLivros), do jornalista anti-teísta americano Christopher Hitchens (1949-2011), apesar de rígido e equivocado em sua conceituação unidirecional da oração, traz uma reflexão interessante – e também irônica, como era de seu estilo – sobre o motivo de rezar. Sobre o lado egoísta e paradoxal de se pedir algo a uma entidade superior (que ele classifica invariavelmente de “Deus”), prática enfatizada e prescrita por várias religiões do nosso tempo. Hitchens era considerado uma das principais personalidades do chamado Novo Ateísmo, se intitulava “anti-teísta” e falava principalmente contra as religiões abraâmicas, ou “os três grandes monoteísmos” (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), mas minha impressão particular é que seu anti-teísmo, por assim dizer, era quase que exclusivamente um combate frontal contra as manipulações das religiões dominantes do mundo do que, em essência, uma conclusão de pesquisa metafísica ou de sabedoria interior. Nesse ponto, seu anti-teísmo talvez seja quase um serviço à cultura de uma verdadeira espiritualidade.

Hitchens escreveu o recém-lançado livro “Últimas Palavras” nos 18 meses anterior à sua morte, em 2011, em Houston (EUA). O trecho traduzido para o português é o seguinte:

“Muitos leitores estão familiarizados com o espírito e a letra de definição de “prece” segundo Ambrose Bierce em seu Dicionário do Diabo. Extremamente fácil de compreender, é assim:

Oração: pedido para que as leis da natureza sejam suspensas em benefício do orador; ele mesmo confessadamente não merecedor.

Todos podem notar a piada que está contida nessa definição: o homem que reza é aquele que pensa que Deus dispôs as coisas de maneira completamente errada, mas que também é aquele que pensa que ele pode instruir Deus a consertá-las. Imersa em contradição está a incômoda idéia que ninguém está no comando, ou ninguém que tenha qualquer autoridade moral. O apelo à prece anula a si mesmo”.
~ Christopher Hitchens, em “Últimas Palavras” (pgs 29 e 30)

É curioso notar que, mesmo sendo uma visão notadamente “monofásica” da oração, a de um tipo em que uma pessoa apenas pede algo para si ou para uma situação específica (visão que cabe bem ao ateísmo), essa categoria de prece parece ser um tipo “religiosamente” bastante praticado. E, talvez (e, nesse caso, o que seria realmente questionável), recomendado pelas mesmas religiões que Hitchens criticava.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

6 Comentários

  • “é que seu anti-teísmo, por assim dizer, era quase que exclusivamente um combate frontal contra as manipulações das religiões dominantes do mundo do que, em essência, uma conclusão de pesquisa metafísica ou de sabedoria interior”. – Nando Pereira
    ++++++++

    “I rest my case” – Pisc*

    Nenhum argumento adicional se faz necessário, exceto talvez, a lembrança do Osho, o mestre indiano e filósofo, quando fala que a verdade é perigosa, ela só acredita vendo. Precisa de uma busca, de uma procura, mesmo sabendo que não haverá garantia de uma reposta real. Até certo ponto a verdade é perigosa, mas você é o OBSERVADOR. Você é uma testemunha, um observador … Bem afastado. Observe bem.
    Grata. Boa Sorte, Norma

    Obs.:E de maneira alguma descarte suas experiências pessoais vividas (Fé e seus resultados estão acima das crenças mundanas), pois você é o Pesquisador da sua Vida, aquele que sabe (ou em processo de aprendizado) o que funciona em e/ou com você. Nac♥

  • No sentido mais informal da expressão jurídica, ou seja:
    O Nando “matou à pau”. Alvo atingido! Nada mais a acrescentar. Agora eu sou ‘claque’!
    É o que penso, sinto, intuio, mas tudo já foi dito (e de forma irretocável) em:

    (…)
    contra as manipulações das religiões dominantes do mundo ♥♥♥DO QUE, EM ESSÊNCIA♥♥♥ uma conclusão de pesquisa metafísica ou

    (…)

    Essa foi (toda) a intenção.
    Norma

    +++++++

    Vish! Eu me ‘contorço’ p/enfatizar o que julgo o ‘cerne’ e que quero ressaltar.
    Crise de abstinência (circunstancial) de negritos, itálicos, highlights e afins, em 5…4..3… rs.

  • Ninguém diria com tamanha precisão que Deus está em tudo e de forma absolutamente harmoniosa (Deus de Einstein e de Spinosa) e nada está fora do lugar ou falta que esse outro deus dê ou tire na caso de uma oração para vencer uma guerra ou luta.

    Ele sabia muito bem o que estava dizendo.
    Rezar pra quê e pra quem? bela pergunta que suscita profunda reflexão, tão distante de quem cegamente crê na oração cega. não que a oração não opere milagres, embora a causa seja a pessoa mesma que o põe em curso.

  • Deus, um delirio (God, Delusion) de Richard Dawkins foi lançado em 2007 e é considerada uma das grandes influências do neo-ateismo ao lado de outros best-seller de gente do nível de Daniel Dannet, Harris e Hitchens. Todos juntos formam uma empreitada anti-religião resultado de um contexto histórico-social caracterizado por atrocidades e danos cometidos por fanáticos religiosos a humanidade (11 de Setembro, por exemplo) que levou a uma repulsa ao fanatismo e as crenças religiosas em geral . Embora, claro, isto não passe de uma constatação apenas aparente. Dawnkins usa de seu intelecto afiado para fazer criticas demolidoras e sarcásticas as religiões e crenças em deuses, que acredita ser extremamente prejudicial as pessoas, deixando claro que elas não merecem respeito algum e são completamente desnecessárias.

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