As 10 Coisas Que Não Devem Ser Abandonadas, segundo as instruções de Gampopa para os praticantes do Dharma

O autor original desses ensinamentos é o venerável mestre budista Gampopa Sonam Rinchen (1079–1153), que foi ninguém menos que o principal estudante e discípulo de Jetsun Milarepa (1052-1135), célebre iluminado e um dos maiores yogues e poetas budistas da história. Mas quem nos traz “As 10 Coisas Que Não Devem Ser Abandonadas“, parte do livro “As Instruções de Gampopa” (The Instrucions of Gampopa”), é o nosso contemporâneo lama budista tibetano Khenpo Karthar Rinpoche, hoje com 88 anos, que serve como abade em um monastério na cidade de Woodstock, em Nova York (EUA).

As 10 coisas que não devem ser abandonadas se referem à coisas de nossa vida e nossa prática na trilha do “caminho supremo”, ou o Dharma, de acordo com os ensinamentos budistas tibetanos. Mas são, igualmente e simplesmente, 10 coisas que podemos estar atentos e não abandonarmos em nossa própria vida comum – independente de escola, crença, prática ou origem.

O livro “As Instruções de Gampopa” é dividido em capítulos onde são enunciadas 28 listas diversas com importantes pontos para o caminho, como “As 10 Coisas Desnecessárias”, “As 10 Coisas A Serem Conhecidas”, “As 11 Marcas de Um Homem Santo”, “As 14 Coisas Inúteis”, entre outras. Ilustrando as listas estão histórias que trazem a vida do próprio Milarepa, além dos sábios Shantideva, Tilopa e Nagarjuna. Os comentários contidos na lista são do próprio Khenpo Karthar Rinpoche, pronunciadas oralmente para seus discípulos  no final do ano de 1991 e transcritas e traduzidas para o inglês pelo Lama Yeshe Gyampso. A tradução para o português foi feita livremente por este blog.

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As 10 Coisas que Não Devem Ser Abandondas” [TRECHO] Por Gampopa

“A seguir estão as 10 coisas que não devem ser abandonadas.

Para começar, a compaixão não deve ser abandonada porque é a raiz de qualquer benefí­cio que podemos dar aos outros.

A segunda coisa a não ser abandonada são as aparências. Já que as aparências são a maneira natural que a mente se mostra, é desnecessário abandoná-las. Tilopa indicou isso quando disse, “Não são as aparências que te acorrentam, mas a fixação nelas. Então abandone a fixação”. Não é o que você experimenta que causa confusão, é a sua fixação na idéia que as experiências são o que inerentemente parecem ser. Portanto, apenas a fixação precisa ser renunciada.

A terceira coisa é que o pensamento não precisa ser abandonado, porque é o jogo da natureza última ou dharmata. Como é dito na oração da linhagem Kagyu, “A natureza do pensamento é o dharmakaya”. Se nós formos capazes de olhar diretamente para a essência do pensamento, então qualquer pensamento que aparecer estará auto-liberado. Se nós pudermos colocar isso em prática, não há necessidade de tentar removar os pensamentos ou abandoná-los seja de que maneira for.

A quarta coisa a não ser abandonada se aplica primariamente àqueles com percepção. As aflições mentais são a indicação da sabedoria e portanto precisam não ser abandonadas. A presença da estupidez em nossa experiência, da aversão, orgulho, desejo e inveja indica a presença de nosso contínuo de sabedoria da dharmadatu, a sabedoria espelhada, a sabedoria da equanimidade, a sabedoria discriminadora, e sa sabedoria da atividade. Uma vez que as aflições mentais são apenas a apresentação das sabedorias que são suas essências, alguém que tem a percepção para experimentar isso diretamente precisa não abandoná-las. É importante analisar essa afirmação porque pode parecer muito estranho encará-la. Apenas alguns minutos atrás foi dito a você que você deveria abandonar as aflições mentais, e agora você ouve que não tem que abandoná-las. Isso não é uma contradição, mas a demonstração da diferença na maturidade dos praticantes de vários níveis de ensinamento. A abordagem para iniciantes, que é necessária para abandonar as aflições mentais, é como a necessidade de escadas. Alguém que não tem asas e que deseja chegar ã segunda história deve subir um jogo de escadas. O processo de subir é como o processo de subjugar as aflições mentais. Alguém que tem asas como um pássaro não precisa de escadas e pode voar direto pra segunda história. Ter asas corresponde a ter a percepção de ser capaz de implementar a profunda sabedoria do mantra secreto. Assim, esses dois conselhos não são contraditórios mas são direcionados aos indiví­duos de diferentes níveis de prática.

O quinto ponto está na mesma categoria do quarto. Os objetos de desejo que aparecem para os cinco sentidos não devem ser abandonados porque são a água e o adubo da experiência e da realização. Para o praticante com alguma percepção e alguma experiência forte, não há fixação grosseira em sua existência inerentemente inputada. Não há forte apego ao ego, e na ausência disso, não há sentimento ou conceito inerente de propriedade ou autoria. Para tais yogues e yoguinis, não importa quantas coisas os cerquem, não importa quanta riqueza ou prosperidade eles experimentem, eles não tem um sentimento de identificação com ou propriedade dessas coisas. É como se fossem lindos animais selvagens vagando ao redor das coisas. Quando vemos animais selvagens, não sentimentos “este é meu tigre” ou “este é meu alce”. Podemos apreciá-los, mas não há fixação neles.

Por exemplo, quando ofereceram a Jetsun Milarepa uma comida muito nutritiva, isso foi de enorme benefício e melhorou sua percepção tremendamente, mas ele não desenvolveu nenhum apego – nesse caso, pelo gosto. Não é uma questão de indulgir no desejo dele, era uma questão de fortalecer seu corpo. Da mesma maneira, praticantes avançados pode usar comida e bebida como substâncias de jejum. Há, também, práticas em que a roupa que se veste é consagrada como a armadura do mantra. Essas são práticas que servem aos praticantes avançados com alguma experiência direta. É importante entender que diferentes conselhos nesse texto são oferecidos a praticantes de diferentes níveis.

A sexta coisa que não é para ser abandonada é a doença, o sofrimento e a dor, porque são excelentes professores. Quando nos tornamos distraí­dos e nos envolvemos em coisas errradas, ou quando simplesmente não estamos conscientes, ou não experimentamos a renúncia estável, às vezes alguma porção de sofrimento por nos lembrar muito diretamente e efetivamente do que deve ser evitado, do que deve ser renunciado, e o que o sofrimento realmente é. Por exemplo, se nós experimentamos uma certa quantidade de dificuldade física como seres humanos, então podemos considerar o quão mais desagradável seria ser renascido em dimensões mais baixas, onde o sofrimento é muito pior. Isso pode nos inspirar a tentar evitar o renascimento em dimensões inferiores. Assim, tais situações difíceis não precisam ser evitadas, porque algumas vezes podem ser muito úteis.

De acordo com Shantideva, nossas experiências de sofrimento por ser benéficas porque elas nos entristecem, e a tristeza nos traz de volta a nós mesmos e corta nosso orgulho. Através da perda da nossa forte arrogância somos capazes de experimentar compaixão genuí­na pelos outros. Pensamos, “Estou sofrendo esse tanto, se é assim desagradável, como deve ser para os outros?”, e nós podemos apreciar o sofrimento dos outros. Isso nos leva a evitar ações erradas e aquilo que agride nós mesmos e os outros, e nos leva a um encantamento natural pelo que é virtuoso. Assim há algum benefí­cio em tais experiências.

A sétima coisa a não ser abandonada são os inimigos e obstrutores, porque naturalmente nos estimulam à prática. Do ponto de vista (do Budismo) Mahayana, a base da conquista da “budacidade”, nossa realização da natureza última, é o cultivo de tais qualidades como a paciência. A única maneira possí­vel pela qual podemos cultivar a virtude da paciência é através de situações em que lidamos com nosso azar ou agressão. Por esse motivo, pessoas que são agressivas conosco são nossas assistentes na prática, e como elas aparecem naturalmente, dizemos que são um estímulo natural à prática. Elas também são o estí­mulo que nos leva à realização da natureza verdadeira de todas as coisas, que é a “budacidade”.

Entretanto, se inimigos ou obstrutores desaparecem espontaneamente, é um sinal de realização (siddhi) e você não tem que rejeitar esse resultado. Situações desagradáveis desaparecem mesmo que você não tenha feito nenhum esforço especial para removê-las, e você não deve tentar trazê-las de volta. Se você tiver mérito e realização, em muitas instâncias isso fará com que situações em que os outros eram agressivos com você sejam pacificadas naturalmente. Quando isso acontece, você não deve pensar que algo está errado. Por eemplo, quando o rei tentou matar o professor Nagarjuna com várias espadas tentando atingir seu pescoço, o rei não foi capaz de machucar Nagarjuna porque Nagarjuna não tinha o karma para ser machucado. Da mesma maneira, alguém com realização naturalmente não encontrará muitos inimigos e obstruções, e isso é um sinal de siddhi, é um sinal de realização. Só porque a presença de inimigos nem sempre é maléfica, isso não significa que a ausência de inimigos é necessariamente maléfica.

A oitava coisa a não ser abandonada é o progresso metódico passo-a-passo no nosso estudo e prática, porque isso é o que nos eleva às alturas da compreensão definitiva. Nós deveríamos pensar que o progresso gradual pelos vários estágios ou veículos de prática deve ser abandonado porque nao parecer ser o significado final dos ensinamentos do Buda. Esse raciocínio é incorreto. Todos os grandes professores e mestres do passado aprenderam em todos os vários estágios e veículos dos ensinamentos do Buda, e a partir disso é que finalmente chegaram à compreensão definitiva associada com o Vajrayana. Para o nosso próprio desenvolvimento, devemos praticar de uma maneira que irá gradualmente amadurecer nossa visão em direção ao significado do Dharma. Há muitos estágios para que isso aconteça e todos eles devem ser cultivados. Assim também não devemos abandonar ou insultar aparições do Dharma que são feitas em estilos diferentes ou em níveis diferentes, porque todos esses são apropriados para as necessidades e disposições de seres diferentes.

A nona coisa a não ser abandonada são as várias práticas do Dharma que envolvem atividade física, porque essas são genuínas práticas que amadurecem a mente e são benéficas. Isso significa não abandonar as prostrações, a circunambulação e outras práticas externas do Dharma porque elas na verdade nos beneficiam; elas realmente trazem resultados.

A décima coisa a não ser abandonada é a intenção de beneficiar os outros, mesmo quando não temos muita habilidade de beneficiá-los diretamente neste momento. Geralmente, quando as pessoas começam a praticar, elas pensam “Qual é o benefício de dizer ‘Vou realizar essa prática para o benefício de todos. Vou beneficiar os outros no futuro em tais e tais maneiras?’ Já que eu não estou fazendo algo que beneficia os outros neste momento, qual o significado disso? Não posso fazer nada que beneficie ninguém”. Na verdade, há o mesmo potencial nessa atitude altruística para produzir os resultados práticos quando há na semente para produzir uma flor. Se você dizer que não é benefício nenhum no altruísmo, então é como dizer que uma semente não produzirá a flor. Da mesma maneira que o altruísmo em si mesmo não é um benefício aos outros, uma semana não é uma flor. Uma semente não é nem um broto. Mas não importa, sem a semente não há a possibilidade de gerar o broto e as folhas e a flor, por isso é importante começar com a atitude e a intenção que será de vasto e grande benefício aos outros.

No início do caminho ninguém pode realizar os amplos atos de um bodisatva. Quando o Buda gerou a primeira intenção de alcançar a iluminação suprema, ele não era capaz de fazer muita coisa para ajudar os outros. Conforme o tempo passou, ele se tornou extraordinariamente capaz de ajudar os outros. Nos dias de hoje, as pessoas tem dúvidas enormes sobre isso. Quando as instruções são dadas em assuntos como bodicita, as pessoas normalmente dizem “Qual a possível utilidade disso? Não posso fazer nada”. É importante não abandonar o altruísmo meramente porque você parece não ser capaz de fazer muita coisa agora.

Estas são as 10 coisas a não serem abandonadas.”

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

5 Comentários

  • “As 10 Coisas Que Não Devem Ser Abandonadas”. O autor original desses ensinamentos é o venerável mestre budista Gampopa Sonam Rinchen (1079–1153), que foi ninguém menos que o principal estudante e discípulo de Jetsun Milarepa (1052-1135), célebre iluminado e um dos maiores yogues e poetas budistas da história.
    Ainda que não seja praticante do Budismo a leitura pode nos inspirar.

  • Familiar, já que é forte a sua influência nas orientações deixadas p/Nitiren.

    Lindamente abragente (texto)em sua aparente simplicidade. Simples, não fácil!

    Todos os 10 tópicos me falam algo, porém o oitavo me pega pela mão, porque me dá uma visão global do caminho percorrido (4a. coisa) e me inspira com à gratidão aos degraus anteriores, que ainda continuam ali e assim permitindo o meu recomeço, em caso de resvalo…

    Grata ao Dharmalog, não só p/tradução, mas por ter mantido no texto em português, características de um Gosho(escritura).

    _/\_ pelo ‘ritmo’ imprimido ao Post.

    Boa Sorte, Norma

  • Aquilo que deve ser abandonado é a necessidade de tudo entender, de tudo justificar e aceitar-se como é. É na diferença entre aquilo que se é e aquilo que desejamos ser, que surgem todos os conflitos. :)
    Paulo Renato

  • As 10 coisas que não devem ser abandonadas, segundo as instruções de Gampopa para os praticantes do dharma!
    Gostei bastante dessa matéria postada Nando, mas eu precisaria mesmo de um professor pra me explicar essas coisas de dharma.. se vc puder me passar algum livro pra ler, eu agradeceria de coração.
    Todas as matérias são interessantisimas, mas, eu preciso de bastante silencio; e nenhuma interrupção, pra começar entender tbem. Abraços.

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